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A diatribe entre Santos Silva e André Ventura
Opinião Portugal 2 min. 25.07.2022
Parlamento

A diatribe entre Santos Silva e André Ventura

Ao centro, o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva.
Parlamento

A diatribe entre Santos Silva e André Ventura

Ao centro, o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva.
Foto: Tiago Petinga/Lusa
Opinião Portugal 2 min. 25.07.2022
Parlamento

A diatribe entre Santos Silva e André Ventura

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Os argumentos de Ventura, para além de uma enorme falácia, são um horror moral.

Foi o primeiro grande incidente do Chega, com a presidência da Assembleia da República, nesta legislatura. Mas não foi o último. Na origem de tudo isto, esteve um diploma que regula a vida dos imigrantes, em Portugal.

Pela voz do seu presidente, o Chega afirmou o seu xenofobismo, com um discurso populista a que qualquer distraído ou pessoa menos habilitada pode reconhecer uma razão que de facto não existe. Os argumentos de André Ventura, para além de uma enorme falácia, são um horror moral.

(...) a diatribe com o Chega foi utilizada para outros fins, que nada têm a ver com a honra e dignidade do parlamento.

Nenhum dos restantes partidos parlamentares fez qualquer esboço de reacção ao exaltado discurso do líder da extrema-direita. Foi então que o presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, reagiu com aparente serenidade, afirmando que os imigrantes são fundamentais para o desenvolvimento económico do país e que pagam impostos e prestações para a segurança social, como qualquer português. Apesar de ser verdade, não passa de retórica inútil.

Os deputados do Chega já não ouviram a totalidade do discurso, dentro do hemiciclo. Abandonaram a sala, refutando com esse gesto as palavras de Santos Silva.

Com o abandono do hemiciclo, o Chega perdeu a razão que lhe podia assistir. Todas as declarações ali produzidas são substantivamente parte integrante do debate parlamentar e só podem ser rebatidas pelos outros partidos. Não cabe ao presidente da Assembleia da República combater os argumentos e as dialécticas dos partidos parlamentares.

Se por acaso algum ou alguns dos partidos parlamentares tivesse rebatido o Chega, Santos Silva podia guardar-se para o fim e então, fora do tempo de debate, fazer uma declaração de princípio que colocasse as coisas nos respectivos lugares. Mas o presidente não esperou pela reacção dos partidos e precipitou-se na condenação do Chega, na procura clara de alguma evidência mediática. Horas depois, surgia uma declaração de Santos Silva, admitindo uma hipotética candidatura à Presidência da República. Passou assim a ideia de que a diatribe com o Chega foi utilizada para outros fins, que nada têm a ver com a honra e dignidade do parlamento.

O incidente veio provar que os partidos com assento parlamentar têm pouca qualidade política e parlamentar e, por isso, foram incapazes de reagir ao desaforo do Chega.

O resultado de tudo isto foi favorável ao Chega, porque lhe deu abertura dos telejornais que praticamente nem falaram da matéria em causa no debate parlamentar. O Chega trocou a razão, pela evidência mediática e isso já se reflecte nas sondagens, com o crescimento das intenções de voto. Mas, politicamente, perdeu toda a razão, com o abandono do hemiciclo. 

(Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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