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As aventuras de Joe Berardo: o homem que julgou ter comprado a Mona Lisa
Portugal 14 min. 18.05.2019

As aventuras de Joe Berardo: o homem que julgou ter comprado a Mona Lisa

As aventuras de Joe Berardo: o homem que julgou ter comprado a Mona Lisa

Foto: Lusa
Portugal 14 min. 18.05.2019

As aventuras de Joe Berardo: o homem que julgou ter comprado a Mona Lisa

Afinal como é que este madeirense, de 74 anos, passou do quinto homem mais rico de Portugal, em 2007, com uma fortuna avaliada em 890 milhões de euros, segundo a Exame, para um homem que tem apenas registada uma garagem como património e uma dívida aos bancos de quase mil milhões de euros?

“Uns 'call me' José Manuel, outros 'call me' Joe, outros 'call me' comendador”. Mas é Joe Berardo o nome mais usado e falado por estes dias. É ele o homem que deve 962 milhões de euros à banca portuguesa, mas diz que não tem “dívidas”. Que tem uma coleção de arte, composta por 861 obras, avaliada em 316 milhões de euros, mas que não é sua, é da Associação Coleção Berardo, da qual é presidente do Conselho de Administração; e entre as propriedades mais faladas estão a Quinta da Bacalhoa e um apartamento de luxo, em Lisboa. Mas, segundo garante Berardo, aquele que já foi um dos homens mais ricos do país, nada é seu. Porque nada está em seu nome. À exceção de um único bem: uma garagem no Funchal. Este foi o único “património direto do empresário” encontrado pela Direção de Gestão de Risco da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Mas afinal como é que este madeirense, de 74 anos, passou do quinto homem mais rico de Portugal, em 2007, com uma fortuna avaliada em 890 milhões de euros, segundo a Exame, para um homem que tem apenas registada uma garagem como património?

A vida deste “portuguese dream”, como gosta de se chamar, dava um filme, aliás, já o tentaram fazer, como admitiu Berardo. Mas antes de contarmos a história de José Manuel Rodrigues Berardo, o mais novo de sete irmãos, nascido no Funchal em 1944, que saiu da Madeira para fazer fortuna na África do Sul, e regressou a Portugal, para ampliar os seus negócios e tornar-se dono de uma coleção de arte moderna tida como das mais relevantes da Europa, centremo-nos nos últimos dias.

Dias em que Joe Berardo, o homem que veste sempre de preto, em sinal de “luto pela cultura portuguesa”, tem estado debaixo de fogo pela sua postura de “desplante” na comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos no Parlamento onde foi responder às perguntas dos deputados pelos créditos ruinosos em que se envolveu, e que resultaram em perdas de milhões para este banco. Foram cinco horas de respostas provocadoras de Joe Berardo e as mesmas frases repetidas à exaustão. “Pessoalmente não tenho dívidas”; “como português tentei ajudar [a CGD]” e “eu não tenho nada”.

O primeiro-ministro António Costa já veio dizer que “o país está chocado com o desplante” do madeirense e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não se vai opor a que sejam retiradas as condecorações – Grau Comendador e a Grã-Cruz da Ordem Infante Dom Henrique - atribuídas a Joe Berardo pelos anteriores presidentes da República, Eanes e Sampaio. Para além de ter sido condecorado Cavaleiro da Legião de Honra pelo Estado francês, em 2005.

Os deputados consideraram o comportamento do madeirense no parlamento “deplorável” e “revoltante” e na sociedade multiplicam-se as críticas. “Não são as condecorações que lhe quero tirar. É o sorrisinho na cara”, disse Pacheco Pereira para quem este gestor “está a gozar com os deputados”.

Uma garrafeira de Lisboa, BacoAlto, anunciou que deixou de vender vinhos associados a Joe Berardo, os da Bacalhoa, Aliança e Quinta do Carmo, e nas redes sociais há vários apelos a boicotes iguais com milhares de partilhas, noticiou o Observador.

A comissão de inquérito vai enviar as declarações de Berardo para o Ministério Público (MP), pedindo para este avaliar se existe matéria criminal no âmbito desta investigação aos créditos ruinosos concedidos pela CGD. Ao mesmo tempo, o MP vai analisar tudo sobre os 350 milhões que este banco emprestou a Berardo, revelou o Jornal Económico.

