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Arnaldo Matos. Morreu "o grande educador da classe operária"
Portugal 11 min. 22.02.2019 Do nosso arquivo online

Arnaldo Matos. Morreu "o grande educador da classe operária"

Arnaldo Matos. Morreu "o grande educador da classe operária"

Foto: LUSA
Portugal 11 min. 22.02.2019 Do nosso arquivo online

Arnaldo Matos. Morreu "o grande educador da classe operária"

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Aprendeu Mao em Macau. Fundou um partido maoísta na senda do Maio de 68, considerou que o 25 de abril não era uma revolução, apoiou a direita militar no 25 de novembro, tratava os líderes do PS, PCP e BE com epítetos coloridos e palavrões vários. Morreu a dois dias de fazer 80 anos.

"Faço 80 anos em fevereiro. Sei que vou morrer, e não tenho medo. Sou comunista. Mas o simples facto de não saber quando irrita-me solenemente porque não sei se terei tempo para fazer todas as coisas que quero", disse ao Expresso em dezembro do ano passado.

Essa urgência com o pouco tempo que lhe restava, associada a fazer política num partido que, com as quezílias que protagonizou, se dividiu em permanência, levou-o a estudar as novas tecnologias e a usar o Twitter como meio de eleição. Lénine tinha a frase "os capitalistas vão vender a corda que os vai enforcar", o grande educador iria usar as armas do inimigo para os derrotar. 

"É exatamente isso. É uma forma de combater o inimigo a partir do seu interior. Não o Twitter, mas o sistema onde está inserido. Se reparar bem, podemos fazer isso em qualquer empresa", garantia Arnaldo Matos ao Expresso. O momento da revelação "revolucionária" ocorreu-lhe no final do verão de 2017, ao tropeçar nos tweets de destruição maciça de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, que parece conduzir a política do Império a golpes de 140 caracteres.  "Intrigou-me a forma como um indivíduo destes, de extrema-direita e do mais reacionário que há no mundo, tem o apoio da classe operária americana. Não foram os intelectuais que o elegeram, foi a classe operária — e esse é que é o problema. Isso levou-me a estudar o fenómeno", explicou ao jornalista Ricardo Marques do Expresso.

No dia 7 de setembro de 2017, "o camarada Arnaldo Matos" ganhou uma vida virtual e, graças a ele, o antigo maoísmo-spontex (nome de uma corrente maoísta nascida no pós-maio de 68)  lançou-se no ciber-espaço: "Guterres transformou-se num lacaio dos imperialistas e num homem de mão de Donald Trump. Em vez da paz, promove a guerra. Que santarrão!", escreveu, no primeiro tweet da história do PCTP/MRPP. Em causa estava a ameaça da ONU de sanções económicas contra a a Coreia do Norte. Nesse mesmo mês, Arnaldo Matos não perdeu uma oportunidade de atacar o então ministro da Defesa, Azeredo Lopes, a propósito do furto de armas em Tancos: "Será que no limite, Portugal tem, no Restelo, um burro? E se o burro não se demite, ninguém demite o burro?!".

Esta nova fase do maoísmo espacial durou até 22 de fevereiro. Num comunicado enviado às redações intitulado "Honra ao camarada Arnaldo Matos!", o PCTP/MRPP informa, "com uma profunda tristeza e um enorme vazio", que Arnaldo Matos morreu esta sexta-feira de madrugada, vítima de doença. Foi muitas vezes apelidado de "grande educador da classe operária", um nome que o próprio passou a rejeitar. Morreu a dois dias de completar 80 anos.  

"É com uma profunda tristeza e um enorme vazio que vimos informar que faleceu há poucas horas o nosso querido camarada Arnaldo Matos, fundador do PCTP/MRPP e um incansável combatente marxista que dedicou toda a sua vida ao serviço da classe operária e a lutar pela revolução comunista e por uma sociedade sem classes", escreve o partido nessa nota.

Nesse documento, os seus autores profetizam a imortalidade do falecido: o seu exemplo perdurará "para sempre na memória dos operários e dos trabalhadores portugueses e constituirá um guia na luta do proletariado revolucionário e dos comunistas pelo derrube do capitalismo e do imperialismo e pela instauração do modo de produção comunista e de uma sociedade de iguais".

O homem que dirigiu o MRPP e que desapareceu da sua liderança poucos anos depois da revolução do 25 de Abril, para há poucos anos reaparecer para correr com a direção do PCTP-MRPP, encabeçada pelo seu delfim, Garcia Pereira, escreveu há poucos anos as teses com que pretendia relançar o movimento comunista internacional à sua imagem e semelhança. 

