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A herança maldita da freguesia mais rica de Portugal
Portugal 19 min. 27.11.2021
Portalegre

A herança maldita da freguesia mais rica de Portugal

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A herança maldita da freguesia mais rica de Portugal

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Portugal 19 min. 27.11.2021
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A herança maldita da freguesia mais rica de Portugal

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Galveias, terra-natal de José Luís Peixoto, é uma das freguesias mais ricas de Portugal. O seu património é fruto de uma herança de uma família sem descendentes. Uma herança que às vezes parece maldita.

Na margem esquerda da ribeira do Sor, concelho de Ponte de Sor, distrito de Portalegre, com o seu casario raso, emaranhado na encosta de uma colina, fica a vila de Galveias, cercada pelo seu silêncio, cercado pela vastidão. Há mais memórias do que ruas, mais velhos do que novos, mais casas do que gente. Uma certa nostalgia, uma doçura, qualquer coisa da alma alentejana, que só ao Alentejo pertence, assim como pertence a tristeza. A longa pandemia, à qual esta vila não esteve imune, só adensou o património do seu luto. O que mais se vê nas ruas de Galveias é o abandono, que vultos negros interrompem, no vagar dos seus dias. Parece que o tempo por ali passou e por ali se deixou ficar, perdido no labirinto da sua própria melancolia.

Galveias é igual e diferente em quase tudo de uma freguesia qualquer do Alentejo. Tem a pobreza entranhada até aos ossos, mas em património é das freguesias mais ricas do país. Tem mais de 6500 hectares de território produtivo, não só nos arrabaldes da vila, como espalhados por oito concelhos, assim como prédios no Algarve e nas zonas mais nobres de Lisboa, onde o metro quadrado já anda para lá de astronómico. Por junto, uma fortuna incalculável (ou até não) que só aos galveenses pertence, embora esta, nos últimos tempos, não tenha tradução nas suas vidas. Todo este património é fruto de uma herança, com efeitos vitalícios, que um benemérito deixou à vila. Uma herança que a má-gestão da sua herdeira universal transformou num problema gigante, que se tornou insolucionável.

A Junta de Freguesia de Galveias, que historicamente vai alternando o poder entre comunistas e socialistas, não tem como fazer face aos enormes encargos que tal património acarreta. Os prédios em Lisboa, por exemplo, estão a deteriorar-se de ano para ano, sem que a JF de Galveias os consiga recuperar. Um problema que começa a tornar-se antigo, que o tempo só agrava. Fernanda Bacalhau, actual presidente da JF, reconduzida no cargo pela CDU nas últimas autárquicas, sabe bem a dimensão dos problemas que herdou da herança e da gestão socialista, que atirou a toalha ao chão, renunciando à presidência a meio do anterior mandato, provocando eleições intercalares. Fernanda Bacalhau já sabia que as dificuldades de gestão eram mais do que muitas, mas não imaginava “uma montanha de problemas”. E, sobre isso, não foi de modas: “Estes problemas decorrem em grande parte de incorrecções e opções de gestão que terão sido pouco respeitadoras do testamento do seu benemérito”. 

Segundo a presidente da JF de Galveias, a dado momento, ter-se-á feito letra morta da testamental. “Convém vincar que o património é da freguesia e não da Junta de Freguesia”. No testamento está bem claro que a JF de Galveias é o “veículo” de gestão deste imenso património. O testamento é como o seu plano director municipal. O último descendente da família Marques Ratão, que fez de Galveias a sua utopia, deixou bem explícito no testamento que nem a JF nem a fundação Maria Clementina Godinho de Campos, têm autorização legal de alienar património. Se por um lado mantém todo o património intacto para as gerações vindouras, por outro deixa-lhes de herança a máquina pesada da sua manutenção. O projecto de inverter este ciclo de degradação do património do seu benemérito, que tinha o sonho de manter Galveias para sempre autosubsistente e a viver da sua riqueza, tornou-se num desígnio megalómano para as reais posses da freguesia.

As piores expectativas que tinha Fernanda Bacalhau quando venceu as eleições intercalares foram amplamente superadas pela realidade. Quanto mais escavava, mais fundo ficava. “Grande parte do património edificado está num grau de degradação muito preocupante. A JF não tem meios próprios para resolver estes problemas gravíssimos”. Pelas suas contas, “são necessários nunca menos de 40 milhões de euros para reabilitar todo o património”, com os milhões adicionais que resultam da distância. “Há imenso património em Évora, em Portalegre, em Lisboa e, como é evidente, em Galveias”.

