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Aristides. O cônsul que ajudou a família Grã-Ducal a fugir aos nazis recebeu hoje honras de Panteão
Portugal 4 7 min. 19.10.2021
Aristides de Sousa Mendes

Aristides. O cônsul que ajudou a família Grã-Ducal a fugir aos nazis recebeu hoje honras de Panteão

Aristides de Sousa Mendes

Aristides. O cônsul que ajudou a família Grã-Ducal a fugir aos nazis recebeu hoje honras de Panteão

Foto: LUSA
Portugal 4 7 min. 19.10.2021
Aristides de Sousa Mendes

Aristides. O cônsul que ajudou a família Grã-Ducal a fugir aos nazis recebeu hoje honras de Panteão

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
O diplomata português que, durante a Segunda Guerra Mundial, ajudou milhares de refugiados a escapar ao nazismo, entre os quais membros da família real luxemburguesa, foi homenageado no Panteão, em Lisboa. O tributo estendeu-se a França.

 O antigo cônsul português Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de judeus e refugiados do regime nazi, durante a Segunda Guerra Mundial, entre os quais membros da família Grã-Ducal do Luxemburgo e muitos luxemburgueses, recebeu esta manhã honras de Panteão Nacional, em Lisboa.

A cerimónia desta terça-feira, na capital portuguesa, realizou-se com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do primeiro-ministro, António Costa, 67 anos após a morte do antigo cônsul de Portugal em Bordéus, que emitiu vistos à revelia das ordens do Governo de António de Oliveira Salazar para salvar tantas pessoas quantas lhe foi possível. Os atos de humanidade agora reconhecidos valeram-lhe, então, a expulsão da carreira diplomática e acabariam por condená-lo a um fim de vida na miséria. Nascido em 19 de julho de 1885, Aristides de Sousa Mendes morreria em abril de 1954, no Hospital Franciscano para os Pobres, em Lisboa.


Marcelo homenageia Sousa Mendes com Grã-Cruz da Ordem da Liberdade
O Presidente da República vai condecorar hoje a título póstumo Aristides Sousa Mendes (1885-1954) com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, no dia em que passam 63 anos da morte do cônsul português.

Na década de 1940, entre os refugiados que o cônsul ajudou a fugir, com um visto passado em Bordéus, com destino a Lisboa, estavam a Grã-Duquesa Charlotte, o seu marido, o príncipe Félix, e os filhos, entre eles o futuro Grão-Duque Jean.  

Hoje, mais de seis décadas depois da sua morte, Portugal curva-se perante a "coragem extrema" e moral do antigo cônsul Aristides de Sousa Mendes, como frisou Marcelo Rebelo de Sousa no discurso de homenagem, no Panteão, em Lisboa.

“Aristides de Sousa Mendes serviu, com coragem extrema, provação pessoal e familiar e exemplar humildade esses valores na sua mais notável expressão. Portugal, curvando-se perante a sua personalidade moral, eternamente grato, hoje e para sempre, o recorda e homenageia”, declarou o Presidente da República.

Segundo o chefe de Estado, “Aristides de Sousa Mendes mudou a história de Portugal e projetou Portugal no mundo", num "momento trágico" da história da humanidade, "chamado genocídio, em plena guerra mundial". "Porque de genocídio se tratava, já na perseguição de comunidades, que haveria de acabar em Holocausto”, lembrou.

“Aqui entrou Aristides de Sousa Mendes e aqui permanecerá até ao fim dos tempos, se os tempos tiverem fim”, afirmou na homenagem que se fez através de um túmulo sem corpo.

No seu discurso, citado pela agência Lusa, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ainda que Aristides foi e é reconhecido mundialmente, como "um dos ‘Justo entre as nações’", como aconteceu em Jerusalém, mas também acontece "na Europa, nas Américas, na África, nas Ásias, onde quer que haja descendentes dos descendentes daquelas e daqueles que ajudou a salvar". 

Cidades francesas juntaram-se à homenagem  

Um dos exemplos desse reconhecimento na Europa e nos descendentes de quem o cônsul português ajudou a escapar e a sobreviverem ao terror nazi foi a homenagem que Bordéus, assim como Bayonne e Hendaia, prestaram hoje a Aristides de Sousa Mendes, associando-se, dessa forma, às honras no Panteão, em Lisboa.

As cidades quiseram assinalar as milhares de pessoas de França e organizaram momentos solenes, com a participação de autoridades nacionais e locais.


Porto de Lisboa
Diplomatas portugueses salvaram entre 60.000 a 80.000 vidas durante a II Guerra
Além de Aristides Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus, outros diplomatas tiveram intervenção direta no salvamento de judeus e outros refugiados em diferentes momentos, entre os anos 30 do século XX e o final da guerra, em 1945.

Em Bordéus Geneviève Darrieussecq, ministra delegada à Memória e aos Antigos Combatentes, foi convidada para participar na cerimónia marcada para os Jardins de Mériadeck, em frente ao busto do antigo cônsul português.

"Milhares de pessoas salvas pelo Aristides de Sousa Mendes tinham nacionalidade francesa e, por isso, é que a França homenageia este feito. A presença da ministra é o reconhecimento deste facto e as autoridades francesas sempre homenagearam o diplomata português. É constante", lembrou Manuel Dias, vice-presidente do Comité Aristides de Sousa Mendes em Bordéus, em declarações à Agência Lusa.

As homenagens têm-se multiplicado ao longo do mês de outubro, tendo havido uma cerimónia no domingo na sinagoga de Bordéus e uma missa esta segunda-feira, na catedral Saint André de Bordéus, celebrada pelo arcebispo Jean-Paul James. Também ontem foram ainda inauguradas duas placas na cidade, uma na Rua Aristides de Sousa Mendes e outra na escola Aristides de Sousa Mendes, ambas situadas num novo bairro da cidade.