Como escreveu, sempre modesto, Arnaldo Matos, em dezembro de 2016,  sobre as suas próprias teses: "De súbito, um assunto que parecia totalmente esquecido toma de assalto o espaço público do debate político e ideológico em Portugal: o Centenário da Revolução de Outubro. Em termos de debate no espaço público, tudo começou na Urgeiriça, município de Canas de Senhorim, distrito de Viseu, no dia 6 de novembro passado, quando, por iniciativa de um grupo de uma dezena de militantes do nosso Partido no Maciço Central, tive oportunidade de discutir com eles os mais importantes temas teóricos, políticos e ideológicos suscitados pela experiência da Revolução de Outubro na antiga Rússia Czarista. Os temas centrais aí abordados, gravados e distribuídos em vídeo pelo Partido, foram depois publicados no Luta Popular Online, a 16 de novembro, e deram a volta ao Mundo, perdoe-se-me a imodéstia, sendo hoje em muitos países e numa parte significativa do movimento comunista operário marxista conhecidos como As Teses da Urgeiriça".

Nessas teses, Arnaldo Matos defende que nem a Revolução Soviética nem a Revolução Chinesa foram revoluções proletárias e socialistas, mas apenas revoluções capitalistas. Estando, portanto, virgem o espaço para o advento de uma nova revolução proletária, que mais do que necessária seria inevitável. 

Estava longe o dia em que juntamente com Vidaúl Ferreira, Fernando Rosas e João Machado, o autor da Urgeiriça fundou o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), em Lisboa, na clandestinidade, em 18 de setembro de 1970.

Já nessa altura, o pensamento era estruturalmente semelhante ao das teses da Urgeiriça: embora o novo movimento ostente no nome a missão de "reorganizar" o partido do proletariado, Arnaldo defende que não se trata de uma reorganização, porque na realidade nunca existiu em Portugal um partido do proletariado.

Ao contrário da anterior geração de maoístas, surgidas durante o conflito sino-soviético, em Portugal encabeçadas por antigos quadros do PCP, como Francisco Martins Rodrigues, que defendiam que tinha havido uma degenerescência de direita na União Soviética e no PCP, e que era preciso retomar o rumo revolucionário, Arnaldo Matos, que tinha tomado conhecimento das teses maoístas quando cumpria serviço militar em Macau, defendia que nunca tinha havido em Portugal um partido comunista. E que mais que retomar ao PCP original era preciso destruí-lo a ele e a todos os "sociais-fascistas", epíteto com que caracterizava o partido dirigido por Álvaro Cunhal.   

Mas comecemos pelo início. Arnaldo Matias de Matos nasceu em Santa Cruz, na Madeira, em 24 de Fevereiro de 1939. É em 1964, quando presta serviço militar em Macau, que entra em contacto com textos maoístas. De regresso a Portugal, vai estudar para a Faculdade de Direito e envolve-se nas movimentações estudantis, sendo um dos fundadores da Esquerda Democrática Estudantil. 

Ao Público, Fernando Rosas, que acompanhou grande parte desse percurso, deixa o seu depoimento: "Conheci o Arnaldo Matos quando era estudante com ele na Faculdade de Direito de Lisboa e onde ele se destacou como líder carismático do movimento estudantil na luta contra a repressão e contra a guerra colonial. Fundámos o MRPP de que ele foi o líder carismático. No fim dos anos 70, os nossos caminhos desviaram-se e perdemos o contacto. Apresento ao MRPP as minhas condolências".

Arnaldo Matos era o secretário-geral do MRPP, cujo órgão central foi sempre o jornal "Luta Popular", lançado em 1971 (ainda no tempo da ditadura). O MRPP foi muito activo antes do 25 de Abril de 1974, especialmente entre estudantes e jovens operários de Lisboa, e sofreu a repressão das forças policiais, reivindicando como mártir o estudante de direito José Ribeiro dos Santos, assassinado por agentes da polícia política (PIDE-DGS) durante uma reunião de estudantes da academia de Lisboa no então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), em 12 de Outubro de 1972.

No pós-25 de Abril, começou a ser conhecido por ser "delegado do Comité Lenine", que era o Comité Central do MRPP, movimento que se legalizou em fevereiro de 1975 e se transformou, em dezembro de 1976, no Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses – Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP/MRPP. Logo após a legalização do movimento, em 18 de fevereiro de 1975, Arnaldo Matos foi preso pela primeira vez em Mirandela, pelo COPCON, segundo recorda a jornalista Leonete Botelho no Público.