Se Galveias é um exemplar raríssimo em todo o mundo, pois é de todo incomum que se faça de um lugar herdeiro universal, muitos dos seus problemas estruturais são idênticos a qualquer freguesia do interior de Portugal, que sofre, para começar, com a sua desertificação. Não fosse comunista e alentejana, Fernanda Bacalhau defende o regresso ao campo e ao mais puro do ADN alentejano, a agricultura. A inversão do longo ciclo desertificador, que começou nos anos 60 do século passado, é hoje quase uma utopia tão grande como a que teve para a vila de Galveias a família Marques Ratão, que dava nome a uma das mais poderosas casas agrícolas do Alentejo. O seu império vinha do campo, dos seus imensos recursos endógenos. “É preciso dizer que todo este património tem um potencial elevadíssimo, mas é preciso colocá-lo de novo ao serviço dos galveenses”. Outro erro do passado recente que hoje se paga caro, foi o de “não se ter conseguido equilibrar os ciclos produtivos, para que tivéssemos rendimentos mais constantes ao longo de mais tempo, para que não houvesse quebras de rendimento, que redobram as nossas dificuldades”. A cortiça, por exemplo, uma das maiores riquezas endógenas da região, “só colhe rendimentos de nove em nove anos”. Galveias caiu numa espiral sem solução à vista.

Vende-se

Este abandono é bem visível na vila de Galveias, que outrora fervilhava de vida, de gente. Os que ficaram na sua terra-natal, ou os poucos que regressaram da diáspora, vivem hoje dessas recordações, hoje doces, desses tempos longínquos em que as casas eram pequenas para tantos e as crianças brincavam na rua. Essas crianças eram eles. Por vezes, dá a impressão que ainda conseguem ouvir os sons sublimes do seu chilreio. O velho fado da emigração levou-lhes a melhor. Galveias, tal como eles, tal como o seu imenso património, envelheceu.

Hoje, o mais que se vê escrito nas paredes é “Vende-se” com um número de telemóvel que o tempo começa a rasurar, quando não é uma placa de uma imobiliária com a mesma mensagem dentro de um sorriso engravatado. Em Galveias, o abandono não foi elitista. Tanto estão devolutos os casebres como as casas senhoriais, onde já se torna difícil detectar os brasões de família, como se a própria génese aristocrata de Galveias tivesse petrificado sob tantas camadas de pó. Galveias só é Galveias pela sua linhagem nobre, convertida a toponimia. Se fosse pelo seu produto mais abundante, teria ficado para sempre Vila Nova do Laranjal.

Quase defronte para o edifício da JF de Galveias, fica a utopia das utopias, guardada para o mês de Agosto, como um memorial dedicado à esperança. O parque infantil tem as cores alegres da brincadeira, a superfície tecnológica de amortecimento, mas os baloiços baloiçam ao vento e dos escorregas só escorrega o pó. Não há crianças. Antes da pandemia, Galveias tinha pouco mais de um milhar de habitantes, sendo que a grande maioria são idosos. Sem inverter este ciclo nenhum outro se inverte.

Há outro dado estatístico, que em Galveias subsiste, daquelas coisa que, à boa maneira alentejana, não tendo explicação, explicadas estão. Sempre houve na vila de Galveias mais homens do que mulheres, sendo que os homens vivem menos tempo do que as mulheres. Pelos vistos, é outra das heranças deste lugar. Galveias, que é eternamente agradecida aos seus beneméritos, ultimamente não se tem relacionado bem com as suas heranças. Esta vila, quando a grande maioria das vilas de Portugal só tinha de herança a miséria, era um exemplo de progresso. Os galveenses tinham acesso a bens que noutros lugares só existiam em sonhos.

Duas famílias, um império

No dia 13 de Junho de 1876, começou a desenhar-se o futuro de Galveias. Pela via do matrimónio, fundiram-se duas grandes famílias, que haviam de formar uma das maiores casas agrícolas de todo o Alentejo – por consequência, do país -, casando filhos menores. Com o magno consentimento papal, Maria Clementina Godinho de Campos deu a mão em casamento a Manuel Marques Ratão. Na Igreja de São Lourenço, padroeiro de Galveias, casou-se o destino desta vila.

