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Anatomia de uma crise anunciada
Opinião Portugal 6 min. 28.10.2021 Do nosso arquivo online
Chumbo do OE 2022

Anatomia de uma crise anunciada

O primeiro-ministro português, António Costa.
Chumbo do OE 2022

Anatomia de uma crise anunciada

O primeiro-ministro português, António Costa.
Foto: AFP
Opinião Portugal 6 min. 28.10.2021 Do nosso arquivo online
Chumbo do OE 2022

Anatomia de uma crise anunciada

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Visto do sofá, o estertor da "Geringonça" concorreu com as Tardes da Júlia, não desmerecendo. Talk-show por talk-show... Na verdade, o espectáculo que nos ofereceram em directo do hemiciclo atirou mais para o quem quer casar com o primeiro-ministro.

Um requiem protocolar, com intervalo para almoço - sempre uma boa altura para refrescar as notícias que vinham lá de dentro, não houvesse um milagre na cartola, actualizar os números da Covid ou consultar o saldo do IVAucher -, já que o epílogo era mais certo que o Outono.

Os partidos da direita estavam numa excitação que só visto, como se o culminar deste romance "left-wing" fosse a consequência de alguma oposição. Só me vinha à memória aquela música do Fausto: "Lembra-me um sonho lindo, quase acabado/ Lembra-me um céu aberto/ outro fechado", a outra parte não interessa, que dá um bocado para a lascívia e não convém esquecer que esta massa parlamentar nos representa, incluindo os abstencionistas, mesmo que às vezes não pareça.

Mais uma vez, demonstrando a sua tendência irresistível para o precipício, a esquerda ofereceu ao público um "hara-kiri" de categoria B, de bazuca. Os deputados do Bloco de Esquerda comportavam-se como irredutíveis gauleses que, depois de digerir os resultados das autárquicas, com a garganta seca de tanto engolir em seco e uma certa ressaca de acordos escritos, molharam o bico na poderosa poção dos nove mandamentos, não saindo do transe dos trapinhos à porta, depois de esgotar todos os episódios dramáticos da série "temos de falar sobre a nossa relação". O PCP enfiara-se na máquina do tempo, à procura da ortodoxia e dos votos perdidos.

Pelo que era dado a ver atrás das suas máscaras, nem Jerónimo de Sousa, amparado por João Oliveira, seu escudeiro parlamentar com aquela pronúncia de um Alentejo à deriva, nem Catarina Martins, amparada por Mariana Mortágua, a sua governanta-sombra, conseguiam disfarçar o monumental embaraço de se juntar à direita para derrubar um governo de esquerda. A minoria da maioria de esquerda estava sob o efeito subliminar de uma piton quando lhe dá para engolir um animal de grande porte.

Alavancado pelo efeito "Moedas", que não as inscritas na proposta de Orçamento do Estado para 2022, Rui Rio planava como um Aladino no tapete que no dia anterior o presidente da República lhe havia retirado. Fica para a História dos apanhados a sua cara apoplética quando a comunicação social o informou em directo que Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto ele cavalgava por entre os despojos da esquerda, tendo no horizonte a visão reluzente de um "Euromilhões", à mesma hora concedera uma "audiência de cortesia" a Paulo Rangel, de todos os seus detratores internos, o que actualmente reza com mais fervor pela sua pele. 

Escusado será dizer que não há almoços grátis, nem audiências de cortesia inocentes. Estava o líder social-democrata tão entretido na quixotesca tarefa de encher de sal as insanáveis feridas da esquerda, enquanto o chefe de Estado tratava de legitimar o seu adversário enquanto putativo líder do PSD para as previsíveis eleições legislativas que aí vêm, cumprindo ele a promessa de dissolução. 

No dia D do debate do OE (ontem), Rio, entusiasmado pelo ilusório repasto que lhe serviram de bandeja, entrou em rota de colisão com o próprio presidente da República, criticando-o em público. Não deixa de ser curioso. Ultimamente, o líder social-democrata recebe mais cortesia dos adversários políticos do que dos adversários internos.

O PS passou a tardinha a dizer ao BE e ao PCP e, já agora, ao PEV, que não era tarde, que ainda iam a tempo de evitar uma separação litigiosa, que pensassem nos filhotes legislativos em gestação no mercado laboral, que este era o OE mais progressista dos seis que a sua união de facto viabilizara, cheiinho de avanços sociais, creches tendencialmente universais, alguns dez euros no salário mínimo, dignidade das reformas antecipadas para os sexagenários com mais de 80 por cento de incapacidade, o escalonamento do IRS, a recuperação económica, todo um imenso PRR a escorregar por entre o taticismo niilista dos seus dedos. "Quel dommage", pá! 

Vá lá... ainda podiam ir juntos ao cinema, podiam ir ao Corte Inglês ver o último do 007 - Sem Tempo para Morrer -, depois iam beber um copo, que agora já se pode e, quem sabe, acabar a noite entre os lençóis da especialidade. Mas não. Nesta hidra de esquerda, o velho guerreiro do PCP já não estava para aturar tanta moléstia da cabeça do casal. Esta relação só subtraiu votos e bastiões aos comunistas. Onde é que já ia Almada, ai minha rica Loures! Um dia destes era necessário um teste de despistagem para entrar no Alentejo. Chega! Perdão, basta! 

Desde que o primeiro-ministro se recusou a deixar preto no branco os termos das suas segundas núpcias que as coisas não andavam propriamente catitas. O Bloco de Esquerda, na constante bipolaridade entre o travo irresistível do poder e o grilinho residente na sua consciência revolucionária, já no OE transacto fizera estremecer a geringonça com a sua mania de sair à noite para conhecer outras pessoas. Iam para o Bairro Alto beber copos até de madrugada com os falsos recibos-verdes, acordavam nos braços da imigração ilegal, vestindo-se à pressa para ir ter como o SNS. O PCP ficava a tratar da lida da casa e a tomar conta dos sindicatos.

Durante a tarde, como estava escrito no guião deste Orçamento de Estado, os discursos dramatizaram tanto que se transformaram em comícios. A discussão já não continha discussão alguma. Como num passe de magia, que uns apelidaram de negra e outros nela encontraram a substância própria de um conto de fadas, o dia acabou em plena campanha eleitoral. Por estranho (ou não), entre o libelo acusatório do PS para os seus ex, notava-se um certo frémito, um certo entusiasmo, vindo das profundezas daquele seu desejo secreto de vislumbrar, por entre os destroços ilusórios desta derrota anunciada, que às vezes parecia mesmo deliberada, os esquissos de uma maioria absoluta. 

Que estranha visão nos ofereceu ontem o parlamento na hora de votar. A direita, contente da vida com esta dádiva mais parecia uma claque, a esquerda à esquerda do PS, de pé com a direita, com as pernas a tremer como uma geringonça, a pensar qual será a real cotação do chumbo no mercado da sobrevivência. 108 votos a favor, 117 contra, cinco abstenções. À geringonça, portanto, paz à sua alma. No final, só havia um estranho consenso, como numa noite eleitoral em que todos ganham. Que ficasse bem vincado: ninguém estava interessado numa crise.

O governo em peso avançou atrás do primeiro-ministro, em direcção aos passos perdidos, para anunciar ao país o que o país já sabia. Nesta noite, António Costa não tinha que cozinhar. Já tinha um convite para jantar em Belém. Para um daqueles pratos indigestos, com uma vichyssoise de cortesia.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico)

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