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Relato da noite de crime racista hediondo falha o alvo
Opinião Portugal 10 min. 08.11.2021
Racismo

Relato da noite de crime racista hediondo falha o alvo

Racismo

Relato da noite de crime racista hediondo falha o alvo

Foto: DR
Opinião Portugal 10 min. 08.11.2021
Racismo

Relato da noite de crime racista hediondo falha o alvo

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
A história de Alcindo Monteiro, em lugar de se constituir em ponto de partida para um trabalho de etnografia visual, acaba por servir, no filme, apenas, de pretexto para uma denúncia do racismo estrutural em Portugal.

Amigos alinhados à esquerda procuraram convencer-me de que qualquer etnografia de episódios racistas exigirá sempre um envolvimento, um comprometimento político, uma necessidade de explicitar de que lado da barricada estão os etnógrafos visuais. No fundo, é como se houvesse uma obrigação de assumir responsabilidades em termos de um comprometimento político explícito, rompendo com os paninhos quentes e as aspirações à objectividade de um discurso em que os académicos se encerram, para fazer valer a sua miopia ou o seu medo de passar à ação política. Mais: ao lidar com imagens – fílmicas, fotográficas, pictóricas, etc. – e não com discursos escritos, reforçam-se esses mesmos sinais, deixando de haver espaço para ambiguidades de sentido, passando a existir uma maior obrigatoriedade em definir de que lado se encontram os produtores dessas imagens. Em síntese, não há etnografia separada de um comprometimento político, quer este seja denominado manifesto, panfleto ou trabalho de propaganda.  

Discordo do ponto de vista desses meus amigos. E, embora saiba que um documentário não pode ser avaliado pelo que lá não está, o filme tem mais de manifesto panfletário do que de etnografia. A ponto de a história do Alcindo Monteiro, em lugar de se constituir em ponto de partida para um trabalho de etnografia visual, acaba por servir, no filme, apenas, de pretexto para uma denúncia do racismo estrutural em Portugal. De igual modo, a história da sua vida, morte e memória acaba por diluir-se no meio de um trabalho de propaganda, que talvez vise conciliar duas organizações antirracistas, uma mais ligada ao PCP (a que o realizador está ligado, como militante ou compagnon de route), outra aos trotskistas que passaram pelo PSR-Bloco de Esquerda. 

Abra-se aqui um parênteses com algumas observações sobre o facto de a questão racial nunca se ter constituído, propriamente, numa bandeira desses partidos. Acerca da Frente Antirracista, por exemplo, ninguém sabe bem o que faz ou o que fez, pelo menos nos últimos tempos. O SOS Racismo é mais mediático, mas recorde-se que Mamadou Ba saiu do BE, devido à falta de solidariedade que sentiu quando criticou a polícia. Quanto ao PCP, nunca se esqueça que este esteve próximo das polícias e teve influência sobre o seu maior sindicato. Porém, no caso da esquadra de Alfragide, uma advogada do PCP surgiu a defender os jovens da Cova da Moura, ao mesmo tempo que o sindicato afecto ao PCP desvalorizou o caso, sem se colocar do lado dos polícias. Ora, não terá sido esta habilidade do PCP que atirou uma parte importante dos polícias para o movimento ligado ao Chega? De qualquer modo, os movimentos antirracistas parecem ser, hoje, sobretudo, produto do imperialismo de uma razão internacional, disseminado pelas redes sociais e com presença no mundo académico. Por isso, dificilmente podem ser considerados como o reflexo da atividade dos partidos de esquerda, porventura sempre mais preocupados com as questões económicas do que com as raciais. 

Retomando o fio à meada, só uma abordagem mais etnográfica, mais inquiridora, poderia explicar melhor as razões que levaram Alcindo Monteiro a estar no Chiado naquele dia e àquela hora. Se ele gostava de dançar, já teria estado, no Bairro Alto, a fazê-lo? Depois, estaria ele sozinho, por excesso de confiança e de segurança, julgando que nada lhe aconteceria, como em muitas outras noites? Fora de um quadro que nada tinha que ver com gangs ou bandos organizados em torno da violência, quais as sociabilidades que o levaram a sentir-se atraído pelo centro de Lisboa? Em meados da década de 1990, como poderia encarar-se a presença de jovens adultos negros no Bairro Alto: mero fenómeno pontual, muito circunscrito, ou um processo em expansão que só excepcionalmente poderia ser tido como uma ameaça? 

