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A voz de Fátima
Portugal 9 min. 21.05.2022
Religião

A voz de Fátima

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A voz de Fátima

Foto: DR
Portugal 9 min. 21.05.2022
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A voz de Fátima

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
A sobrenaturalidade é a substância do fenómeno de Fátima. Desde 1917, ano das "aparições", começou a ser feita uma recolha infindável de pretensas curas e milagres por intercessão de NS de Fátima e dos pastorinhos, fundamental no processo que levou à beatificação de Francisco e Jacinta Marto. Este trabalho de recolha deve-se ao cónego Formigão, peça-chave de Fátima. E a uma voz, que surgiu em 1922, para difundir a mensagem, as curas e os milagres: o jornal A Voz de Fátima, prestes a tornar-se centenário.

O jornal A Voz de Fátima, mensal, é o mais antigo órgão de informação ao serviço da causa de Fátima. Ou, aliás, de "informação e formação", como é o seu mote. O número inaugural, data de 13 de Outubro de 1922. Foi projectado cinco meses antes, na primeira reunião dos membros da Comissão Canónica para a investigação das ocorrências de Fátima. No número 2, de 13 de Novembro, o jornal iniciou uma secção, com a epígrafe Curas de Fátima. Durante anos, A Voz de Fátima deu à estampa centenas e centenas de relatos, alguns na primeira, outros por pessoa interposta, de curas "extraordinárias" por suposta obra e graça de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, ou por "intercessão" dos três pastorinhos.

Edição número 1 da Voz de Fátima de 13 de Outubro de 1922.
Edição número 1 da Voz de Fátima de 13 de Outubro de 1922.
Foto: DR

No jornal, deixava-se um apelo para que todos os que tivessem conhecimento de casos interessantes, os enviassem por carta para o jornal, dirigida a Manuel Marques dos Santos, seu proprietário, director e editor. Explicava-se, porém, que já existia um "volumoso dossier", com descrições de "curas milagrosas" desde 1917. Muito graças ao cónego Manuel Nunes Formigão, interrogador-mor dos pastorinhos de Fátima, que ao início parecia um dos mais empedernidos detratores, mas que se converteu com todo o fervor à causa de Fátima, reclamando-se até testemunha ocular de duas das "aparições". O cónego Formigão estava nomeado para director d'A Voz de Fátima, tendo recusado a missão por incompatibilidades logísticas. Em vez disso, grossos pedaços do jornal eram preenchidos por um tal Visconde de Montello que, em 1918, foi publicando no jornal católico A Guarda, uma série de arrazoados apologéticos sobre os acontecimentos de Fátima. Era por isso que o caso escolhido para inaugurar a secção Curas de Fátima, era uma transcrição de uma carta dirigida ao Excelentíssimo Visconde de Montello, pseudónimo literário do Cónego Manuel Nunes Formigão, que tinha publicado em livro "Os Episódios Maravilhosos de Fátima".

O Visconde de Montello escreveu ininterruptamente artigos para A Voz de Fátima desde a sua fundação até 1956. Este jornal foi desde o primeiro momento considerado um veículo prioritário para espalhar a "mensagem" de Fátima. Ainda nos dias globalizados de hoje, por entre redes sociais e os infinitos mecanismos tecnológicos de propagação de informação, este mensário se mantém no posto.

Com o tempo, o espólio de curas angariado e publicado n'A Voz de Fátima, constituiu-se uma fonte inesgotável dos mais diversos e estranhos casos, onde a medicina não encontrava explicação. As fundações de Fátima estão assentes nisso mesmo. Foi d'A Voz de Fátima que se extraiu uma fatia importante da substância para a Causa de Beatificação de Francisco e Jacinta Marto, que culminou com a respectiva beatificação dos irmãos pastorinhos no ano jubilar de 2000, com a presença em Fátima do Papa João Paulo II, cumprindo-se a primeira etapa, no longo percurso para a canonização, que se iniciou oficialmente em 1952.

