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"A linha da frente que ninguém vê"

"A linha da frente que ninguém vê"

"A linha da frente que ninguém vê"

"A linha da frente que ninguém vê"


por Rodrigo ANTUNES CABRITA/ 12.03.2021

Um ano depois do início da pandemia recordamos os heróis que ninguém vê nos bastidores dos hospitais portugueses.

"A linha da frente que ninguém vê" é um ensaio fotográfico que pretende chamar a atenção para os que são parte integrante de um hospital mas que são frequentemente esquecido. Têm uma característica que os define. São invisíveis aos olhos dos utentes do hospital e muitas vezes esquecidos dentro das próprias unidades hospitalares onde trabalham. São considerados uma segunda linha, mas também estiveram na frente durante a fase da incerteza e do desconhecido.

Proporcionam o conforto que poucos reconhecem mas que muito fazem para que os profissionais como enfermeiros e médicos possam fazer o seu trabalho com a maior qualidade possível. A estrutura é um todo e sem estes profissionais o combate ao vírus ficaria certamente mais fraco. Veja a fotorreportagem:

O início. A abertura dos telejornais em Portugal não traziam notícias animadoras sobre o que se passava noutros países europeus, especialmente em Itália e Espanha. O desconhecido traz incertezas mas as mesmas podiam-se prevenir ou antecipar. A chegada do vírus era já uma certeza, apenas seria uma questão de tempo. Prevendo isto, a Administração do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central ( CHULC ) resolveu restruturar e adaptar todos os seis hospitais para o que aí vinha. A batalha estava prestes a começar. 

Foto: Rodrigo Cabrita

Um funcionário que não queria ser identificado recolhe o lixo dos contentores de uma ala de internamento covid do Hospital Curry Cabral, um dos mais importantes em Portugal na ação de combate ao vírus. No interior das respetivas salas eram colocadas máscaras e equipamentos de proteção que tinham de ser removidos por alguém do lado de fora. Por razões de segurança, quem recolhia também tinha de ir totalmente equipado porque o risco de contágio era elevado.

Foto: Rodrigo Cabrita

Catarina Sousa, 25 anos, trabalha como assistente técnica no departamento de recursos humanos no Hospital de São José, em Lisboa. Dos primeiros tempos recorda o medo de sair de casa, a deslocação em transportes públicos, a falta de informação e de equipamentos de proteção, como simples máscaras cirúrgicas. O teletrabalho foi um desafio. Catarina ficou no departamento e acumulou algum trabalho dela com o trabalho de alguns que o faziam em casa – mas que em determinado momento precisavam de intervenção de quem estava no escritório.

Foto: Rodrigo Cabrita

Paulo Santos, 51 anos, trabalha como pedreiro no Hospital Curry Cabral, em Lisboa. No início sentiu a estranheza desse tempo mas nunca teve medo. O autocarro que o transportava até ao trabalho no hospital ia sempre vazio. No Hospital, a história repetia-se. Vazio em todo o lado. A função de Paulo providenciava conforto não visível. Na imagem, alcatroa a estrada para melhorar a circulação de cadeira de rodas, macas, carros, entre outros. O infortúnio bateu-lhe à porta com a morte do seu pai pela doença do momento. Faleceu no hospital onde trabalha. Apesar da enorme e irreparável perda diz que a vida tem de seguir e que o trabalho não pode parar porque há outras vidas para cuidar.  

Foto: Rodrigo Cabrita

Os funcionários da limpeza dos hospitais foram sem dúvida dos que estiveram na linha da frente. Dentro dos edifícios ou fora deles. Arriscaram porque os seus parcos ordenados não permitiam dar-se ao luxo de ficarem em casa. Foi uma classe que sempre ficou muitos exposta à possibilidade de contrair o vírus, fosse pelo trabalho no Hospital ou pelo facto de terem de se deslocar em transportes públicos. Na imagem, uma funcionária desinfeta peça por peça todo o equipamento transferido de uma ala que iria ser mais tarde transformada para fazer parte do circuito covid.

Foto: Rodrigo Cabrita

Fernando Teixeira, 54 anos, trabalha como serralheiro civil no Hospital São José, em Lisboa. Nas suas palavras, percebe-se os milagres que faz ao inventar soluções para a resolução de problemas que lhe colocam. Já o fazia antes do aparecimento da covid-19. Entre muitos exemplos, o mais recente é o da construção de um suporte para tablets que permita aos doentes internados comunicar com suas famílias – libertando o enfermeiro de o segurar e permitindo-lhe assim cumprir outras tarefas. O único grande receio que teve foi quando avariou uma porta na unidade de cuidados intensivos e não havia ainda equipamentos de proteção individual para todos. Mesmo com grau de segurança baixo e usando uma simples máscara cirúrgica numa zona de alto risco, não hesitou em fazer o seu trabalho.

Foto: Rodrigo Cabrita

Odílio Nascimento, 57 anos, trabalha como segurança privado no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. O trabalho é a sua honra e fazer cumprir as indicações rigorosas de segurança ampliadas neste tempo são a sua prioridade máxima. Trabalha na portaria e é a primeira pessoa por quem todos passam no hospital. Sente essa responsabilidade e já há quem lhe diga que defende o hospital como sendo seu, não olhando a cargos de trabalho ou pessoas ditas importantes para cumprirem as regras impostas. Ali são todos iguais. A boa imagem do hospital começa ali, naquela linha da frente que ninguém vê mas por onde todos passam.

Foto: Rodrigo Cabrita

Luísa Oliveira, 42 anos, cozinheira no Hospital de São José, em Lisboa. Luísa trabalha numa empresa privada na área da restauração. Estava num refeitório de uma escola privada, quando foi destacada para reforçar o staff da cozinha do hospital na altura da pandemia. Assume que foi com muito medo. Mas nunca deixou de lado a coragem para enfrentar as coisas. Sentiu o chamamento de ajudar o próximo ou não fosse ela uma mulher de armas e com forte sentido de missão.

Foto: Rodrigo Cabrita

Sílvio Morais, 32 anos, é trabalhador de limpeza hospitalar no Hospital de São José, em Lisboa. Diz que naquela altura, e apesar de estar muito próximo do vírus, nunca teve medo porque desde sempre trabalharam com rigorosas regras de segurança e higiene. Todo o material usado na covid-19 vinha em contentores à parte, junto dos outros de sempre, onde costumam vir os resíduos hospitalares. Ele e mais uns colegas foram apanhados num surto dentro do hospital. Mas recuperou bem, apesar de dizer que sente as sequelas da doença, tais como algum cansaço extra e esquecimento. Deixa-o triste o facto de não serem reconhecidos pelo trabalho que fazem no hospital, pois acha que são todos peças do mesmo puzzle.

Foto: Rodrigo Cabrita

Francisco Fonseca, 61 anos, trabalha como assistente técnico na casa mortuária no Hospital de São José, em Lisboa. Para Francisco, medidas rigorosas de higiene são a base para um trabalho bem feito no seu departamento. Na execução do seu ofício não diferencia a covid-19 de outras doenças também contagiosas. Diz que o segredo é tratar de toda a logística com os corpos como se estivessem todos infetados, reduzindo assim a margem de erro. O aumento da carga horária é uma realidade assustadora por estes dias. Sente que o seu trabalho não é reconhecido e faz prova disso quando, por exemplo, diz que não lhes é atribuído o bónus que foi dado a outros profissionais.

Foto: Rodrigo Cabrita


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