Um enredo complicado de desfiar

Foi em abril que os três maiores bancos portugueses, BCP, CGD e Novo Banco, anunciaram que iriam avançar com um processo judicial conjunto contra o empresário madeirense, para tentar liquidar parte dos quase mil milhões de euros em dívida. Esta é uma ação inédita em Portugal, e acontece depois de falhadas anteriores tentativas junto de Berardo, que até incluíam um “perdão considerável” de parte da dívida.

Os três bancos pretendem ficar com a coleção de arte de Berardo, composta por 861 obras que valem 316 milhões de euros, segundo uma avaliação da leiloeira internacional Christie's, de 2007.

Só que aqui reside um problema. Ao que se sabe, as obras de arte pertencem à Associação Coleção Berardo, da qual o empresário é fundador e presidente do Conselho de Administração e do Conselho de Fundadores. E Joe Berardo deu como garantias aos bancos, não as próprias obras de arte, mas sim títulos de participação da Associação Coleção Berardo, e ainda está por apurar se estas garantias são executáveis e se os bancos podem ficar com os quadros. Joe Berardo disse na comissão de inquérito que não.

“É normal em negócios haver dívidas”, dizia Joe Berardo numa entrevista à revista Sábado, em 2016. “Também tenho as minhas. Mas a responsabilidade do 'bad banking' é das pessoas que fizeram os empréstimos”, garantia o madeirense, que ainda hoje continua a usar muitos termos em inglês.

“Quem é que não quer dominar a minha coleção?”, questionava na mesma entrevista, em que confessava que “preferia morrer a ver a coleção vendida aos pedaços”. Na comissão de inquérito o madeirense proclamou: “A arte é a minha vida”.

A sua coleção é considerada "das melhores coleções privadas da Europa, superior à de Guggenheim", segundo garante o jornal britânico Independent. E, nos anos 90, Francisco Capelo, então seu colaborador próximo, prometeu fazer dele o “senhor Gulbenkian do século XXI”.

O Museu Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, que está no CCB, em Lisboa, através de um acordo com o Estado, possui obras de arte que já foram emprestadas para exposições nos mais distintos museus do mundo, como o Centro Georges Pompidou, em Paris, a Tate Gallery, em Londres, o MoMA e o Guggenheim Museum, em Nova Iorque, e o Museu Rainha Sofia, em Madrid, pode ler-se na biografia deste colecionador e “filantropo”, no site da Coleção Berardo. Segundo a Sábado, em 2016, o madeirense tinha cinco museus privados, além do museu no CCB.

O traço de colecionador foi desenvolvido “aos 10, 11 anos” pelo madeirense. “Trabalhava na Madeira Wine e recebia correspondência de diversas partes do mundo, postais de navios e caixas de fósforos. Tirava os 'stamps', deu-me um trabalhão do caraças e ainda os tenho, não vendi”, contou à Sábado.

O gosto pela arte chegou mais tarde, já jovem emigrado na África do Sul e a dar os primeiros passos como empresário de sucesso. A culpa? Da Mona Lisa.

Prestes a casar-se com Carolina Gonçalves, os noivos foram comprar “mobília para a casa”, numa loja em Joanesburgo. O empresário viu uns quadros pendurados na loja e gostou de um “pelo sorriso” da mulher pintada. Comprou pensando ser um original. “Mandaram as mobílias para casa e quando passei a mão pelo quadro vi que não era original, que era um 'print'. ‘Porra, o primeiro quadro que comprei e já me enganaram!’. E a minha mulher, que era auditora, que tinha outro nível que eu não tinha, respondeu: ‘Se quisesses comprar o original, tinhas que ir ao Louvre’. O Louvre? ‘É um museu na França. Isso é a Mona Lisa’. O episódio é contado pelo próprio numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, para o Jornal de Negócios (JN), em 2007.

O playboy que casou com separação de bens

Na sua vida de solteiro, o madeirense, que chegou a vencer vários concursos de dança, admitia gostar da noite e ser um “playboy”, como recordou naquela conversa. “Comecei a trabalhar muito cedo, fui para a África do Sul com 18 anos, foi muito duro. Depois, a vida foi melhorando, fui para Joanesburgo, onde passava os meus dias a trabalhar e a dançar em clubes noturnos, tinha carro... Portanto, uma pessoa que vinha de famílias humildes, que passou a ter muito dinheiro, bens materiais, miúdas que o adoravam, o que é que poderia querer mais?”, recordou o empresário, em declarações à revista Caras, em 2011.

