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A insustentável leveza do voto
Portugal 7 min. 27.09.2021
Autárquicas

A insustentável leveza do voto

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A insustentável leveza do voto

Foto: LUSA
Portugal 7 min. 27.09.2021
Autárquicas

A insustentável leveza do voto

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
O PS ganhou, mas perdeu. O PSD perdeu, mas ganhou. O PCP perdeu, mas não desiste, nem renova. O BE ainda não percebeu se ganhou se perdeu. O CDS abandonou o táxi e foi antes à boleia. Pelos intervalos da chuva, o Chega vai consolidando. E, no final, ganhou a abstenção.

Hoje é o tal dia em que todos serão coincidentes numa coisa: é uma absoluta vergonha a cavalgada galopante dos níveis de abstenção, a forma como os eleitores portugueses abdicam de eleger os seus representantes. Todos, sem excepção, irão dizer que algo de muito preocupante se passa na nossa democracia quando quase metade dos eleitores, pelos vistos, têm mais do que fazer do que exercer o direito de voto, que muito custou a conquistar, caso já não se lembrem. Ontem, antes de terminar a longa maratona eleitoral, quando os resultados ainda não eram definitivos e ainda não atava nem desatava o  teimoso empate técnico na capital da nação, já se ia alvitrando que a coisa só ia lá com o "voto obrigatório", com a adopção de medidas punitivas para quem não votar, até com um imposto de castigo para aqueles que ficam em casa a assistir à democracia pela televisão. Da esquerda à direita, todos pugnarão pela emergência de uma profunda reflexão. E depois a caravana passa. E depois tudo volta ao mesmo. E, para variar, nada será como dantes.


Abstenção deverá ficar acima dos 45%
Projeções apontam para subida de abstenção.

Ainda não chegara a hora do almoço e já se desenhava o óbvio: sem um surto milagroso de participação eleitoral depois do almoço, a abstenção chegaria a níveis históricos, como aconteceu. E isto nunca pode ser um pormenor, muito menos um detalhe próprio do regime democrático. Os líderes partidários, que andaram numa roda viva nas últimas semanas, numa roda viva andaram ontem. Do presidente da República ao mais anónimo dos candidatos da mais remota das freguesias, fez-se o apelo a que os portugueses saíssem massivamente de casa, partindo do princípio que lá se encontravam, para ir votar. Vá lá, que o tempo está magnífico para exercer o voto, vá lá, que a democracia precisa da participação de todos e de cada um, vá lá, não custa nada, é seguro, com as melhores condições de higienização e segurança, com um dispositivo anti-pandémico a funcionar em pleno no terreno, com grande parte da população vacinada e o sol a brilhar por esses distritos, concelhos, freguesias do país. A meio da tarde, foi avançando a teoria da hora-extra. Toda a gente sabe e os portugueses também que está no ADN nacional deixar as coisas para a última, embora já não seja assim tão vulgar que nisso resida uma esperança. Era possível que os eleitores portugueses guardassem o seu voto para o último momento possível? Era, sim senhor. Era possível que tal não passasse de uma mera ilusão? Era. Era até muito provável que fosse a ilusão a realidade e a possibilidade uma ilusão? Sabemos que sim.

Por causa da diferença horária nos Açores, as televisões tiveram de esperar pelas 21h00 (hora continental, incluindo o arquipélago da Madeira) para lançar as suas projecções. Não sem as surpresas eleitorais próprias das eleições autárquicas a estalar um pouco por várias geografias, a grande bomba política detonou em Lisboa. Foi como se tivessem administrado ao PSD esteróides anabolizantes. Na sede de campanha de Carlos Moedas, aquilo que parecia totalmente improvável, aquilo que sondagem alguma tinha previsto, tomava forma, deixando os apoiantes de Moedas a não caber em si de alegria, agitando as suas bandeiras como se não houvesse amanhã, o que não era verdade pois a derradeira contagem de todas as freguesias de Lisboa, prolongou-se madrugada fora, como um adolescente a beber copos na zona de Santos, provocando inusitados ajuntamentos e euforias de colectividade. O empate técnico era mais um KO técnico para Fernando Medina, que perdeu muito mais do que a principal autarquia do país. O putativo número dois de António Costa, embora seja cedo para se extrair essa conclusão, pode ter entrado de vez na ciclovia do adeus político.

Das profundezas do seu sossego, o CDS saboreou à sua maneira aquela coisa de parecer PP. Assim que soube que o empate técnico passou à porta do Caldas, apanhou-o à rede, não fosse este fugir. No empate técnico, Medina sabia que havia perdido, mesmo que ainda não fosse líquido que perdia a CM de Lisboa. Se há derrota que não passa incólume, é esta. À tardinha, ainda por cima, António Costa antecipou-se às projecções e projectou um resultado para lá de histórico para o PS: uma terceira vitória consecutiva e inegável nas eleições autárquicas. 


António Costa: PS pode ser primeiro partido a ter três vitórias seguidas
"O objetivo do PS é continuar a ser o maior partido autárquico português", afirmou António Costa.