Da lógica das coisas, nasceu a Casa Agrícola Marques Ratão. Da lógica da vida, nasceriam cinco filhos, obedecendo à lógica demográfica de Galveias: quatro meninos, uma menina. Nasceram, pela ordem do tempo, João Godinho de Campos, Ana de Jesus Godinho de Campos, Manuel Marques Ratão Júnior, José Godinho de Campos Marques e Mário Godinho de Campos. À sua maneira, todos eles se tornaram filhos ilustríssimos de Galveias, uma condição que os seus pais haviam tornado hereditária. Todos lutaram pelo desenvolvimento da vila e dos seus conterrâneos de forma abnegada, deixando obra feita para o usufruto dos de Galveias.

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O primogénito, que era um homem talhado para o campo e para lavoura, e o mais novo dos irmãos, um homem do mundo – oficial da Marinha de Guerra e médico, ligado à criação do Posto Hospitalar de Galveias -, morreriam cedo. Dos cinco, foi Ana de Jesus quem teve vida mais longa e a triste sina de ver os pais e três dos seus irmãos descer à terra. Por circunstâncias da vida e de têmpera, foram Ana de Jesus e José Godinho de Campos Marques, os mais apegados ao lugar onde nasceram, embora Manuel Marques Ratão Júnior, o irmão do meio, não se ficasse atrás nesse amor. Dos cinco irmãos, aliás, não se conheceu outro, pois nenhum casou e nenhum deixou descendência. José Godinho de Campos Marques seria o último dos Marques Ratão. A sua derradeira vontade marcaria “ad aeternum” a vida de Galveias, que se tornou legítima herdeira de uma riqueza incomensurável. A Casa Agrícola Marques Ratão, que se consolidara num império, tem um património que hoje vale muito acima de 60 milhões de euros, como em tempos terá sido avaliado.

Em 1956, Ana de Jesus Godinho de Campos, José Godinho de Campos Marques e Manuel Marques Ratão Júnior, por influência da irmã, criaram a Fundação Maria Clementina Godinho de Campos, em honra de sua mãe. Ratão Júnior, que faleceu dois anos depois, foi o seu primeiro presidente, sendo D. Manuel Mendes Santos, o então Arcebispo de Évora, o presidente do Conselho de Administração. Após a morte de José Godinho de Campos Marques, que sucedeu o irmão na presidência da fundação, a arquidiocese de Évora seria a sua administradora vitalícia.

Dizem os de Galveias que partilharam quotidiano com os seus beneméritos que a palavra é insuficiente para os definir. Muito antes de ser formalizada a fundação com o nome da matriarca da família, já os Marques Ratão tinham feito muito pela sua terra. Ana de Jesus sempre foi reconhecida pela sua bondade e pelos seus gestos de filantropia. Em 1951, foi ela a fundadora da Sopa dos Pobres, que roubou da fome mais que uma geração de galveenses. Durante anos, serviu uma média de 70 refeições diárias, a idosos e crianças. 

Foi esta a primeira obra de vulto em Galveias. Mais do que a fome que matava, oferecia um retrato fiel do que era então o Alentejo. A Sopa dos Pobres mais não era que um aperitivo nas obras públicas que aí vinham, sob o signo Marques Ratão, que era também o maior assalariador das redondezas. Algum tempo depois, José Godinho de Campos Marques pegou em 500 contos e entregou a empreitada para a construção do mercado coberto da vila, inaugurado em 1953, o ano do milagre da luz eléctrica em Galveias, por obra e graça do mesmo patrono. No ano seguinte é inaugurado o Clube Marques Ratão Júnior e, em estreia absoluta naquele reduto de Alentejo, a mais estrutural de todas as obras de qualquer humanidade, o Posto Escolar. Foi talvez a obra que em Galveias mais desenvolvimento social trouxe. 

Por aqui passaram gerações de galveenses, para contrariar o destino. Entre os quais, o mais pródigo filho da terra, José Luís Peixoto que, como tantos portugueses fez a sua primeira aprendizagem na Telescola, e se tornou um dia num escritor universal. Este ínsigne galveense já tem nome de rua na sua terra. Galveias – título do livro homónimo do seu lugar de nascença – é hoje uma espécie de tesouro vivo, guardado na mente dos que lá estão, assim como dos galveenses por esse mundo fora. Em terras de heranças, José Luís Peixoto deixou a sua, como fizeram os seus antepassados beneméritos, que dotaram Galveias de todos mecanismos de sobrevivência, não a conseguindo salvar da sua interioridade. Foram muitos e avultados os investimentos que os Marques Ratão fizeram na sua terra, sendo a escola a espinha dorsal de qualquer desenvolvimento que se queira sustentado.