Até que conheceu Carolina Gonçalves, filha de pais madeirenses, mas nascida na África do Sul, em 1969. Apaixonou-se e foi ela que o tirou “de uma assumida vida boémia”, como conta a sua nota biográfica da Coleção Berardo.

Desconfiado, o sogro decidiu que os dois deviam casar com separação de bens. “Sou casado com separação de bens. Eu era um playboy, andava sempre em discotecas, e o meu sogro disse para casarmos com separação de bens”.

Foi em terras africanas que trocou o José pelo Joe. E como é tratado habitualmente? “Uns 'call me' José Manuel, outros 'call me' Joe, outros 'call me' comendador. A minha família 'call me' José Manuel, o meu irmão, a minha irmã, os meus sobrinhos; estavam habituados desde pequenos. Quando fui para a África do Sul disseram-me que José Manuel não dava. So, call me Joe. I know who I am. A minha mulher chama-me Joe, que ela nasceu na África do Sul”. Os filhos, Renato, o seu sucessor, de 48 anos, chama-lhe “comendador” ou “pai”, e a filha, Cláudia, de 46 anos, “dad”.

O mais novo de sete filhos de um casal humilde do Funchal concluiu a quarta classe, e começou logo a trabalhar. A colocar rótulos nas garrafas da empresa Madeira Wine, onde o pai trabalhava. Graças à função do pai, desde pequeno que o madeirense começou a apreciar as coisas boas da vida e a sonhar poder usufruir delas um dia. O pai “ia levar a bordo os vinhos que os ingleses escolhiam; e trazia sempre para nós coisas boas, queijo, o que era muito bem-vindo”, contou Berardo na entrevista ao Jornal de Negócios, em 2007.

Com 18 anos decide deixar a ilha e emigrar. Destino: África do Sul. É lá que faz fortuna e perde muito dinheiro também, quando decide regressar.

Começa a vender produtos alimentares para as minas, mas depois tem a ideia visionária de começar a vender os desperdícios de ouro. Aposta ganha. Dali torna-se proprietário de quatro minas de ouro, e de seguida inicia-se no negócio dos diamantes. Seguem-se os negócios com petróleo, mármore, banca – onde foi presidente do Bank of Lisbon and South Africa, e o passo seguinte seria o mercado acionista. Investe ainda nas telecomunicações, em material informático, papel, e até no cinema, empregando mais de 10 mil trabalhadores. E faz fortuna. 

A par do sucesso empresarial, Berardo percebia que o apartheid estava condenado mas, embora tivesse a ideia que o país devesse evoluir para uma situação social mais justa, temia "os comunistas do ANC". Em 1986 chegou a declarar esta pérola: "Os negros terão de ser ensinados pelos brancos antes de terem o direito de partilhar o poder”. Isso não o impedia de analisar friamente que a manutenção do regime sul-africano punha em causa a economia e os seus próprios negócios:  “Apesar de não nos metermos na política”, alegava, em defesa da casta endinheirada da comunidade emigrada na África do Sul, “discordamos completamente do 'apartheid' e, dentro das nossas possibilidades, trabalhamos para que as partes envolvidas na questão se entendam. Mas é verdade que os homens de negócios sul-africanos em geral estão a ser bloqueados nas suas iniciativas além-fronteiras pela manutenção do regime”, explicava, citado numa peça do jornalista Miguel Carvalho, na revista Visão.

Depois decide deixar a África do Sul e voltar para Portugal, até porque já tinha iniciado negócios na Madeira.  “No fim do apartheid, quando cheguei ao meu objetivo, perdi o tesão da África do Sul. Parti para outra. E dei instruções aos meus advogados to ‘sell at the best price’ [vender ao melhor preço}”, contou Joe Berardo, na entrevista ao Jornal de Negócios.

Perdeu uns milhões?, pergunta a jornalista. “Como é que podia perder dinheiro se tinha tanto?”. O seu lema é: “Parto do princípio de que nada nos pertence. Nós viemos ‘naked’ [nu] e com vida, e quando se vai, vai-se vestido, mas sem vida”. Além de que, para Berardo, o dinheiro não é tudo. “Dinheiro é bom, mas as pessoas que vivem só de atingir coisas materiais, é uma tristeza. É uma vida 'empty'. Eu tenho uma vida 'full'!”