Depois, se o documentário procura afastar as marcas de uma suposta pertença de jovens negros a gangs e bandos violentos, porque não aprofunda essa mesma ideia de grupo. É que só uma etnografia dos grupos que vão aparecendo no filme poderia ajudar a compreender melhor o que querem os jovens negros dizer quando afirmam que não estão vinculados a gangs. Estes grupos são, aliás, de vária ordem: há o grupo dos ex-combatentes – representados por militares de alta patente como Kaulza de Arriaga ou Alpoim Calvão, que surgem no filme – que, numa sociedade de veteranos como a portuguesa, atravessa muitos extractos sociais; há, também, o grupo dos polícias definidos em função do seu uso descontrolado da violência, cuja situação económica e reivindicações por uma carreira digna dificilmente podem ser descartadas; há, por último, a própria caracterização dos grupos de nazis e skinheads, a que também podem ser atribuídas características de bando organizado e violento, mas que nunca chega a ser tratado como tal.  


Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda (BE) e candidata por aquele partido à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, coloca uma flor no memorial de homenagem a Alcindo Monteiro, no local em que foi assassinado há 26 anos, Lisboa, 10 de junho de 2021.   MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Será a violência contra os negros uma realidade escondida que tem de ser mostrada?
Na noite de 10 de Junho de 1995, um grupo de nacionalistas neonazis organizou uma correria pelas ruas do Bairro Alto para caçar indivíduos negros e afirmar a sua presença.

A respeito da última sugestão – de que existiu e continua a existir um vai-e-vem, que chega a aparecer no filme, entre grupos de skinheads e as claques de futebol, com as suas bandeiras nazis desfraldadas – , investigações recentes oferecem um ponto de vista mais interessante. Por exemplo, muitos dos skinheads das claques portuenses, para além de raparem o cabelo para terem uma forte visibilidade, “não têm qualquer identificação e desconhecem mesmo os valores que compõem o quadro ideológico desta subcultura”, por isso, é difícil aceitar que exista “uma passagem das condutas meramente estilísticas para uma dimensão política” (Daniel Alves Seabra, Claques de Futebol: o teatro das nossas realidades, Afrontamento, 2017, p. 191). Não se esqueça, ainda, que as mesmas claques se terão organizado mais em função da gestão da noite, dos circuitos da droga e da criminalidade, do que propriamente de bandeiras ideológicas.  

Quanto à questão de uma antinomia maniqueísta entre uma visão luso-tropicalista da identidade nacional, mais ou menos fantasmagórica, e o realismo associado a um racismo estrutural, denunciado por uma espécie de organizações de vanguarda antirracistas, que não aceitam discussão, trata-se de duas faces da mesma moeda. Dois lados que parecem alimentar-se um ao outro, banalizados, aspirando cada um deles a constituir-se em visão primordial, de alcance universal no que à identidade nacional e seu respectivo passado colonial diz respeito. Contudo, não parece que toda a história seja passível de caber nos dois lados desta moeda. Sobretudo, afigura-se difícil aceitar que, a partir deles, se possa fazer uma etnografia da vida, assassinato e memória de Alcindo Monteiro.    

Por último, quanto ao modo de atuação da polícia – ponta do iceberg de um dispositivo securitário, de aplicação da justiça e da organização penitenciária – , as informações disponibilizadas pelo filme são escassas. Com base no documentário, pode dizer-se que os polícias são os maus da fita, porque batem de um modo arbitrário, e o sistema carcerário, enquanto viveiro de bandos e gangs nem sequer é mencionado (a este propósito, não terá a Juve-Leo expulsado do seu interior os próprios skinheads, a bem de outras lógicas, igualmente violentas?). Só acerca do sistema de justiça parece existir mais informação. Concretamente, a pena pretendida pela acusação só, em parte, foi aplicada pelos juízes. Mesmo assim, o documentário só refere um único advogado de acusação, ignorando o outro advogado, Teixeira da Mota. Pior ainda, a pressa com que foram aplicadas penas pesadas, nalguns casos de 18 anos de prisão, foi posta em causa juridicamente e obrigou a reajustamentos. Foi o que demonstrou um dos documentários feito pela jornalista Sofia Pinto Coelho. 