Quanto mais o primeiro-ministro e secretário-geral do PS elevava a fasquia, maior o fosso para Medina cair. A candidatura de Carlos Moedas ia surfando aquela onda que se agigantou, como se fosse da Nazaré. Com um bocado de sorte ainda aparecia por ali um Garrett MacNamara com sete saias. De qualquer forma, até Moedas optou por alguma moderação, antes de ser apurada a expressão eleitoral dos lisboetas. Já o CDS não perdeu um segundo a cantar vitória. Chicão apressou-se a citar Mark Twain, considerando as notícias da sua "morte manifestamente exageradas", ao contrário das celebrações de vitória, que considerava manifestamente apropriadas, pois há muito tempo que não se via tal coisa no seu taxímetro. Dançando coladinho ao PSD em Lisboa e de mão dada com a candidatura independente de Rui Moreira na Porto, o CDS parecia só não ter ganho as eleições na Alemanha.


Jerónimo assume que resultados da CDU ficaram aquém dos objetivos
O resultado das eleições autárquicas, “sem prejuízo da sua expressão nacional, ficou aquém dos objetivos colocados”, disse Jerónimo de Sousa.

O primeiro líder partidário a falar na maratona eleitoral foi Jerónimo de Sousa, entre a cassete e o desânimo. Se estivesse na têmpera comunista a desistência, coisa que não está, teria sido aquele o momento da transição. Um pouco mais tarde, quando o multi-candidato João Ferreira falou, parecia que o PCP se tinha transformado em partidos diferentes, com diferentes discursos, um mais tradicional, o outro de veia progressista. É preciso ter muito cuidado quando se descreve uma rota paralela no PCP sobre o calor dos resultados eleitorais. Jerónimo de Sousa lá assumiu que os comunistas não alcançaram os objectivos, mas rapidamente substituiu no discurso os objectivos que a CDU acabara de perder pelos objectivos que o PCP tem para o futuro. Sobre o futuro, João Ferreira arriscou mesmo a heresia da "mudança", o que lhe pode trazer consequências.


“Não negociamos com a direita” – Catarina Martins
Catarina Martins subiu hoje ao púlpito do teatro Capitólio, o quartel-general do BE para as eleições autárquicas, tendo feito apenas “uma declaração preliminar” porque esta será “uma noite longa para a contagem dos votos”.

Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda, falou pouco depois, deixando o futuro para hoje, depois de maturar os resultados. À primeira vista, o BE, que na realidade não apresentou nas suas listas autárquicas um candidato com efectiva possibilidade de conquistar presidências camarárias, tinha alargado a sua expressão territorial, encontrando desde logo aí motivo de regozijo, mas num tom moderado, de aliança, geringoncêntrico, a ver o que davam os resultados de Lisboa, onde se afigurava um braço-dado com Medina, se a marcha dos acontecimentos não traísse esta hipótese, o que era uma possibilidade cada vez mais plausível. Será que Moedas conseguia arrebatar a CM de Lisboa ao PS? Se não era, parecia. De madrugada, essa hipótese tornou-se realidade e Moedas tornou-se um "player" relevante na complexa teia laranja, que vai a votos para a liderança do partido em Janeiro próximo.


Ventura admite que “vitória não foi total” ao falhar objetivo de ficar em terceiro
“Queria ficar em terceiro lugar, não consegui, assumo essa responsabilidade”, admitiu líder do Chega.

O Chega, sem ter como comparar números autárquicos, cresceu como cogumelos que nascem do nada. A coisa foi de tal maneira que até a legião de seguranças de André Ventura, voz única do partido até ser declarada oficialmente a vitória nestas eleições, se deixou levar pela euforia. André Ventura aponta já baterias às legislativas, "onde têm que contar com o Chega", é a sua principal conclusão. No calor da propalada e expressiva vitória do Chega, o entusiasmo foi tanto que Ventura chegou mesmo a afirmar que o partido é um bloco, "de cimento", esclareceu de imediato.


Rio diz que PSD fica “em melhores condições” de vencer legislativas sem confirmar recandidatura
O presidente do PSD defendeu que o resultado “é um impulso importante para o futuro do PSD e para o futuro do país”.

O PSD perdeu estas eleições, mas Rui Rio e Carlos Moedas ganharam-nas, parece consensual. O PS ganhou estas eleições, António Costa ganhou estas eleições, mas Fernando Medina e António Costa (até) perderam-nas. O PCP perdeu estas eleições, perdeu bastiões, mas não perdeu o fôlego. A perda de Almada e de Loures vão provavelmente determinar mais do diálogo político com o PS na discussão do Orçamento de Estado que aí vem e na relação política destes partidos do que se pensa. Francisco Rodrigues dos Santos anestesiou a sua colecção de detratores internos, proclamando uma vitória histórica, que só mesmo os centristas conseguem vislumbrar. Por entre o imenso mar da abstenção, há vencedores e vencidos de toda a sorte. Com a derrota de Fernando Medina, Pedro Nuno Santos, pode aguçar as garras. Com a vitória de Moedas, os adversários internos de Rui Rio têm de guardá-las para segundas núpcias. Aparentemente, só 45,71% dos eleitores perderam. A oportunidade de votar.

 

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