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“A CGTP exige que os direitos dos trabalhadores imigrantes portugueses sejam respeitados pelo Luxemburgo”
Portugal 3 11 min. 03.05.2020

“A CGTP exige que os direitos dos trabalhadores imigrantes portugueses sejam respeitados pelo Luxemburgo”

“A CGTP exige que os direitos dos trabalhadores imigrantes portugueses sejam respeitados pelo Luxemburgo”

@ Rodrigo Cabrita
Portugal 3 11 min. 03.05.2020

“A CGTP exige que os direitos dos trabalhadores imigrantes portugueses sejam respeitados pelo Luxemburgo”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em entrevista exclusiva ao Contacto, a secretária-geral da maior central sindica de Portugal fala das preocupações com os portugueses no Luxemburgo, da realidade portuguesa e conta como chegou à liderança da CGTP.

Isabel Camarinha é a primeira mulher à frente da CGTP e foi a voz dela que ecoou pela Alameda, em Lisboa, neste 1º de Maio especial, em tempo de pandemia. Para ela, a defesa dos direitos dos trabalhadores vai muito além-fronteiras, estando atenta à situação dos emigrantes portugueses pelo mundo. Entre eles, os do Luxemburgo, onde a GCTP tem acordos de cooperação com a OGBL e a LCGB. Esta é a segunda parte da entrevista exclusiva ao Contacto, a primeira foi publicada na véspera do Dia do Trabalhador. 

Ao longo de quase uma hora, a secretária-geral da mais antiga e maior central sindical portuguesa fala da luta dos trabalhadores portugueses, da situação precária das mulheres no mercado de trabalho, defendendo que a batalha por melhores condições tem de ser uma luta geral e não apenas no feminino. Pelo meio ainda houve tempo para falar de petiscos portugueses, Xutos&Pontapés e de como a família é fundamental na sua vida.

@Rodrigo Cabrita
@Rodrigo Cabrita

 Muitos trabalhadores imigrantes portugueses no Luxemburgo, nomeadamente na construção civil e no setor das limpezas, têm trabalhos precários. Sobretudo agora com a pandemia muitos ficaram com os rendimentos muito reduzidos e estão a passar dificuldades. A CGTP também luta pelos direitos dos trabalhadores emigrantes portugueses?

Sim, claro. Temos um departamento internacional responsável pelas migrações que faz a ligação com os sindicatos dos países das comunidades portuguesas. No caso do Luxemburgo, temos uma ótima relação com a OGBL e a LCGB, onde existem muitos, muitos portugueses sindicalizados. Temos um acordo de cooperação com as centrais sindicais. A CGTP de dois em dois anos realiza um encontro das comunidades portuguesas onde junta sindicalistas, conselheiros, e dirigentes associativos, onde os do Luxemburgo estão presentes. No Luxemburgo, o último encontro foi em 2018.

Segundo o FMI o Luxemburgo é o terceiro país mais rico do mundo, mas também é o país da Europa onde os trabalhadores possuem um risco maior de pobreza devido aos contratos de trabalho de três e seis meses, o que é totalmente inseguro.

Até em países desenvolvidíssimos como o Luxemburgo a exploração dos trabalhadores imigrantes é feita à custa precisamente desses contratos de muito pouco tempo, que não lhes são reconhecidos os direitos dos trabalhadores luxemburgueses. Esta é uma das matérias em que trabalhamos, relativamente ao Luxemburgo, e aos outros países, quer da Europa quer fora da Europa. Não se pode aceitar que os trabalhadores imigrantes, no nosso caso, portugueses, não tenham os mesmos direitos que os dos países para onde eles são forçados a ir trabalhar, muitas vezes por dificuldades no seu país, neste caso, Portugal, de conseguir emprego, de ter um salário compatível com as necessidades.

@Rodrigo Cabrita
@Rodrigo Cabrita

Os portugueses emigram, mas depois são confrontados com estas injustiças.

Os trabalhadores não podem ser discriminados em relação aos outros trabalhadores, nem nos acordos coletivos que estão negociados e nos salários, horários praticados. O mesmo defendemos para os imigrantes que vêm trabalhar para Portugal. Há que combater esta precaridade, que também acontece com os trabalhadores aqui em Portugal. A CGTP exige que os direitos dos trabalhadores portugueses imigrantes sejam respeitados, neste caso pelo Luxemburgo, de que haja efetivamente um reconhecimento por parte dos países onde estão imigrados.

A satisfação da CGTP

Falando agora de si. É a primeira mulher a liderar a CGTP. Sente uma responsabilidade acrescida?

Eu acho que qualquer dirigente tem essa responsabilidade acrescida ao ser secretário geral da maior central sindical dos trabalhadores portugueses, uma central sindical que faz este ano 50 anos e que é herdeira de toda a luta do movimento operário do nosso país. Uma central sindical de classe, democrática, independente, de massas e solidária, que são os nossos grandes princípios.


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Atualmente, há 30% de mulheres a ocuparem cargos altos no sindicalismo em Portugal.

