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A Covid-19 vista a partir de um banco de sangue
Portugal 5 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

A Covid-19 vista a partir de um banco de sangue

A Covid-19 vista a partir de um banco de sangue

Foto: AFP
Portugal 5 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

A Covid-19 vista a partir de um banco de sangue

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
A trabalhar no limite, os hospitais estão à prova. A prioridade é evitar a multiplicação de casos. Não há ventiladores nem cuidados para todos, o recolher é praticamente obrigatório.

Estão numa espécie de isolamento voluntário. Saem de casa para o trabalho e evitam qualquer contacto com o exterior. Mesmo no laboratório seguem as recomendação de distanciamento social. “Ninguém pode ficar infetado”. Vista dos laboratórios do banco de sangue de um hospital público e de um privado de Lisboa, a hipótese de infeção de um elemento, agravada pela quarentena da equipa, pode pôr em causa o funcionamento de um hospital inteiro. 

“Não somos substituíveis. Podem contratar, e acho bem que contratem, mais médicos e enfermeiros, mas ninguém faz a nossa função. “Qualquer bloco operatório precisa de ter um banco de sangue por trás. Se nós não estivermos lá não há cirurgias urgentes e os doentes não recebem transfusões e outros componentes sanguíneos”. O risco é alto mesmo para quem não contacta diretamente com os pacientes. António diz que “não estamos na China, mas há progressos desde que as administrações” começaram a ser confrontadas “com risco que é ter centenas de novos casos confirmados como em Itália”. 

Maçanetas, frigoríficos e bancadas de trabalho são desinfectadas “no máximo” de hora a hora. As equipas “adaptaram-se rápido” à nova rotina. Fora do horário de trabalho, “ninguém entra nem ninguém sai do serviço”. Não há contacto direto com os pacientes nem sequer com os auxiliares que diariamente entregam os pedidos de exames ou de outros componentes sanguíneos necessários para transfusões. “A ordem é restringir o acesso ao nosso serviço”. Mesmo os procedimentos comuns são feitos à distância. Receber ou entregar material implica a desinfeção “imediata de tudo”.  Resta “prevenir”.

“Não há país que aguente”

Mais do que apoiar, o técnico do serviço de sangue que abriu as portas dos laboratórios ao Contacto, concorda com todas as medidas de prevenção que foram adoptadas face à propagação do vírus que provoca infeções respiratórias graves e tem obrigado o governo a sucessivas explicações sobre a capacidade do Serviço Nacional de Saúde para responder a um cenário de crise. “Não estamos a falar só de Portugal. Não há país que aguente. Na Europa não se constroem hospitais em dez dias”, sublinha António. “O que se está a tentar evitar é que o número de pessoas a precisar de cuidados seja de tal ordem que os hospitais colapsem.  Não há nenhum hospital que aguente. E é isto que se está a tentar evitar”. 

Risco iminente

Entre a adaptação do público e do privado ao surto, António “não vê grandes diferenças”. Na capital as entradas estão condicionadas porque “é um hospital pequeno”, onde uma enfermeira mede a temperatura e faz um inquérito à porta, na margem sul, “a dimensão é muito maior e a mantemos a urgência aberta, apesar dos doentes suspeitos ficarem logo à porta nas tendas que todos os hospitais têm à porta para encaminhar diretamente e da forma mais adequada os casos suspeitos”. 

Não há visitas nem consultas ou cirurgias não programadas. Apesar de “existirem centenas de doentes com ou sem corona, os hospitais estão sujeitos a uma enorme pressão e já existiam antes da crise”. Esgotadas as etapas das fases de Contenção e Contenção Alargada, Portugal entrou na fase de Mitigação. Qualquer pessoa pode estar infectada porque há “transmissão comunitária” e a propagação deixou de se fazer através de “casos importados sem cadeias de transmissão secundárias”. 

Além dos hospitais de campanha montados à porta dos hospitais, a Direção-Geral da Saúde alargou a todos a capacidade de realizar e receber doentes dando resposta a uma das principais queixas dos médicos no atendimento de casos suspeitos. Desde segunda-feira, todos têm “uma área dedicada para avaliação e tratamento de doentes e “enfermarias dedicados ao tratamento dos doentes” que passam a ser “submetidos à realização de testes laboratoriais, em qualquer serviço de urgência”. 

Estado de Excepção

Contas feitas Portugal dispõe de 1142 ventiladores para adultos, embora alguns estejam, neste momento, a ser usados por pacientes com outras doenças respiratórias e para assegurar o funcionamento dos blocos operatórios. A resposta dos hospitais e centros de saúde continua a depender da afluência. António Costa assegurou que o país está a “antecipar o imprevisto” e a reforçar o número de ventiladores “para o caso de haver algum aumento anormal” de casos. Admitiu  fazer uma "requisição civil de determinadas pessoas em certas profissões que não estejam a trabalhar", bem como "requisitar equipamentos a entidades privadas”. 

Da Saúde à Economia os ministros não disfarçam os sinais de alerta. Marta Temido diz que “corremos risco e um dos riscos que corremos é o da nossa sociedade se desestruturar”. A ministra anunciava a primeira morte associada ao vírus quando comparou o momento atual a uma guerra onde temos de “ter disciplina” para “que isso não aconteça”. Horas antes, Mário Centeno já admitia que o impacto da pandemia na economia mundial pode ser “comparável ao de uma guerra”. Na pele de presidente do Eurogrupo assegurou que “as instituições europeias vão explorar formas de nos ajudar a vencer esta crise e regressar à normalidade” e que Bruxelas tem flexibilidade para “assegurar que nem as regras orçamentais nem as de auxílio estatal se atrapalham”. 

Apesar das medidas de contenção, não há forma de prever os impactos da pandemia no país, nem no sistema de Saúde. Na China, o surto está a caminho de estar controlado, três meses depois de ter sido identificado na cidade de Wuhan. A caminho do “estado de excepção”, Portugal conta um morto e praticamente 500 infetados. Ficar em casa e reforçar os hábitos de higiene padrão são as recomendação das autoridades de saúde que falam “tempos novos”.

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