Naquela altura, o ensino do pensamento em pleno Estado Novo só podia ter duas interpretações: ou os senhores de Galveias tinham perdido o juizo ou a vila se tinha tornado num exemplo do qual o regime se podia orgulhar sem um tostão de investimento. Que se saiba, Galveias em si nunca foi condecorada. Mas a família Marques Ratão repartiu cinco comendas, todas da Ordem de Benemerência, pelos seus três derradeiros descendentes.

A vila do progresso

A veia progressista da família Marques Ratão é em si um legado do seu patriarca, que teve em José Godinho de Campos Marques, o mais imponente dos seus filhos, um abnegado seguidor, o mesmo acontecendo com os seus quatro irmãos, todos fazendo causa daquela terra. A José Godinho Campos Marques se deve em grande parte a criação do Posto Escolar de Galveias, com uma arquitectura absolutamente única para a época. Diz quem ainda o conheceu que era uma pessoa muito culta e igualmente determinada. Não era homem de fazer promessas. O que pensava, fazia. É claro que nada do que ele fez se podia fazer sem dinheiro e sem poder. Ele tinha ambos, embora seja consensual em Galveias que nunca se deixou deslumbrar por isso. Era um homem da terra, que vivia para esta.

Pormenor do testamento que fez de Galveias uma das freguesias mais ricas de Portugal.
Pormenor do testamento que fez de Galveias uma das freguesias mais ricas de Portugal.
Foto: DR

Em 1955, já tinham sido inaugurados em Galveias o asilo, o Posto Hospitalar Dr. Mário Godinho de Campos, e o chamado Bairro Económico, que consistia em 19 moradias para os que trabalhavam para a Casa Agrícola Marques Ratão. No ano seguinte, foi criada a Fundação Maria Clementina Godinho de Campos, com as valências assistenciais que ainda hoje tem: lar, posto hospitalar, centro de acamados, centro de dia e apoio domiciliário. Em 1958 é inaugurado o edifício da Junta de Freguesia de Galveias pelo seu próprio presidente, que o mandou construir de raiz. Nesse ano, José Godinho de Campos Marques perdeu mais um irmão, Manuel Marques Ratão Júnior. Em 1959, foi fundado o Patronato de Raparigas, em regime de externato. Em 1960, com a diferença de um mês, dois acontecimentos ficaram na História de Galveias: a inauguração da Cine-Esplanada de São José, que atraiu à vila nomes grandes da Rádio e do Cinema, tendo Madalena Iglésias e António Calvário como cabeças de cartaz. Sem dúvida, um marco de urbanidade, mas nada que se comparasse à inauguração de rede de abastecimento pública de água. Um bem que ainda hoje subsiste em Galveias, praticamente gratuito para a sua população.

Em 1961, ficou acabado o Bairro para Pobres, um conjunto de 24 moradias, destinado aos que em Galveias permaneciam herdeiros dessa condição. No ano seguinte, faleceu Ana de Jesus, ficando José Godinho de Campos Marques como o herdeiro único do legado da família. Em 1966, o eterno presidente da JF de Galveias, a troco de uma boa maquia em dinheiro, instalou na vila o posto da GNR. Sob a sua presidência foi igualmente criado o refeitório escolar e o lagar, onde ainda hoje a população faz o seu azeite, as ruas foram pavimentadas, as igrejas, as capelas e muitas casas foram recuperadas, foram construídos esgotos, vários edifícios públicos, como os Correios, vários jardins e zonas de lazer.

O império Ratão

Todas as obras que entre os anos 50 e 60 se tornaram realidade em Galveias, se devem quase na totalidade à família Marques Ratão, mas tinham em comum um benfeitor, que construiu nesta vila a sua utopia, pagando-a sempre em dinheiro, sem meias-conversas, como era seu apanágio. Toda a gente sabia que o senhor comendador, era uma pessoa simples, que se sentia bem entre o povo, gostava de festas populares, de fogo de artifício e da sua privacidade, que não tolerava a devassa, que a sua imponência escondia um coração de mel, que era um homem de trabalho, um humanista, temente a Deus e à Igreja, uma pessoa séria, que vendia caro o sorriso, embora nunca poupasse dinheiro e esforços para dotar Galveias de equipamentos e serviços públicos, que em muitos lugares do Alentejo, em muitos concelhos do país, era ainda um tema da mitologia.

