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A mãozinha humana de António Costa
Opinião Portugal 4 min. 21.07.2022
Incêndios

A mãozinha humana de António Costa

Incêndios

A mãozinha humana de António Costa

Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP
Opinião Portugal 4 min. 21.07.2022
Incêndios

A mãozinha humana de António Costa

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
O primeiro-ministro continua, como fez durante a pandemia, a colocar o ónus e a responsabilidade no cidadão, descartando os seus. Agora também nos incêndios.

Numa semana ardeu em Portugal mais do dobro de território do que em todo o ano de 2021. As temperaturas têm estado (a)normalmente altas, ainda por cima ano de seca severa, a onda de calor foi em toda a Europa, até Londres ardeu. Tudo verdade. Por tudo isso, o Governo não tem culpa (conceito muito judaico-cristão pouco útil em política) ou responsabilidade (lá está) na forma como gere e continua a gerir os fogos, a floresta, a seca, a resposta à inevitabilidade das alterações climáticas, o território, o mundo rural.

Diz António Costa que o país está, hoje, "mais preparado do ponto de vista estrutural" para combater incêndios, mas isso "nada diminui a responsabilidade de cada um". Continua: "O país pode ter todos os meios do mundo, agora, com estas condições meteorológicas, com temperaturas extremas, com ano de seca extrema, com combustível volumoso e ótimas condições para arder, qualquer descuido desencadeia imediatamente um enorme incêndio (…). Os incêndios só ocorrem se uma mão humana, voluntariamente ou por distração, os tiver provocado."

Vale a pena perceber até onde vai a mão humana do Governo. Porque continuamos a olhar para a árvore e a não ver a floresta: é mais fácil procurar a "culpa" deste incendiário ou daquele mato por limpar, ignorando decisões políticas sistémicas na gestão do território.

Se não for um incendiário, são os guardas florestais. Estiveram em greve na semana de maior calor e de incêndios. E a "decência"?, perguntava um director do Público: "Os cerca de 95% dos guardas que aderiram esta greve demonstraram pouca ou nenhuma consideração pela missão pública das funções que desempenham, pelo desespero das populações cercadas pelos incêndios de norte a sul, e só legitimam as dúvidas sobre o direito à greve em situações com esta. A marcação da paralisação é tudo menos 'inocente', como alegam os responsáveis sindicais. A greve foi marcada a 5 de Julho e poderia, face ao cenário actual, ter sido adiada."

Exemplo de como a "mão humana" pertence aqui ao Governo e não aos guardas, apesar de ser fácil imputar-lhes uma responsabilidade que não têm, nem no combate aos fogos, nem na gestão do "desespero das populações cercadas". É mais fácil atacar o "direito à greve", reduzi-lo a "requisições civis" ou "estados de emergência" em que se suspendem direitos pela "missão pública", quando falamos de pessoas com tanta responsabilidade na protecção da floresta, afinal a ganhar salário mínimo.

Nenhum media teve a "decência" de perguntar aos guardas florestais da GNR porque estavam em greve. Pegaram no comunicado da CGTP, citam "são a polícia criminal mais mal paga em Portugal", mas ninguém lhes perguntou o que isso significa na prática, como e onde vivem, como é a sua carreira, do que precisam para viver melhor.

Em Janeiro, estiveram em greve. Ninguém quis saber. Em 2021 estiveram em greve. Em 2020, em 2018, em 2016. Ninguém quis saber. Mas deve haver alguma razão para trabalhadores que ganham o salário mínimo, reduzidos a poucas centenas, cuja carreira foi extinta há quase 20 anos e integrados na GNR sem os mesmos direitos, serem hoje uma "polícia criminal" a pedir para existir e fazerem greve todos os anos. Se Portugal arde, a "culpa" só pode ser da mão humana dos Guardas Florestais.

Como lembra Maria Carolina Varela no Inevitável: "As defuntas circunscrições e administrações florestais dos serviços florestais tinham intenções de ordenamento florestal do território e tinham técnicos oriundos de um curso de silvicultura (…). Essas estruturas foram substituídas por uma miríade de associações florestais a que estão atribuídas funções administrativas e de fiscalização, outrora desempenhadas pelos guardas-florestais, por exemplo, sobre as limpezas dos terrenos e dos processos de autorização para alteração de espécies nas rearborizações."

O que hoje se chama de "abandono das terras" não tem só a ver com a quem pertence, gere, limpa ou lucra com aquele pedaço de eucaliptal. Mas que serviços existem para fixar as pessoas e as suas famílias. Há floresta e ordenamento do território? Há correios, tribunais, hospitais, escolas, estradas asfaltadas, até? 

Não fecharam dezenas de infraestruturas no interior? Há trabalho? Há pessoas? Ou só há mato seco, alugado para uns eucaliptos que brotam velozes, e alguns pequenos proprietários ganham uns cobres a vender para os intermediários das grandes empresas da madeira e da celulose?

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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