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Apanhados pela pandemia a milhares de quilómetros de casa
Portugal 8 min. 01.04.2020 Do nosso arquivo online

Apanhados pela pandemia a milhares de quilómetros de casa

Quase duas centenas de portugueses retidos em Cabo Verde

Apanhados pela pandemia a milhares de quilómetros de casa

Quase duas centenas de portugueses retidos em Cabo Verde
Foto: Lusa
Portugal 8 min. 01.04.2020 Do nosso arquivo online

Apanhados pela pandemia a milhares de quilómetros de casa

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Vítimas colaterais da pandemia, há centenas de portugueses retidos pelo mundo. O Contacto ouviu os relatos de quem rompeu o cerco na Guiné Bissau, Sri Lanka e Guadalupe. Para já, ficam em casa, o pior é voltar à China.

Quando falou ao Contacto, na quinta-feira, Rita estava a quilómetros de distância da fila da TAP do aeroporto Osvaldo Vieira em Bissau onde, dois dias depois, assegurou a viagem de ida e volta. Foi a bolseira da FCT que inscreveu Gonçalo na lista que a embaixada, em Bissau, abriu aos portugueses que decidiram cumprir o isolamento social “em casa”. Foram mais de 700. 

No Sri Lanka, Patrícia só embarcou à terceira. Fechados “praticamente uma semana” nas caraíbas, Mário, Gil, José, Paulo, Bruno, Carlos, Franklin e Rafael levaram praticamente dois dias a chegar à Mealhada, impedidos de trabalhar depois da confirmação do primeiro caso de Covid-19 na central termoelétrica. 

Matilde não põe os pés na universidade há mais de três meses. Professora em Pequim não tem autorização sequer para voltar à China. 

Vítimas colaterais da pandemia, os portugueses estão a cumprir a quarentena recomendada, embora não tenham sido contactados pelas autoridades de saúde. Além do panfleto no avião, “não há nada no aeroporto”. Mário fez o teste e respirou de alívio.

Covid negativo

“Estou à espera para fazer o exame”. Antes das 10h da manhã, o operário de Estarreja já estava à porta do hospital de Aveiro. Foi pelo próprio pé, acabar com as dúvidas sobre a tosse e a pressão no peito, depois das semanas de “sufoco” nas ilhas de Guadalupe. 

Confinado aos dois apartamentos que dividia com os outros sete trabalhadores da metalomecânica da Bairrada, acionou “os próprios meios e contactos” para assegurar o regresso a casa. Às 4h03 da manhã de sábado, passava a fronteira entre Portugal e Espanha, depois de desembarcar no aeroporto de Orly com Gil, José, Paulo, Bruno, Carlos, Franklin e Rafael. 

Os custos do voo da Air France ficaram a cargo da empresa que, em conjunto com o consulado português de Paris, assegurou o repatriamento destes e doutros 22 operários retirados das ilhas vulcânicas do Pacífico. 

Para já, “salários e postos de trabalho estão garantidos”. Gil só “quer voltar o mais rápido possível” às caraíbas. O serralheiro mecânico confia na empresa. Se o patrão diz que “vai ficar tudo bem”, não duvida. Mais apreensivo, Mário reconhece que, apesar de, “até à data, estar tudo a ser correspondido” as centenas de obras adiadas e canceladas no horizonte, “abrem um período de incerteza. Só o apoio do Estado, diz, pode impedir que, pelo menos 150 pessoas, sejam enviadas para o fundo de desemprego. “O teste deu negativo, agora é esperar para ver”.


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“Presa fora de casa”

Madalena viu a China a fechar fronteiras a estrangeiros à meia-noite do dia 28 de março. Nem o visto de residência lhe vale. “O regresso a Pequim não se vislumbra”, restam as aulas online com uma diferença horária de oito horas que juntam 30 alunos numa plataforma digital, “num dos inúmeros desafios da quarentena”. A professora universitária diz-se “presa fora de casa há quase três meses”. 

Estava em Nova Iorque quando o surto começou a propagar-se da província de Hubei para o resto do mundo. “Apanhada de surpresa”, fez escala e mantêm-se em Portugal sem perspectivas de voltar à universidade. “Na viagem dos EUA para Portugal nem em Chicago, nem em Boston, São Miguel ou Lisboa, houve qualquer controlo da febre ou obrigação do uso de máscara ou outra qualquer advertência” e “já estávamos a 12 de fevereiro”. 

Sempre em contacto com a China, apercebeu-se do pior e já antecipava que “inevitavelmente”, medidas como o “uso obrigatório de máscara, luvas, quarentena, proibição de comer alimentos crus” atravessassem fronteiras. “Estive sempre a par da situação e, por isso, sabia que rapidamente o vírus se ia espalhar porque houve muita gente a sair de Wuhan já numa fase crítica”, agravada pelas comemorações do Ano Novo Chinês. 

Desde que voltou a Portugal por tempo indeterminado, Madalena nunca foi contacta pelas autoridades portuguesas. A embaixada tentou localiza-la sem sucesso na China, durante as cinco semanas que passou nos Estados Unidos.