Novo Império em Portugal

De regresso a Portugal, constrói um novo império, em áreas muito diversificadas, conseguindo ser um investidor de referência na bolsa portuguesa. Em 2007, tem a sua fortuna avaliada em 890 milhões de euros e é considerado o 5º homem mais rico do país, pela revista Exame. Três anos depois desce para 9º lugar e a fortuna “emagrece”, ficando-se pelos 589 milhões.

Na Madeira, compra o Hotel Savoy, e depois mais dois, a Quinta Monte Palace e a empresa Madeirense de Tabacos, com o amigo Horácio Roque. Segue-se a entrada no mundo da comunicação social, primeiro com o Jornal Record, depois outros títulos, até que chega a ser o maior acionista da estação de televisão SIC. Virou-se depois para as telecomunicações, para a PT e para a banca, onde se torna o quarto maior acionista do BCP.

Pelo caminho, em 2007, fica uma manobra de marketing em fogo de artifício, com o lançamento de uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre 60% do capital SAD do Benfica, para “ajudar” o clube, como disse na altura. Acaba por ficar apenas com 1% do clube.

Vinho e arte: os novos diamantes

A Quinta da Bacalhoa, a par com a coleção de arte, são os seus diamantes, os quais ainda preserva, entre outros negócios, como os da sociedade Metalgest. A quinta, em Azeitão, com um palácio e vinhas, é um monumento nacional da renascença portuguesa, tida mesmo como uma obra-prima da arquitetura do século XVI, e também não está em seu nome, pertencendo à Fundação Berardo. É nesta sede do seu império dos vinhos que o comendador continua, todos os anos, a reunir amigos e família, numa festa das vindimas, segundo revelou à Flash!, em 2017. “O meu sonho sempre foi ter uma vinha em Portugal. Agora sou um dos maiores produtores a nível europeu. Em vinha temos para cima de mil hectares plantados, o que é fantástico”, declarou. Também foi nesta quinta que disse a Manuel Luís Goucha, da TVI: “Já nasci rei”.

O seu segredo para ascender social e economicamente? “Sempre gostei de me juntar a pessoas que sabiam mais do que eu, mais bonitas do que eu, mais ricas do que eu. Nunca gostei de me juntar a 'yes people'. Os negros das minas: às vezes ia visitá-los e comia com eles um pedaço de bife. They love me! Se eu cheguei aqui, vocês também podem chegar - é para isso. Ninguém pode dizer que é impossível atingir...”, explicava o madeirense ao JN.

Atualmente, o comendador vive numa penthouse de luxo, avaliada em 1,85 milhões de euros, na Av. Infante Santo, em Lisboa. A CGD tentou penhorar este imóvel, por causa da dívida, mas não conseguiu. É que o T5, de 652 metros quadrados, não está em nome do empresário. Como tudo o resto. O apartamento está em nome da Atram, Sociedade Imobiliária, da qual Berardo é o presidente do conselho de administração, mas não é acionista direto. A casa foi comprada por ele em 1999, mas vendida em 2008, à Atram.

Casa de banho de luxo em terraço do condomínio

Por causa de umas obras neste apartamento tido como seu, o empresário foi alvo de uma queixa em tribunal feita por um vizinho. É que Joe Berardo decidiu construir uma casa de banho de luxo com vista para o Palácio das Necessidades no terraço do prédio, contou o jornal Público, em 2017. A obra, feita há 12 anos, é aparentemente ilegal e o tribunal ordenou que fosse demolida. Só que o empresário recusa-se a fazê-lo, alegando que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto”. Em abril deste ano, o Público noticiava que a casa de banho continuava a existir e o vizinho queixoso pondera desencadear uma nova ordem judicial que obrigue ao cumprimento da decretada antes.

Mas esta é uma quezília bem menor do que a “guerra” que o madeirense comprou não só com a banca, mas com os políticos e a sociedade portuguesa. Ele que diz que ser o primeiro não lhe chega. Gosta é de ganhar. “Não é bem de ser o primeiro. É de ganhar. Todos nós. Quem é que não gosta de ganhar? Há pessoas que têm na mentalidade: ficaste em segundo, ficaste em primeiro dos últimos... É uma consolação. Eu não quero ser consolado. Eu quero ganhar”. Mas esta história ainda vai a meio.

Paula Santos Ferreira

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