Nesses meses, o MRPP aparece como uma força aguerrida no movimentos estudantil, com capacidade de mobilização, e tendo como imagem de marca a feitura de inúmeros murais, de tal forma que ganharam o apodo depreciativo de "meninos rabinos pintam paredes". 

Um grupo importante de ativistas que depois iriam fazer carreiras profissionais e políticas relevantes passaram pelos fileiras deste partido maoísta. Nomes como Ana Gomes, Agostinho Branquinho, Diana Andringa, Fernando Rosas, José Freire Antunes, José Lamego, José Manuel Durão Barroso, José Saldanha Sanches, Maria João Rodrigues, Maria José Morgado, Romeu Francês ou Vítor Ramalho, alguns dos quais foram presos em maio de 1975, em pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso), depois de o partido ter sido suspenso.

Nessa data, o partido maoísta é impedido de concorrer às eleições da Assembleia Constituinte, e muitos dos seus militantes e dirigentes são presos pelos militares revolucionários. No plano sindical e político, o MRPP cria políticas de aliança com o PS e a direita para derrotar o PCP e os militares da ala esquerda do Movimento das Forças Armadas. No pós 25 de novembro, o MRPP é o primeiro partido a apoiar Ramalho Eanes, facto que reafirma a sua oposição ao PCP, mas que é facilitado pela proximidade do Major Aventino Teixeira, superior de Arnaldo Matos em Macau, simpatizante do MRPP e próximo do general Ramalho Eanes.

A primeira participação em eleições, em 1976, "é um estrondoso fracasso para o MRPP": apenas recebe 36.200 votos (0,66%) e é um duro golpe para o líder, Arnaldo Matos. Em 40 anos, em todas as eleições em que participou, o PCTP/MRPP nunca elegeu qualquer deputado.

A vida do chamado "grande educador" não era feita sem conflitos com os seus quadros mais próximos. No final do PREC, Arnaldo Matos lança uma campanha no partido da chamada linha vermelha contra a linha negra, que seria protagonizada pelo então diretor da Luta Popular, Saldanha Sanches. Um processo político que termina numa purga em que saem vários militantes do partido, entre os quais Saldanha Sanches e a sua companheira Maria José Morgado. 

Posteriormente estes aderem à UDP e acusam Arnaldo Matos de ter recebido dinheiro da CIA durante o chamado Verão Quente. 

Entre 1982 e 2015 deixou o partido, justificando na altura esta decisão com a ideia de que a contra-revolução tinha ganho, passando por isso a considerar o papel do partido na nova sociedade inútil. No entanto, em maio de 2015, na iniciativa "Vemos, Ouvimos e Lemos”, promovida pela Associação "Amadora, Passado, Presente e Futuro", Arnaldo Matos diz que essa justificação nunca foi dita por ele, revelando a verdadeira razão de abandono do Partido: "Fui-me embora porque, na verdade, eu tinha de tomar conta dos meus filhos e eu não tinha outra forma de ganhar a vida [...] e não se pode ser secretário-geral do partido a tempo parcial." Apesar disso, continuou a falar em comícios do PCTP/MRPP e a estar associado ao partido, embora formalmente desligado dele e afastado da esquerda tradicional.  

No final de 2015, depois de o MRPP ter ganho pela primeira vez acesso a subvenção estatal, por ter ultrapassado os 50 mil votos, Arnaldo Matos entra em rutura com o seu delfim Garcia Pereira, a quem acusa de inúmeros desvios ideológicos e de muitos outros pecadilhos, em língua vernácula, como era seu apanágio. E apesar de não possuir nenhum cargo no PCTP/MRPP, Arnaldo de Matos dá ordem de suspensão a todos os membros do Comité Permanente do Comité Central, o que inclui António Garcia Pereira, líder do partido e seu amigo pessoal. Começa uma luta interna que não terminou com a demissão de Garcia Pereira do partido e que pôde ser acompanhada no jornal online "Luta Popular", a ponto de o conhecido político e advogado ter escrito uma série de textos que publicou num site, intitulado "em nome de verdade", para repor precisamente a sua versão da verdade do acontecido.

Nos tweets como nos enfrentamentos deixou célebre as frases insultuosas de matriz camiliana e algumas ainda mais vernáculas, como "Isto é só putedo", referindo-se aos seus inimigos da esquerda portuguesa. 



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