Em conclusão, se este documentário sobre Alcindo Monteiro reivindica para si o estatuto de uma etnografia, há inúmeras razões para pensar que falhou, em parte, o alvo. A informação disponibilizada é insuficiente ou surge de forma atrabiliária. Quando procuramos as camadas de significado do mesmo filme, confrontamo-nos mais com um manifesto que recorre à linguagem do panfleto ou da propaganda. Também se sente uma falta de hábito em recorrer a outros documentários que se debruçaram sobre os intervenientes no processo, bem como uma ausência de interesse em mostrar os lados que não são os da vítima. Ora, os fascistas, conforme defendeu um dos seus maiores e insuspeitos estudiosos, Michael Mann, têm de ser estudados e levados a sério, nas suas razões e motivações. Não podem ser descartados, simplesmente, como uns loucos skinheads, encarnação do demónio que uma sociedade, ainda por cima ludibriada por uma ideologia luso-tropicalista, finge não ver. 

Insisto: não me parece que a função de um documentário, que aspira a ser uma peça de análise etnográfica, seja a de dar expressão a uma ideologia, qualquer que ela seja. Pierre Bourdieu e, na sua esteira, Gisèle Sapiro lembraram-no várias vezes, quando tomaram as ciências sociais como um todo.  E, tal como o sociólogo ou o etnógrafo, também o documentarista, ao desenvolver a sua prática reflexiva de inquiridor de um evento e do contexto social em que ele teve lugar, tem de mostrar que não pretende ser um mero porta-voz mandatado quer pelos dominados, quer pelos dominantes. O objectivo, pelo contrário, é tão-só o de informar, com base num trabalho sistemático de recolha, acerca dos pontos de vista dos diferentes lados em confronto, reinscrevendo-os num campo mais vasto de relações de força. Ora, é esta dimensão mais propriamente etnográfica do documentário que, sem desaparecer, surge nele demasiado diluída, a ponto de ser difícil compreender o que aconteceu de facto a Alcindo Monteiro. Por isso, que os aplausos dados de pé a este documentário, na sua estreia, não desviem o seu jovem realizador, antropólogo visual, de melhorar, no futuro, o seu próprio trabalho.

É que o caso do Alcindo, por mais chocante e violento que tenha sido, resultou em penas de prisão pesadas. O assassino de Bruno Candé também recebeu uma pena bem pesada, enquanto no caso de Cláudia, que foi agredida num autocarro, não se terá ido tão longe. Neste quadro, será legítimo continuar a pensar, como sucede no documentário, que a violência contra os negros é uma realidade escondida que necessita de ser mostrada? Que a justiça não pune devidamente os agressores? Que a sociedade é indiferente perante tais actos de violência? Ou que o tal racismo estrutural foi, no caso do Alcindo, particularmente traumático, logo é urgente exibi-lo e mostrá-lo como paradigmático? São questões que ficam por responder. Contudo, parece-me que o filme seria mais representativo da sociedade portuguesa actual se seguisse duas pistas.

Por um lado, se procurasse chegar às raízes também elas suburbanas do movimento skinhead - que antes de ser fascista é organicamente operário, de uma realidade britânica que aqui se aplica mal. Depois, sem deixar de prestar atenção ao futebol, enquanto viveiro de grupos violentos, e sem esquecer que o 10 de Junho era o dia da final da Taça de Portugal, há duas outras dimensões, porventura mais importantes: o desajustamento que se vivia entre uma cultura do PCP, porventura ainda dominada por uma agenda neo-realista, totalmente incapaz de revelar o que estava a suceder em áreas controladas pelo mesmo partido; e um enorme desfasamento das subculturas que se apanhavam pela televisão e outros meios de comunicação (música, banda desenhada, etc.), em relação à realidade do Barreiro. 

Por outro lado, se falasse mais da violência policial, da proporção de negros nas prisões, do abuso da prisão preventiva e também do facto de, na minha universidade, o maior grupo de negros não estar sentado nas salas de aulas, mas andar a trabalhar nas limpezas. É que, em todas estas práticas sociais, o racismo talvez possa ser considerado mais estrutural do que num caso em que se fez a justiça possível e em que os perpetradores pertenciam a um grupo extremista xenófobo.

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