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Ao que isto chegou!
Opinião Portugal 4 min. 06.01.2021

Ao que isto chegou!

Ao que isto chegou!

Foto: LUSA
Opinião Portugal 4 min. 06.01.2021

Ao que isto chegou!

Sérgio FERREIRA
Sérgio FERREIRA
Já suspeitava que os debates entre os candidatos às eleições presidenciais portuguesas pudessem oferecer um espetáculo deprimente. Mas tanto também não...

A constelação de candidatos que dia 24 de janeiro vão a votos já permitia perceber que muito podia correr mal ou tão mal que até daria vontade de rir. Até ao momento que escrevo, apenas três debates foram realizados, mas já deu para perceber o que se irá passar.

O “trumpezinho” portuga, como homem que pensa pela sua própria cabeça, fez um descarado “copia e cola” da tática do recandidato americano no seu primeiro debate com Joe Biden: interrompeu o adversário para não o deixar falar, vociferou, gritou, mentiu e lançou falsas acusações. Nada de muito surpreendente, certamente, mas o facto de se esperar não lhe retira importância. Sobretudo porque, para quem ainda acredita na política como motor de evolução, é a própria democracia que vacila com momentos como este.

A tática utilizada por Ventura não é de todo nova, nem é a primeira vez que a fórmula “a melhor defesa é o ataque” é utilizada por um político em debates. O que choca no caso concreto é o nível a que Ventura conseguiu fazer descer a discussão: abaixo da Fossa das Marianas!

Chocante também, mas acima de tudo intrigante, é um episódio do debate que coincidiu com um ataque aos sites internet do PCP e de João Ferreira. Aproveitando a falta de clareza do PCP em condenar regimes autoritários e ditatoriais de esquerda, Ventura lançou a acusação de que os sites do candidato e do partido teriam referências de apoio, entre outros, ao regime da Coreia do Norte. Quase simultaneamente, os sites em questão foram atacados e não foi possível confirmar ou infirmar o que acabou por ficar: as acusações! Pode até ser coincidência, mas que parece outra coisa, parece. Até porque se a inspiração para a falta de educação vem do outro lado do Atlântico, a manipulação informática pode estar incluída no pacote.

Regressando à brutalidade e boçalidade de Ventura, não é só a atitude que interpela. São os efeitos da mesma que podem ser potenciados pelo momento particular em que vivemos. Antes de mais, porque as redes sociais são o amplificador ideal para fazer passar a má educação por determinação e a mentira por verdade. Em segundo lugar, porque assistimos a uma simplificação galopante do debate político em que não há lugar para reflexões que exijam mais de 2 segundos de atenção. E finalmente, porque há em Portugal uma recetividade acima da média às mensagens que misturam catastrofismo, messianismo e patriotismo. Há uma espécie de neo-sebastianismo terceiro-imperialista que vive da memória do que foi perdido e da promessa do que podemos voltar a ser, nós “que demos novos mundos ao mundo” e blá, blá, blá...

E o que supostamente perderam ou têm medo de perder os que vão na cantiga? Perderam ou já deveriam ter perdido, o seu estatuto dominante em relação às mulheres que, com justiça, conquistaram direitos iguais. Perderam ou já deveriam ter perdido, a possibilidade de estigmatizar, perseguir e punir os sodomitas e as histéricas que contrariam a sua natureza heterossexual. Perderam ou já deveriam ter perdido, a certeza na superioridade do homem branco que lhes (nos) permitiu enriquecer (nem isso, em boa verdade) à custa da exploração do outro e de outros territórios. Perderam ou já deveriam ter perdido, o direito de chamar ladrões aos ciganos.

Perderam ou já deveriam ter perdido, o direito a mandar, dominar, perseguir, julgar e condenar quem é diferente ou quem se atravessa no seu caminho.

No fundo, perderam ou deveriam ter perdido os privilégios sem sentido que a religião, o sistema patriarcal e a ditadura do Estado Novo construíram ao longo de séculos.

A humanidade tem caminhado, com muitos percalços pelo percurso, no sentido da criação de sociedades mais justas, equilibradas e idealmente sem privilégios. É esse o caminho que os apoiantes de Ventura querem contrariar, porque faz deles iguais aos que consideram inferiores e se são iguais, nada justifica os seus privilégios.

Não é pelos resultados das eleições que temo, até porque dificilmente o eleito será outro que não Marcelo, mas pelo lento mas seguro deteriorar do discurso e consequentemente da ação política. Temo por eleições futuras em que, motivados pelas crises sucessivas e pela falta de resposta dos partidos tradicionais, os portugueses embarquem numa aventura autoritária qualquer.

Tudo isto me lembra as palavras atribuídas a Salgueiro Maia na madrugada de 25 de abril de 1974: “Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou!”. Esperemos que com o tempo isto não volte a tal Estado (de) Novo!

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