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As forças da ordem previram dois milhões de coletes amarelos nas ruas de Portugal
Portugal 1 8 min. 25.12.2018

As forças da ordem previram dois milhões de coletes amarelos nas ruas de Portugal

As forças da ordem previram dois milhões de coletes amarelos nas ruas de Portugal

Foto: LUSA
Portugal 1 8 min. 25.12.2018

As forças da ordem previram dois milhões de coletes amarelos nas ruas de Portugal

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O comando da polícia portuguesa passou semanas a enviar para a comunicação social notas de imprensa em que se divulgava uma grande manifestação que estaria a ponto de parar o país, suspendeu as folgas aos agentes e lançou mais de 19 mil polícias na rua. O maior sindicato da PSP exige à direção da PSP que explique como é possível tal "engano". Para a ASPP um erro deste tamanho penaliza os polícias e põe em causa a "segurança do país".

A direção da PSP previu que dois milhões de coletes amarelos sairiam à rua, em Portugal, no dia 21 de dezembro, e empenhou todo o efetivo disponível (cerca de 19 mil elementos, incluindo agentes com funções não policiais) para garantir a segurança e a ordem durante os protestos, segundo afirma o site Correio da Manhã (CM), citando fontes internas dessa polícia. Os Serviços de Informações e Segurança (SIS) e os serviços de inteligência da PSP monitorizaram as redes sociais em que o protesto terá nascido. E foi, sobretudo, com base nessa análise da adesão aos eventos de protesto e da movimentação em várias páginas nas redes sociais que se efetuou a estimativa de presenças.

A PSP quis jogar pelo seguro. Além de ter proibido folgas na sexta-feira, a direção da Polícia interrompeu as férias de operacionais e desviou outros dos gabinetes para a rua. Isso somado com a mobilização de efectivos de outras forças de segurança, como a GNR, fez com que estivessem na rua dezenas de milhares de agentes da autoridade. Apesar do gigantesco dispositivo, a manifestação foi quase inexistente, não fossem as centenas de jornalistas presentes e os milhares de polícias nas ruas. O CM garante que a direção da PSP contabiliza que na rua se constatou um rácio de mais de cinco polícias por manifestante. Um número ainda assim muito inflacionado. Olhando para o número de manifestantes em todo o país, menos de 500, e para os 19 mil polícias mobilizados, o número seria de quase 40 para um, sem contar com os efetivos da GNR também nas ruas.

Segundo revela o presidente do maior sindicato da PSP, a ASPP, Paulo Rodrigues, ao Contacto, nesta recolha de informações não esteve apenas envolvida a PSP, mas também os Serviços de Informação e Segurança, a GNR e um conjunto de órgãos de polícia criminal e todo o aparelho de segurança do Estado. Todas essas informações foram coligidas e esse processo foi acompanhado pela secretária-geral da Segurança Interna, Helena Fazenda, e foi nessa altura que se apontou um número de manifestantes possível superior a dois milhões.

A realidade foi muito diferente: “No Porto tínhamos 60 coletes amarelos, em Lisboa pouco mais de 200, em todo o país não devem ter passado das 400 pessoas. Só a PSP mobilizou quase 19 mil pessoas, mais a GNR e outras forças de segurança: pode-se perceber o tamanho do erro de avaliação”, declara Paulo Rodrigues. Para a ASPP estão em causa duas coisas fundamentais: “Por um lado, a segurança do país: quem faz um erro deste tamanho, pode perfeitamente achar que não há perigo de terrorismo e haver; por outro lado, existe um erro da utilização abusiva de meios. Os 19 mil polícias que foram mobilizados não recebem mais um euro que seja, e foram mobilizados e obrigados a trabalhar para nada. Quando nós, os polícias, cometemos um erro, somos alvo de uma série de procedimentos disciplinares, às vezes chegamos a ser punidos quatro vezes. Quem cometeu este erro, tem de ser responsabilizado”.

É por isso que a ASPP vai escrever uma carta ao primeiro-ministro, António Costa, a pedir que seja feito um apuramento das responsabilidades. “É preciso rever os procedimentos e saber o que falhou e responsabilizar as pessoas que falharam”, conclui. “Numa empresa estariam todos despedidos. Mas aqui é mais fácil colocar os polícias a trabalhar, porque o custo desse trabalho vai ser zero. Aos 19 mil polícias ninguém vai pagar um euro a mais, por terem ido trabalhar, sair de férias e e de folgas. Há um subsídio de piquete de 150 euros, mas nunca é pago”, declara o presidente da ASPP.

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O papel pouco claro da PSP

Recorde-se que com vários dias de antecedência, o comando da PSP informou a agência Lusa que previa “manifestações de grande dimensão em todo o país”. “Vamos ter manifestações de grande dimensão em todo o país e mandam as regras do bom senso ter pessoal operacional”, disse à Lusa o porta-voz da Direcção Nacional da PSP, intendente Alexandre Coimbra, adiantando que a preocupação nesse momento se prendia com a dimensão do evento e não com qualquer informação de possíveis confrontos.

