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Adeus Luxemburgo. "Estou mais feliz em Portugal"
Portugal 6 min. 09.07.2022
Sonho realizado

Adeus Luxemburgo. "Estou mais feliz em Portugal"

Cátia Maia Loureiro à porta da sua casa na Amora.
Sonho realizado

Adeus Luxemburgo. "Estou mais feliz em Portugal"

Cátia Maia Loureiro à porta da sua casa na Amora.
Foto: Rodrigo Cabrita
Portugal 6 min. 09.07.2022
Sonho realizado

Adeus Luxemburgo. "Estou mais feliz em Portugal"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Cátia Loureiro e as duas filhas regressaram há dois anos para o país natal. Um sonho que a portuguesa acalentava desde que se mudou para o Grão-Ducado, aos 14 anos. "Não estou nada arrependida".

A colorida Abelha Maia em forma de suporte de vaso, junto à entrada principal da moradia na Amora, dá as boas-vindas às visitas da família Maia Guerra. A divertida figura de metal foi uma oferta da mãe de Cátia Maia Loureiro quando esta sua filha, de 41 anos, e as netas Inês, de 14 anos, e Victória, de 5 anos, deixaram o Luxemburgo em agosto de 2020 e regressaram de vez a Portugal. 

O marido Bruno Guerra, de 46 anos, empresário, continua no país de acolhimento, mas sempre que pode vem visitar a família. Foi numa destas visitas recentes que o Contacto esteve com o casal que desde há dois anos ganhou uma vida nova. Cátia cumpriu o sonho que acalentava desde os 14 anos, quando “foi obrigada” a fazer a viagem em sentido contrário, deixando a Figueira da Foz e mudando-se para um novo país com a sua mãe.

“Vinte e sete anos depois aqui estou eu de volta ao meu país. Desde os 14 anos quando parti que sempre desejei voltar embora tivesse tido uma vida boa no Luxemburgo. Mas Portugal estava sempre no meu pensamento”, conta Cátia Loureiro, olhando cúmplice para o marido sentado à sua frente na sala de jantar.

Cátia Loureiro é uma das portuguesas que concretizou o sonho de regressar ao país natal, o mesmo desejo têm 70% dos emigrantes que deixaram Portugal, revela um inquérito recente da  Associação portuguesa para o Desenvolvimento Económico e Social.

“Estamos super felizes. Não estou nada arrependida, nada. Sempre quis voltar para o meu país e estou mais feliz cá, e as meninas também gostam muito”, confessa Cátia.

O timing para o regresso foi decidido em função da vida escolar das filhas. “As nossas filhas iam transitar para a fase posterior da vida escolar, a Inês terminou a escola primária e a Victória passava para o pré-escolar. Foi a altura certa para voltarmos, pois quisemos que o resto do percurso escolar já fosse feito em Portugal”, conta o casal, salientando que tudo foi preparado com tempo.

Cátia Maia Loureiro na sua mini horta onde crescem tomates e morangos "maravilhosos".
Cátia Maia Loureiro na sua mini horta onde crescem tomates e morangos "maravilhosos".
Foto: Rodrigo Cabrita

Antes de se decidir pela Amora, perto do Seixal, onde Bruno nasceu e cresceu, o casal visitou outras cidades portuguesas. “Pensámos na Figueira da Foz onde tenho a minha família, embora a minha mãe continue a morar no Luxemburgo porque tem lá o meu irmão mais novo, fomos a Coimbra, Aveiro, e outras cidades com oportunidades para eu começar uma nova carreira e perto de escolas e universidades para as miúdas”, lembra Cátia que no Luxemburgo trabalhava em secretariado médico e já tinha uma boa carreira.

Agora é assistente administrativa numa empresa em Lisboa e está “muito contente” com a carreira. As competências que adquiriu no Luxemburgo, nomeadamente a fluência de vários idiomas são “uma mais-valia” na vida profissional.

 Apesar de terem nascido e vivido no Luxemburgo até há dois anos, as  filhas Inês e Vitória adaptaram-se “muito bem à vida escolar em Portugal e estão totalmente inseridas no novo meio”. “A Inês é muito boa aluna e a Vitória ainda no pré-escolar está muito bem e feliz”, conta Cátia orgulhosa.

Desde pequenina, que Inês frequentava as aulas de português do Instituto Camões, no Luxemburgo e em casa os pais ajudavam-na com a escrita, como “nas cartas que ela enviava aos familiares cá”. “A Inês com 12 anos domina fluentemente quatro línguas, português, o luxemburguês, francês e o alemão. É incrível”, salienta o pai Bruno Guerra.