José Godinho de Campos Marques não era apenas uma figura nuclear na sua família, assim como nos destinos da Casa Agrícola Marques Ratão. Em Galveias, ele dominava o curso da vida. À medida que a morte dos irmãos o foram deixando só, era ele o administrador da casa Marques Ratão, presidente da fundação criada pela família, presidente da JF de Galveias, presidente da assembleia-geral da Casa do Povo, secretário da Santa Casa da Misericórdia, director do Clube Manuel Marques Ratão Júnior, director da Sopa dos Pobres. E entusiasta e mecenas número um da Sociedade Filarmónica Galveense, à qual atribuiu um subsídio vitalício. Estava em todos os cargos-chave das instituições galveenses por uma simples razão: era ele a razão dessas instituições.

 José Godinho de Campos Marques morreu no dia 12 de Junho de 1967 e Galveias vestiu-se de luto, para chorar o homem que tanto tinha feito por aquela terra. Mal podiam imaginar que aquele homem, o último dos Marques Ratão, lhes tinha deixado tudo, fazendo da freguesia a sua herdeira universal, em conjunto com a Fundação Maria Clementina Godinho de Campos. Para os beneficiários do seu testamento ficaram as casas, os carros, mais de 6500 hectares de terra produtiva, gado, alfaias agrícolas, uma imensa extensão de sobreiros, de onde se extrai o ouro da região: a cortiça. Galveias torna-se herdeira de um colosso agrícola, em que os assalariados se tornaram proprietários. 

Do património, acrescia ainda uma casa no Algarve, onde em tempos os galveenses tinham a sua colónia de férias, e quatro prédios em Lisboa: um na avenida da Liberdade, morada de José Godinho de Campos Marques na capital; outro na Visconde Valmor, mais dois edifícios na Travessa dos Remolares, ao Cais do Sodré, que a especulação imobiliária hipervalorizou. O que de pouco serve à freguesia de Galveias. Com a revolução de Abril, Galveias encontrou-se numa situação formalmente bizarra. Ali tão perto do Couço, nem o PREC conseguiu encontrar uma definição apropriada para a circunstância de ali se encontrarem os pobres como latifundiários. Seria uma bizarria ainda maior culpar a herança pela estagnação em que Galveias foi caindo após a morte do seu benemérito.

A última grande obra que nasceu em Galveias foi o “Oásis Parque”, um complexo de piscinas e parque aquático, construído há cerca de 15 anos, que serve mais os que não são de Galveias do que os que são. Tal como os frequentadores, a natureza do seu lucro é meramente estival. Nas últimas décadas, construiu-se o Pavilhão Polidesportivo, a Casa de Cultura de Galveias, o lar de idosos tem cada vez mais ocupantes, o infantário permanece em funcionamento, como um frigorífico ligado em casa de ninguém, continua a produzir-se o azeite, o vinho, os borregos da marca Marques Ratão, que a JF de Galveias vende, com os lucros a reverter para a freguesia. A cortiça, como foi referido, é um lucro com intervalo de nove anos. Entre o deve e o haver, a JF de Galveias fica continuadamente a perder. Entre a excepção e a regra não foi preciso muito para que os galveenses, ainda que gratos pelo seu legado, não retirem deste algum fôlego para as suas vidas. 

Os crescentes problemas que a presidente da JF de Galveias enumerou são uma esponja sem fim, onde o comboio do progresso já estacionou há muito tempo. Entre os dois “veículos” de gestão patrimonial, essa diferença também se acentuou. A JF de Galveias, que tem a gestão da maior parte do legado, entrou em rota de colisão com administração da Fundação Maria Clemente Godinho de Campos, entregue à Arquidiocese de Évora. Em matéria de gestão, o resultado não podia ser mais distinto. Enquanto a fundação valorizou o património que lhe foi deixado, a JF deixou-o mergulhar num beco sem saída. Este corte de relações não ajuda, pois a freguesia não precisa menos do que um milagre. Da Casa Agrícola Marques Ratão já só resta uma enorme sombra na imensidão. Galveias é hoje uma espécie de latifúndio de si próprio, exercendo como pode esta sua herança feudal. A riqueza pode estar na sua herança, mas a pobreza está-lhe no sangue. Talvez resida aí a razão da sua tristeza.

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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