Pelos vistos, a informação divulgada pelo porta-voz da PSP resultava de um trabalho de recolha de informação de várias polícias, os serviços de informação e até organismos de polícia criminal, como a DCCB e a PJ. A PSP informou a comunicação social de que iria chamar os seus agentes que estivessem em folgas e créditos de tempo, dando uma imagem de emergência. Era preciso mobilizar 20 mil polícias, algo semelhante à proporção da mobilização da polícia francesa. Isto sem contar com a mobilização de elementos da GNR fora das grandes cidades que são policiadas pela PSP. Como foi dito, era um “dispositivo adequado”, mas pedia-se que tudo fosse pacífico.

Dois dias antes do dia de protesto, a PSP – de novo – divulgou o mapa das manifestações programadas, com locais e horas previstas. Previa-se que as tais manifestações de grandes dimensões ocorressem em 17 pontos do país: Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Viseu, Viana do Castelo, Setúbal, Coimbra, Santarém, Castelo Branco, Bragança, Évora, Faro, Guarda e Leiria. Também foram formalmente comunicadas manifestações nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira.

Houve mesmo sites, como recorda João Ramos de Almeida do blogue Ladrões de Bicicletas,  que usaram uma expressão equívoca, mas que até correspondia à realidade: "PSP divulga locais de manifestações".

“A direção da polícia não só afirmou que os protestos seriam gigantescos, como divulgou os locais das concentrações, como até descreveu como seria a sequência dos protestos na capital: previu que a maior manifestação seria no Marquês de Pombal em Lisboa, onde estão previstas ’centenas de pessoas’ e – pasme-se! – que é de lá que deverá partir um desfile em direcção à Assembleia da República durante a manhã. O que nunca veio a acontecer”, notam os Ladrões de Bicicletas.

Estas informações teriam sido prestadas depois de contactos entre a PSP e os organizadores das manifestações. Fontes da PSP chegaram a desmentir a ligação do movimento à extrema-direita. Para já, uma das principais conclusões da PSP é que não se confirma a alegada ligação à extrema-direita dos mentores do Movimento Coletes Amarelos Portugal (MCAP) – que organiza o protesto. “Aquilo que tem sido identificada é uma militância organizada, sem ideologia e muito populismo”, apurou o JN junto da PSP.

O evento “Vamos Parar Portugal Como Forma de Protesto”, criado na rede social Facebook e alegadamente suspenso por essa rede social, teve mais de 10 mil pessoas a indicarem que iriam e cerca de 50 mil pessoas interessadas no mesmo, o dobro da votação do PNR. Tratava-se de uma série de ações agendadas para o dia 21 de dezembro, em Portugal, apanhando a boleia dos coletes amarelos em França. As seis pessoas que subscreviam o evento diziam: “Não é nenhuma manifestação, isso já fazem 200 por ano e nada é feito! Isto é um bloqueio! Um protesto! Uma revolta do povo unido até o povo ser ouvido!”.

Na mensagem de promoção do evento argumentava-se: “Somos um dos países que recebe menos e paga mais impostos, etc, e ficamos caladinhos como sempre. Temos países a receber o dobro de nós, assim que existe algo que não agrade, reclamam, exigem, protestam até serem ouvidos, e nós portugueses? Chega, vamos dizer basta ao aumento dos combustíveis, portagens e tudo o resto que está mal!”.

São seis os organizadores que há pouco mais de um mês criaram o evento. Vivem na Zona do Oeste, são operadores de telemarketing, pasteleiros e há até um instrutor de artes marciais. Já se conheciam, pensaram paralisar a A8 e, em poucos dias, viram a ambição crescer. “Com a adesão que temos tido, esperamos que seja em Portugal inteiro”.

No entanto, a ligação da convocatória à extrema-direita parece indesmentível. Segundo o site dirigido pelo jornalista Fernando Esteves para assinalar ’fake news’, “três dos seis organizadores têm publicações de cariz extremista e xenófobo nas respetivas páginas no Facebook. Desde mensagens de apoio a Jair Bolsonaro no Brasil até demonstrações de saudosismo pelo regime de António de Oliveira Salazar em Portugal, passando por apelos à adesão ao movimento de André Ventura, Chega!, o qual defende ’trabalho obrigatório nas prisões’ e ’castração química de pedófilos’, por exemplo”. Como é indesmentível a promoção que o PNR fez ao evento.

Neste processo, todas estas informações oficiais da PSP tiveram como efeito potenciar a cobertura da comunicação social às supostas grandiosas manifestações. Os meios de comunicação social reproduziram estas informações oficiais e acabaram por participar maciçamente na convocação das manifestações. Apesar de toda essa montanha de “ajudas”, a manifestação foi completamente pífia.

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