Cátia Maia Loureiro foi para o Luxemburgo com 14 anos mas sempre sonhou regressar a Portugal.
Cátia Maia Loureiro foi para o Luxemburgo com 14 anos mas sempre sonhou regressar a Portugal.
Foto: Rodrigo Cabrita

Visita surpresa ao Luxemburgo

 Nos feriados de junho Cátia e as filhas fizeram uma surpresa a Bruno e viajaram até ao Luxemburgo. “Aproveitámos para estar com a família, rever amigos e fomos às festas”, recorda a portuguesa  

Também há pouco tempo, a mãe de Cátia veio passar um mês com a filha e as netas. “A minha mãe continua a viver no Luxemburgo, mas já está a pensar regressar também, pois adora estar em Portugal”, diz a filha contente pois a família é muito unida. “Lá a minha mãe vive sozinha, o meu irmão tem a vida dele organizada e, por isso, o mais certo é ela voltar para cá”.

Enquanto não regressa, as saudades da mae são atenuadas com os telefonemas diários, de “três a quatro vezes por dia”. “Eu e a minha mãe somos muito próximas e agora sinto falta dela”, justifica.


O casal Helena e Pedro com os filhos Eduardo e Beatriz e a cadelinha Yara já adotada em Portugal.
Adeus Luxemburgo. "Voltámos de vez para Portugal"
Helena e Pedro regressaram há dois anos para o seu país natal. Garantem que a cada dia que passa "se sentem mais felizes" com a decisão tomada.

Cátia não se cansa de falar sobre a qualidade da vida no Seixal, do sol que aparece muito mais do que no Luxemburgo, das idas à praia ao final do dia de trabalho, com as filhas, da oferta cultural e de lazer para as crianças que existe na região.

“Aqui há mais tempo para o lazer, saímos do trabalho e ainda podemos passear e desfrutar de momentos em família e com amigos. No Luxemburgo, saía do trabalho e ia logo para casa”, vinca a portuguesa regressada. Por outro lado, vê com muito maior frequência os familiares na sua terra natal, a Figueira da Foz. Do Seixal, a viagem não é longa. “Vou à Figueira duas vezes por mês, estamos com a família e as meninas aproveitarem também o campo. E a praia, claro”.

Na Amora, a família está a dois passos da praia para delícia de todos.
Na Amora, a família está a dois passos da praia para delícia de todos.
Rodrigo Cabrita

Portugal é um "país de oportunidades"

Bruno Guerra nado e criado na margem sul de Lisboa mudou-se com 22 anos para o Grão-Ducado onde já vivia o seu pai. “Estou lá há 24 anos, e claro que também penso em mudar-me para cá um dia e alargar a minha atividade aqui”, diz Bruno Guerra.

“Tudo o que temos devemos ao Luxemburgo, senti-me sempre muito bem lá, mas com muitas saudades do mar e do nosso sol. Lá conseguem ser sete dias sem sol e custa muito. Toda a população no Luxemburgo tem carência de vitamina D e todos tomam, crianças e adultos”, conta Cátia. Ao que Bruno acrescenta: “todo o emigrante português sente falta da família, dos sabores, da luz, do sol, e muitos como nós, do mar”. Sobretudo, eles os dois criados à beira mar.

Cátia Maia Loureiro à porta de casa junto à abelha Maia que dá as boas-vindas aos visitantes.
Cátia Maia Loureiro à porta de casa junto à abelha Maia que dá as boas-vindas aos visitantes.
Foto: Rodrigo Cabrita

Cátia também tem saudades dos amigos que foram “fazendo ao longo da vida”. “Os amigos lá são a família que falta aos emigrantes”, frisa Bruno. Agora é a vez dos amigos virem visitar Cátia a Portugal, o que já aconteceu nas férias quando Bruno Guerra também estava.


Contacto, entretien avec un retraité Portugais, Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Ficar ou voltar? O dilema dos reformados portugueses no Luxemburgo
Muitos imigrantes portugueses no Luxemburgo enfrentam um dilema quando chega a hora da reforma: voltar a Portugal ou ficar no país que os acolheu? Histórias de quem fica, de quem quer voltar e de quem já voltou.

 “Atualmente, há mais qualidade de vida em Portugal do que no Luxemburgo. Os salários são inferiores aos do Luxemburgo, sem dúvida, mas lá está cada vez mais difícil, sobretudo para quem ganha o salário mínimo, porque a habitação e os bens alimentares estão cada vez mais caros”, vinca este casal. Por isso, contas feitas às despesas do orçamento familiar, à família, ao sol, ao mar, ao acordar no país natal, onde sempre se sonhou em regressar “compensa mais viver em Portugal”.

Os papéis inverteram-se e “Portugal é que é agora o país das oportunidades” defende Bruno Guerra sublinhando que “há cada vez mais portugueses a regressar a Portugal”. O casal conhece várias famílias que já voltaram e outras que vivem entre cá e lá. Alguns até são amigos e depois de anos a conviverem no Grão-Ducado, reencontram-se agora na sua terra natal.

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