"O que se tem lembrado é a ação extraordinária do cônsul Aristides de Sousa Mendes, as pessoas que ele pôde salvar e o papel de Portugal na Segunda Guerra Mundial, que acolheu cerca de 500 mil refugiados, sendo lugar de trânsito para muitos", descreveu Manuel Dias.

Esta terça-feira, o consulado-geral de Portugal em Bordéus também esteve aberto para diversas atividades, como a apresentação de obras, ateliers de artes plásticas e sessões de canto e leituras em homenagem ao antigo cônsul.


O futuro museu “Vilar Formoso, Fronteira da Paz” vai ter um núcleo dedicado aos refugiados do "comboio do Luxemburgo"
Museu de Vilar Formoso vai ter núcleo sobre judeus luxemburgueses
O futuro museu “Vilar Formoso, Fronteira da Paz”, previsto ser inaugurado em abril ou maio de 2017, vai ter um núcleo dedicado ao “comboio do Luxemburgo” que não chegou a entrar em Portugal.

Em Bayonne, onde Aristides de Sousa Mendes passou parte dos vistos que salvaram quase 30 mil pessoas, foi organizada uma cerimónia junto ao antigo consulado português na cidade, enquanto em Hendaia, a homenagem teve como  ponto de partida a placa em homenagem ao cônsul português, que se situa à entrada da ponte fronteiriça entre França e Espanha.

Durante todo este mês, o Comité Aristides de Sousa Mendes em Bordéus organiza a exposição “1940, l’exil pour la vie”, onde são mostrados arquivos, documentos e vídeos em francês e português que reconstituem a vida e feitos do diplomata. 

Para Manuel Dias, co-organizador de muitos destes eventos, o trabalho de memória continua mesmo após a entrada de Aristides de Sousa Mendes no Panteão.

"A nossa ação é pedagógica, nós trabalhamos todos os anos com entre 800 a 900 alunos para recordar o que aconteceu neste região, há um trabalho de memória e pedagogia. O trabalho da memória é constante, sobretudo neste período difícil que atravessamos", frisou à agência de notícias portuguesa.

Família Grã-Ducal foi ajudada pelo antigo cônsul de Bórdeus

Entre os milhares de fugitivos que Aristides de Sousa Mendes ajudou a fugir, durante a Segunda Guerra Mundial, contaram-se também luxemburgueses e alguns deles figuras ilustres, como membros da família Grã-Ducal, que, em 1940, receberam em Bordéus um visto para chegar a Lisboa. 


Exposição sobre Aristides Sousa Mendes inaugurada no Luxemburgo
O antigo cônsul português de Bordéus ajudou a salvar milhares de pessoas do Holocausto, incluindo a família grã-ducal.

Nesse ano, dezenas de milhares de pessoas abandonam o Luxemburgo para escapar à guerra e à invasão alemã. A Grã-Duquesa Charlotte, o marido, o príncipe Félix, e os filhos, entre eles o futuro Grão-Duque Jean (falecido a 23 de abril de 2019), além de membros do governo luxemburguês da altura, estavam entre esse grupo, formado maioritariamente por judeus, e contaram com a ajuda do cônsul português para fugirem para o exílio, numa altura em que Portugal se converteu num ponto de passagem para a fuga de milhares de pessoas de vários pontos da Europa.

No verão de 1940, a família grã-ducal entraria no país através da fronteira de Vilar Formoso e ficaria em Portugal, durante algum tempo, antes de partir para outros países até se exilar no Canadá.

Em 1968, a Grã-Duquesa Charlotte agradeceu, a título póstumo, a ação de Aristides de Sousa Mendes, através de uma carta, onde afirmava que o cônsul português seria "para sempre lembrado pelos refugiados luxemburgueses" e pela sua "própria família, que foram salvos, pela sua iniciativa, de uma perseguição certa e puderam assim chegar a países livres".

No final de 2019 e no início de 2020 foram realizadas, no Luxemburgo, com o Alto Patrocínio do casal Grão-Ducal e do Presidente da República portuguesa , duas exposições alusivas a esse período da história e ao envolvimento de Aristides de Sousa Mendes e de Portugal na fuga de milhares de refugiados luxemburgueses que fugiam dos nazis. A primeira foi dedicada ao antigo cônsul de Bordéus e a segunda centrou-se no comboio que, em novembro de 1940, partiu de França, com destino a Portugal, transportando 293 judeus luxemburgueses, e que, devido a um incidente entre o governo de Salazar e os agentes da Gestapo ficou retido 10 dias na fronteira de Vilar Formoso e os refugiados proibidos de entrarem no país. 


Portugal e Luxemburgo unidos por um fio de esperança entre guerras e ditaduras
De fevereiro a maio, a exposição ’Portugal e Luxemburgo – Países de Esperança em Tempos Difíceis’ mostra como milhares de pessoas procuraram estes destinos para fugir a guerras, perseguições e pobreza.

Esta última exposição foi organizada com o contributo científico da historiadora Margarida de Magalhães Ramalho, co-autora, com Irene Flunser Pimentel, do livro 'O Comboio do Luxemburgo', e da arquiteta Luísa Pacheco Marques, coordenadoras do Museu Virtual Aristides Sousa Mendes e do museu de “Vilar Formoso – Fronteira da Paz”.  

Poucos dias antes da exposição inaugurar, em declarações ao Contacto, as duas responsáveis fizeram questão de lembrar a figura de Aristides de Sousa Mendes, como "o homem reconhecido que mais gente salvou durante a Segunda Guerra Mundial”. 

 

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