Os três pastorinhos numa rara fotografia de época.
Os três pastorinhos numa rara fotografia de época.
Foto: Lusa

Os milagres do senhor visconde

A secção Curas de Fátima, abria o seu "livro" de revelações com uma carta de D. Maria do Carmo da Câmara, de Belmonte, que se dirigia ao senhor visconde para lhe falar de uma "graça por intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima", ocorrida em Maio de 1919. A remetente tinha "um sobrinho gravemente enfermo, de compleição bastante fraca. Tendo já 13 meses, não tinha dente nenhum. Grandes eram as minhas apreensões e o médico não tinha dúvidas sobre a gravidade do seu estado. Que fazer nesta aflição? Invocar Maria Santíssima do íntimo d'alma para que intercedesse por mim junto do seu Divino Filho e dispensasse a sua maternal protecção ao inocentinho. Tinha conhecimento da protecção da Santíssima Virgem sob a invocação de Nossa Senhora de Fátima. Com este novo título a invoquei e, tendo colocado sob o travesseiro da criança uma porção de terra do lugar das aparições, constatei que sem incómodo lhe apareceu o primeiro dente, e o segundo, justamente no dia 13 de Maio. O seu estado geral melhorou e a dentição continuou a fazer-se bem. Assim fui levada a reconhecer que a gloriosa Mãe de Deus por este facto, que considero miraculoso, manifestou a sua protecção a quem assim a invoca, para que desapareçam as dúvidas que se levantam sobre a realidade da sua aparição em Fátima".


O pagador de promessas tem como "clientes" mais assíduos as pessoas que por velhice ou por incapacidade física de outra ordem não possam fazer o trajecto como ele faz.
Fez uma promessa e não a consegue cumprir? Há quem o faça por si
De Portugal para o mundo, eis Carlos Gil, um peregrino muito especial. Ao Santuário de Fátima ou aos confins do mundo, paga as promessas que os outros fizeram e acerta as contas com a devoção. Cada promessa, 2500 euros, salvo inflação.

São inumeráveis os relatos assim, sendo que este fez história n'A Voz de Fátima apenas por ser o primeiro. E por ter gerado um efeito multiplicador. O arquivo do jornal, ou melhor, do cónego Formigão, transformou-se ele mesmo no pão da causa. No relatório da Comissão Canónica – a mesma que deliberou a fundação do jornal, hoje propriedade do Santuário de Fátima -, existia um apêndice especial sobre "Curas Extraordinárias", parte fundamental do denominado Processo Diocesano, de 1930. Nas Curas Extraordinárias, tinham sido eleitas 17, todas seleccionadas entre as muitas centenas que A Voz de Fátima tinha publicado, entre 1924 e 1930.

No seu número de Janeiro de 1923, A Voz de Fátima, publica uma carta, que havia sido encaminhada para o Cónego Formigão pela mão de um oftalmologista de Lisboa. Não era um médico qualquer. Era Eurico Lisboa, que visitara Jacinta Marta no seu leito de convalescença na aldeia de Aljustrel e a convencera a internar-se em Lisboa, no Hospital D. Estefânia, tendo tratado de todos os pormenores desse internamento com o Cónego Formigão, de quem se tinha tornado amigo. Eurico Lisboa acompanhou a pastorinha até à morte. O médico lisboeta tinha prometido que lhe remetia um caso de "milagre" quando se deparasse com um. Deparou-se com este, relatado por uma inglesa que vivia em Lisboa, mas que entretanto se tinha mudado para Nova Iorque.

É precisamente a essa viagem de barco que se reporta a exposição de miss M.C. Barres: "Havia a bordo uma pequenina, cujos pais são da Síria, mas bons católicos. Adoeceu com uma febre tifóide. Fez-se tudo quanto possível para a salvar. Havia quatro médicos a bordo. Esta pobre criança piorava cada vez mais, até que os quatro médicos fizeram junta mais uma vez; e o resultado foi que não podia viver. A pobre criança já nem falava, nem conhecia ninguém, nem dava sinais de vida". 

Miss Barres transportava consigo água e um pedaço de terra do lugar dos pastorinhos. "Como tinha eu essa água pedi ao médico se dava licença que a menina bebesse um golinho de cada vez. Ele respondeu-me: pode fazê-lo, mas pode crer que está condenada. Digo-lhe que na noite em que a morte vinha roubar aos pais a sua filha, dei-lhe a água, e graças a Deus não morreu mas começou a mostrar melhoras e felizmente desembarcou para continuar o seu tratamento no hospital de Providence". Em Post Scriptum: "Só depois de tomar a água de N.S. de Fátima que a menina começou de melhorar. Com toda a certeza foi um milagre".

