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As estátuas do presente
Opinião Portugal 6 min. 17.02.2021

As estátuas do presente

O Capitão Marcelino da Mata participa na manifestação de comandos africanos, da Guiné-Bissau, junto ao Ministério da Defesa contra o abandono por parte das autoridades portuguesas, em Lisboa a 21 de agosto de 1986.

Manuel Moura / Lusa

As estátuas do presente

O Capitão Marcelino da Mata participa na manifestação de comandos africanos, da Guiné-Bissau, junto ao Ministério da Defesa contra o abandono por parte das autoridades portuguesas, em Lisboa a 21 de agosto de 1986. Manuel Moura / Lusa
Foto: Arquivo Lusa
Opinião Portugal 6 min. 17.02.2021

As estátuas do presente

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Quem é o "nós" que celebra Marcelino da Mata como "herói"? De que "heróis" precisa a direita para reescrever a história?

Declaração de princípios: sou, como muitos da minha geração, filha de um veterano da guerra colonial. Não o digo para invocar qualquer lugar de fala, mas para acrescentar que compreendo que memórias da guerra não são nunca memórias em paz. Que as guerras deixam marcas nos vencedores e nos vencidos. Que processos de reconciliação nem sempre são lineares, sem falhas, dúvidas, recuos, sem acusações, sem ressentimento.

Trabalho igualmente como investigadora com veteranos de guerras civis (Angola) ou com dinâmicas distintas (Colômbia). Portanto, não tratarei de julgar pessoas que em determinadas circunstâncias "fizeram guerra", com tudo o que isso implica, apanhadas nas encruzilhadas da história, inscrevendo-se ou apagando-se nela/dela consoante os processos da sua (re)escrita.

Também por isso não discutirei a presença de Marcelo Rebelo de Sousa ou do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (FA) no funeral do tenente-coronel Marcelino da Mata, que morreu na semana passada, aos 80 anos. Sei que as FA são forças heterogéneas, mas de obediência à conduta. Talvez me pudesse indignar, enquanto cidadã, da sua presença no funeral – porque Da Mata foi militar das FA do Estado Novo, numa guerra que o fascismo português travou, neste caso, na Guiné-Bissau; porque as FA do Estado Novo não são as da democracia; porque o Presidente da República na democracia não é o Presidente do Conselho no Estado Novo. Mas sobre esse "protocolo" (chamemos-lhe assim, com a ambiguidade que a palavra poderá conter) não me pronuncio.

Interessa-me menos, portanto, a moralização protocolar do que a memorialização de Marcelino da Mata, ou de figuras análogas. Interessa-me menos julgar Marcelo ou até os Capitães de Abril que se pronunciaram sobre o militar, realçando a sua "coragem" e, muitos, acrescentando um "mas" à sua conduta, do que a exaltação de uma masculinidade tóxica, de uma retórica nacionalista, salazarista, colonialista que circulou nos últimos dias a propósito do "herói" contrafeito canonizado pela direita conservadora e pela extrema-direita. Começou pela nota do CDS, para que se declarasse luto nacional e funeral de Estado, e passou pelos louvores ao militar pelo líder do Chega, do PNR, sites nacionalistas, e por comentadeiros com saudades do chicote da PIDE e do sangue da guerra nas colónias.

Perguntava João Miguel Tavares por que razão não se conheciam mais figuras como Marcelino da Mata. Manuel Loff respondeu-lhe: "É natural: como nunca foi julgado nenhum dos responsáveis pelos massacres de Batepá (1953), Pidjiguiti (1959), Mueda (1960), Luanda (1961) e Norte de Angola (os contramassacres de 1961), Wiryamu e mais quatro aldeias (1972), só para citar os mais conhecidos, seria surpreendente conhecer em detalhe." 

Mas Tavares não é ingénuo. Sabe que o cidadão comum não é formado em História, não lê contraditórios, não faz crítica das fontes. Se ler um jornal regularmente é uma sorte. Se ler que Tavares pergunta (já em 2019 mostrara o seu fascínio pelo militar, e andou ali em trocas com Vasco Lourenço), por que razão foi Da Mata "colocado do lado de fora da história da democracia portuguesa" e morreu "sem que o seu nome e a sua vida extraordinária [sic] fossem integrados na memória colectiva", o cidadão não se vai confrontar com mecanismos de memorialização, questionando se deverá recordar ou esquecer, com heroísmo ou lástima, assassinatos cruéis de civis que a própria Convenção de Genebra condenaria – sim, porque há guerra, mas também há crimes de guerra.

Tavares queixava-se da ausência de documentários sobre o militar, porque se fosse "na América" já aí estava o filme +18 anos, com bolinha vermelha no canto, muito sangue e cabeças cortadas para alimentar o fetiche da "excepcionalidade" portuguesa. A resposta é que já passou na Netflix esse filme sobre coronéis "Kurtz" como o Mobutu, o Charles Taylor, os Khmer Vermelhos, até o Savimbi, que a direita e algum PS soarista tanto admira, já foi personagem do jogo de consola Call of Duty – Black Ops, e não foi para mostrar como a UNITA jogava no tabuleiro democrático da Angola do pós-independência.

Também no Público, Maria de Fátima Bonifácio carpia recentemente o facto de Angola não ter sido "nossa" aquando da independência, e um professor (onde?), investigador de História (de que período?), chamado José Carvalho escreveu um texto laudatório pejado de lugares comuns e pontos de exclamação terminando com a saudação: "Viva Portugal!", que me leva a perguntar se tivesse escrito "A Bem da Nação!", o Público publicava?

Esta máquina de fazer "heróis" de saudosismo imperial faz parte do processo de nostalgia e de re-inscrição no espaço público e mediático de figuras salazarentas, colonialistas, abertamente racistas, acompanhadas do fantasma do "marxismo cultural", do anti-comunismo primário, do ódio à democracia. Essa re-inscrição pertence-lhe, à direita, porque o espaço mediático também é dela. Vendo-lhes fugir estas figuras grotescas, com o fetiche da violência catártica que agora lhes falta, e que eles melancolicamente revisitam de cada vez que morre algum "herói" do 25 de Novembro, agarram-se a isto como a estátuas de sal.

É destes "heróis" que a direita desesperadamente precisa para erigir estátuas do presente, tentando inscrever, hoje, o que a história – com o sacrifício de 48 anos de fascismo e 500 de colonialismo – acabou por rectificar. É destes "heróis" que a onda reacionária precisa para se agarrar à cor da pele de um homem (negro), dizendo "black lives matter", como fez Nuno Rogeiro, para continuar a gritar que em Portugal não há racismo porque a colonização foi branda e excepcional. É destes "heróis" que a direita precisa para continuar a sua retórica racista, alimentando, das forças de segurança às caixas de comentário, a violência física, verbal, insidiosa ou explosiva, continuando a humilhar sujeitos racializados, vítimas do Estado Novo, feministas, população LGBTQ, isto é, aqueles que lutaram, e na pele sofreram, para que a ditadura acabasse.

O que a direita deseja ao canonizar estes "heróis" não é fazer história, é fazer política e pôr em crise o "nós" plural que fez a revolução e construiu a democracia.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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