O subsídio e o resto

Patrícia nem isso. Apesar de ter recorrido à embaixada no Sri Lanka, a bolseira do doutoramento em Ciências da Linguagem que anda a documentar o crioulo de origem portuguesa falado numa comunidade reduzida do norte e do leste do país, nunca obteve “qualquer sugestão de repatriamento das instituições diplomáticas”. 

Só no último voo gastou €1500 euros. Perdeu outros dois. O primeiro foi cancelado. “À segunda tentativa”, conta, foi “barrada pelo exército a caminho do aeroporto” e acabou retida sem perspectivas de regresso. Gastou o subsídio de manutenção mensal e o resto por indicação do país de origem. “Na altura senti-me desamparada. A única solução que me davam era insistir e voltar a comprar outro voo comercial”. 

Autoridades de saúde, zero. Patrícia viajou de Colombo a Londres e de Londres a Lisboa sem se cruzar com ninguém. Já na Europa, recebeu um panfleto informativo. “O voo tinha menos de 20 passageiros e, por isso, foi possível manter as distâncias de segurança”. Em Lisboa “absolutamente nada”. 

Tenciona voltar. Tem material de sobra para continuar a trabalhar à distância mas, o contacto com os euro-asiáticos de origem portuguesa é imprescindível para o resultado final da investigação. No imediato? Está “naturalmente” em quarentena.


Como regressar a Portugal?
Tem dificuldades para conseguir voltar ao país? Saiba as linhas da apoio criadas pela embaixada e as cidades próximas onde ainda há voos para Lisboa até 19 de abril.

O que fica

Com dois dias de diferença, Rita e Gonçalo também conseguiram sair da Guiné-Bissau, que há cerca de uma semana e meia fechou fronteiras para conter a propagação do novo coronavírus. “Estive numa fila interminável à porta da TAP entre as 10h e as 17h para viajar nesse mesmo dia com check-in as 21h”, relata a bolseira de investigação que, sem voo marcado ou condições de saúde que a colocassem na lista de prioritários que a embaixada entregou à TAP, se viu obrigada a desembolsar 918 euros pelo tão aguardado bilhete de ida e volta. 

Está em casa porque “pode”, ainda não apagou a imagem das famílias “sem dinheiro” e sem hipóteses que encontrou no aeroporto Osvaldo Vieira. “Havia pessoas sem residência no espaço Schengen que não podiam sequer refugiar-se na Europa para tentar, depois, chegar aos seus países”, num ‘salve-se quem puder’ mundial que ali, especificamente, a quarentena “é impossível”, em “casas sem saneamento, eletricidade ou divisões suficientes para acomodar o número de pessoas de uma família”. 

Gonçalo traz as mesmas contradições na bagagem. Com voo marcado para 3 de abril, viu a viagem antecipada graças à inscrição na lista que, em conjunto com a TAP, a embaixada pôs à disposição dos portugueses. Além da investigação em suspenso, deixa para trás o país onde, “já se fala de falta de bens essenciais”. Tenciona voltar, o mais tardar, em junho. 

Observa atentamente os impactos e as sombras da “precarização das relações laborais” dos tempos da troika que facilitam os despedimentos em massa em Portugal. Lá, longe, sabe que “existia um ventilador e poucos testes” de diagnóstico. “Acesso a cuidados de saúde”. Questionado sobre as diferenças de perceção da pandemia, Gonçalo soltou “acesso a cuidados de saúde”.

Repatriamento comercial

À excepção dos oito operários retirados das Caraíbas, nenhum dos outros portugueses que falou ao Contacto foi efetivamente repatriado sem custos pelas autoridades portuguesas. 

Gonçalo fala em “voos de repatriamento facilitados pela diplomacia portuguesa”. Comprado com relativa antecedência, o bilhete do estudante de doutoramento ficou por 308 euros, muito abaixo dos mais de 900 e dos 1500 pagos pelas outras duas portuguesas. 

Rita estranha que as autoridades diplomáticas tenham entregue à TAP a gestão da lista dos 700 portugueses interessados em sair do país. “Não sei se o termo repatriamento está a ser usado por motivos diplomáticos para conseguir as autorizações para os voos aterrarem. Não sei o que é que se passa, o é que é facto é que é a embaixada a dar uma lista de prioridade e há pessoas a comprar voos a 1500 euros ou mais”. 

Sabe-se, por exemplo, que o Governo pediu a Bruxelas para ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil que prevê um cofinanciamento de até 75% dos custos do transportes de cidadãos da União Europeia, no repatriamento dos 63 portugueses e outras 17 pessoas do Peru.

Ao todo, entre trabalhadores, estudantes e turistas, quatro mil recorreram às embaixadas e consulados para regressar a Portugal, até 26 de março. Os números foram divulgados pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Num apelo à responsabilidade, Augusto Santos Silva, fez questão de sublinhar que, numa altura em que “ninguém consegue garantir que podemos acudir em todo o lado”, todas as deslocações devem ser adiadas. 

O chefe da diplomacia deu como “concluídos” os repatriamentos da Argélia, Egito, China, Chipre, Irão, Maldivas, Marrocos, Mongólia, Panamá, Costa Rica, Polónia, bem como dos navios ao largo do Japão e dos Estados Unidos. Na Venezuela, Singapura, Tunísia, Angola, Guiné, São Tomé, Cabo Verde, Timor e Brasil os voos “excecionais” têm descolado, mediante orientações diplomáticas.

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