Desde a sua fundação até 1930, A Voz de Fátima publicou em 90 números do jornal, perto de 200 casos como estes, sob a égide das "Curas de Fátima". No Processo Diocesano não bastava o mero relato dos acontecimentos. A grande maioria dos casos eleitos (14), eram devidamente acompanhados de atestados médicos, às vezes de mais que um médico. Neste caso, a atestar a sua impotência científica para as curas em causa, que os "peritos" diocesanos concluíram tratar-se de "inegáveis milagres". Alguns desses casos tinham a particularidade de ser descritos pelos próprios médicos em vez dos doentes. Ou, ainda, um caso em que o próprio médico é o doente, como é o sexto, da referida lista de 17. O dr. Acácio da Silva Ribeiro, que sofreu um acidente de viação, do qual ele próprio afirma a sua estranheza de não ter morrido, não ter sido amputado a uma perna, gravemente ferida, ou não de ter ficado com lesões permanentes. O médico atribuiu ao facto de ter recuperado, ao ponto de se sentir como antes do acidente, à sua fé e preces à NS de Fátima.

Lentamente, a Igreja Católica acolhia Fátima no seu ventre. Mas, dado o caudal imparável dos relatos que propagavam, as entidades eclesiásticas portuguesas tomaram precauções. Havia necessidade de certificar a subjectiva objectividade dos "milagres". A 13 de Maio de 1926, por decisão de D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, foi criado no Santuário de Fátima um posto de "verificações médicas". Uma espécie de organismo de triagem de curas, conduzida por médicos, que separava o trigo do inexplicável do joio da medicina. 

O fenómeno de Fátima consolidava, a papel químico de Lourdes. Em 1988, o Bispo de Leiria, D. Alberto Cosme do Amaral, já era Bispo de Leiria-Fátima. Nesse ano, seguindo o exemplo do Santuário de Lourdes, decidiu dotar o santuário de uma Comissão Médica Nacional de Fátima, formada por professores universitários dos mais diferentes ramos da medicina, provenientes das faculdades de Medicina de Lisboa, Coimbra e Porto.


Peregrinos ,negócios e ambientes.
Je vous salue Marie
No passado 13 de Outubro, que assinala a “sexta” aparição de Nossa Senhora do Rosário aos três pastorinhos, o Santuário de Fátima encheu-se de novo de gente. Algo que em 109 anos da sua existência, nunca tinha acontecido, aconteceu nos dois anos anteriores. Voltou a Fátima o seu alimento: a multidão.

No dia 13 de Maio do ano 2000, no Santuário de Fátima, João Paulo II beatificava Francisco e Jacinta Marto. Uma cerimónia mundial, com transmissão televisiva para os cinco continentes. Na Suíça, Maria de Fátima Marques, emigrante, natural de Seia, estava com os olhos postos na tv, com o seu filho de um ano ao colo. Filipe tinha diabetes do tipo 1, uma doença incurável, que o tornava dependente crónico de insulina, diagnosticada quando tinha apenas 34 dias de vida. Quando chegou o momento da benção aos doentes, Maria de Fátima, ajoelhou a rezar em frente à TV. Rezou 20 minutos à NS de Fátima, contou. 

No dia seguinte, quando mediu os níveis de glicemia do filho, notou que os valores estavam normais. Consultou o médico do filho, que não encontrou explicação para a ocorrência. Consultou depois vários outros médicos, que também não souberam explicar aquela alteração. E o que não está explicado, explicado está. Para Maria de Fátima, não há dúvidas: foi a intercessão dos pastorinhos de Fátima que curou o filho. A ocorrência foi admitida pelo Tribunal Esclesiástico, que deu providência ao processo canónico deste "milagre". Este milagre via tv, pode ser o "milagre" desbloqueador para a conclusão do processo de canonização de Francisco e Jacinta Marto, instaurado oficialmente a 13 de Outubro de 2004.

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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