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“Aliança” de Santana Lopes para uma direita em crise

“Aliança” de Santana Lopes para uma direita em crise

Foto: Reuters
Portugal 4 min. 29.08.2018

“Aliança” de Santana Lopes para uma direita em crise

O antigo líder do PSD joga uma cartada de risco: se ganhar pode decidir governos de direita; se perder ficará como Santana Flopes.

“Aliança” é o nome que o novo partido de Pedro Santana Lopes vai ter. Ressoa à Aliança Democrática, a coligação de direita que levou Sá Carneiro ao poder. O seu fundador garante que a escolha foi objeto de um trabalho aturado, com a consulta de um moderno “focus group”. Mas, como confessa um elemento envolvido no novo partido à revista Sábado, “focus group é uma força de expressão”, o que se passou é que foram consultadas as pessoas que estavam no escritório de advogados em que trabalha Santana Lopes quando se discutiu o nome.

Parece que desta é que é de vez. Santana Lopes ameaçou sair do PSD no ano de 96 do século passado, com um hipotético Partido Social Liberal de seu nome e de sua graça. Depois, chegou a presidente da Câmara Municipal de Lisboa, líder do PSD e foi efémero primeiro-ministro. No recente congresso concorreu contra Rui Rio e perdeu por poucos.

A menos de um ano das europeias e a pouco mais das legislativas, perante um PSD dividido e que os críticos a Rui Rio garantem estar sem ambição, avança para a criação de um novo partido, liberal, conservador e personalista. Sobre a União Europeia põe o tom num certo ceticismo para apanhar os ventos dominantes na Europa: quer a integração europeia, mas com cuidado. O grafismo do símbolo vai buscar algo ao Ciudadanos espanhol, referência de muitos dos novos partidos de direita que se querem lançar. A seu favor tem a notoriedade do líder; contra surge o facto de, ao contrário de Alberto Rivera e Inés Arrimadas, não ser propriamente uma novidade e viçosa.

É aliás isto que refere a deputada e dirigente do CDS, Teresa Caeiro, ao Contacto: “Embora Santana Lopes nunca escolha o caminho mais fácil, mostrando uma grande resiliência e a capacidade de se reinventar, isso por si só não parece bastar. É difícil prever que possa imitar o percurso do Ciudadanos. Em Espanha isso foi pintado numa tela limpa. Santana Lopes é tudo menos uma tela limpa, dificilmente alguém que já foi tudo, menos Presidente da República, pode aparecer como o líder do protesto contra a insatisfação com a democracia”, nota a centrista.

Já o antigo assessor político de Passos Coelho e deputado do PSD, Miguel Morgado, reconhece no gesto um momento de insatisfação justa, mas na direção contrária. “A meu ver Santana Lopes comete um erro, embora eu compreenda as razões da frustração que o levaram a tomar essa decisão. Eu disse ainda recentemente numa entrevista que a direita política atravessa uma crise grave, que não só é sociológica como cultural e intelectual. E isso torna urgente a tarefa da sua refundação. Como militante do PSD, esta refundação e reconstrução política deve partir de dentro do PSD, como partido historicamente liderante do espaço da direita”, argumenta o deputado social-democrata.

Insatisfação com o sistema democrático

Tanto Teresa Caeiro como Miguel Morgado alertam para os sintomas de insatisfação com o sistema democrático que exigem atenção. A deputada centrista chama à colação um trabalho de reflexão sobre a democracia, “A Qualidade da Democracia”, de Conceição Paquito Teixeira, que revelava alguns indicadores preocupantes: “As pessoas concordam em teoria com as bases da democracia, mas depois quando são questionadas sobre três coisas em concreto, nomeadamente se devia haver um governo de tecnocratas em vez de políticos, há uma grande maioria que diz que sim; e, mais grave ainda, acham que o primeiro-ministro podia ser uma pessoa não sujeita a sufrágio e que não fosse eleita. São indicadores que demonstram a fragilidade da nossa democracia e uma certa herança salazarista. As pessoas trocariam de bom grado um emprego para a vida por um menor grau de liberdade de expressão”. Também nesse sentido, Miguel Morgado defende que a refundação do espaço da direita é fundamental para evitar o aparecimento dos atores populistas. “É um dever do PSD perante o contexto histórico que se vive na Europa e não só fazer essa refundação da direita para não permitir que ela se reconstrua de uma forma indesejável”, argumenta o deputado laranja.

Potencial para dividir a direita tradicional

Para já, o peso de Santana Lopes nessa refundação é aparentemente limitado. Uma sondagem publicada no Expresso dá-lhe cerca de 5% dos votos e garante que 15% dos eleitores não descartam poder votar na Aliança. Apesar disso, é provável que funcione como um rolo compressor para a maioria dos grupos liberais que pretende brotar. Não terá, em princípio, dificuldade em reunir as 7.500 assinaturas para se formalizar nem problemas quanto à recolha de apoios financeiros para fazer as campanhas. Parece por enquanto ser muito um partido de um homem só. Na sua equipa de base há três dissidentes do PSD e uma ex-deputada do CDS, Margarida Netto. Mas tem potencialidade para dividir a direita tradicional, com vista a tornar-se charneira para alguma coligação de governo.

Nuno Ramos de Almeida

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