É natural que as mulheres também se sintam representadas e sintam necessidade de participar mais ativamente. Os 30% não são ideais porque as mulheres pesam mais que isso em termos de sociedade e do mundo do trabalho, mas é um caminho que se está a fazer em termos de igualdade e de participação, mas esta tem de ser uma participação real, não é porque tem que ser, “aí vamos agora pôr aqui mais mulheres que é para...”. A CGTP sempre mulheres em funções de grande responsabilidade pelo seu valor, p competência, pela sua entrega, pelo desenvolvimento da atividade sindical nos locais de trabalho junto dos trabalhadores, nas suas reivindicações, nas negociações.

É então uma satisfação para a CGTP?

Tem havido uma satisfação por parte de todos nós, a CGTP ter decidido neste quadro, não é por ser mulher, mas sou e há uma satisfação geral de todo o movimento sindical unitário da CGTP por esse facto também.

@Rodrigo Cabrita
@Rodrigo Cabrita

Pela sua pessoa?

Ah, isso não vou dizer (risos)

Mas por ser mulher também?

Eu acho que sim, porque lá está, é uma satisfação que a participação das mulheres também tenha criado condições para que isto acontecesse. Na CGTP combatemos todo o tipo de discriminação, aliás, a CGTP não passou a lutar mais pela igualdade, quer a igualdade na vida, quer a igualdade de direitos no trabalho por ter uma secretária-geral mulher. Nós já tínhamos essa característica, prioridades e orientações e prática, mas é importante que isso depois tenha reflexo também na responsabilização e tem, como disse, aos vários níveis da estrutura da CGTP nós temos muitas mulheres com grandes responsabilidades.

As estatísticas dão uma fraca participação das mulheres nos órgãos de cúpula.

Exatamente, por isso quando os índices dão na maior parte dos países que nas cúpulas e nos órgãos decisivos ainda existem poucas mulheres, de facto a CGTP pode bem ser um caso raro e de estudo nessa matéria.

As mulheres continuam ainda a ser vítimas de discriminação salarial, laboral.

Normalmente as mulheres ainda têm salários mais baixos do que os homens, aliás, todas as estatísticas, todos os estudos, provam isso, mas a questão dos salários é de todos, e quando lutamos pelo aumento dos salários, lutamos todos.

@Rodrigo Cabrita
@Rodrigo Cabrita

Não defende manifestações unicamente femininas, como a greve das mulheres?

Nós consideramos que a luta das mulheres é uma luta transversal, que em termos de reivindicações gerais é das mulheres e dos homens. Nós fazermos uma greve só de mulheres, não consideramos que sirva os interesses das mulheres e dos outros. Naturalmente que as mulheres têm sempre os direitos específicos que são tratados especificamente. A maternidade é um direito da mulher. Tendo presente que elas são mais exploradas, mais discriminadas, com salários inferiores, temos sempre isso presente. E as mulheres têm participado nas lutas de todos os trabalhadores.

A admiração por Álvaro Cunhal

Falando de si, a Isabel esteva na fundação da Juventude Comunista. Era muito nova, de certeza.

Sim, estive no encontro de fundação, mas não era dos organismos de direção, nem nada disso. Fazia parte da União de Estudantes, da UEC, que se juntou com a União da Juventude Comunista.Eu entrei para a UEC mesmo em dezembro de 74, tinha 14 anos. E a fundação terá sido em 1975,1976.

Foi nessa altura que conheceu Álvaro Cunhal, que a impressionou bastante.

É uma das figuras que marcaram a minha vida. Como disse eu tinha 14 anos e ele era secretário-geral do PCP, não só por isso mas porque foi uma figura marcante no nosso país e no mundo, por todo o seu trajeto toda a sua vida, e a inteligência que tinha. Era uma pessoa de uma afabilidade, amizade, fraternidade, imensa. Tive o privilégio de falar com ele algumas vezes. Nós estivemos juntos em algumas iniciativas, encontros, ações do PCP, quer da Juventude, quer do PCP.

Ele conhecia-a, portanto, e daí nasceu a sua grande admiração por ele.

Conhecia, mas nunca privámos assim de perto. Mas pronto tenho uma admiração muito grande porque toda a vida, toda a marca que ele deixou, toda a sua verticalidade, a sua entrega, foi de facto um homem extraordinário que até ao fim dos seus dias manteve uma firmeza, uma determinação.

Que outras figuras a marcaram?

São muitas, Mandela, a Rosa do Luxemburgo, a Clara Zetkin, que impulsionou o início das comemorações do 8 de março, [Dia Internacional da Mulher]. É difícil, felizmente no quadro da luta dos trabalhadores no mundo e no nosso país, há tantas figuras que marcaram, que depois estar a escolher é complicado. Não queria ser injusta para com nenhum deles.

Voltando à juventude comunista, em 1975, e ao pós 25 de abril. já se sentia mesmo a liberdade?

Foi um momento de grande agitação no meio estudantil, como calcula. Logo a seguir ao 25 de abril, o movimento estudantil era muito ativo, tínhamos simultaneamente plenários, RGAs, e acabei por me envolver e entrar para a UEC. E depois mais tarde, quando houve a unificação, estive na JCP, mas aí já foi pouco tempo.

Os seus pais já tinham esta veia de esquerda?

A minha família foi sempre teve uma visão de esquerda. Tive familiares que emigraram para não ir à Guerra Colonial. O golpe de estado no Chile, em 1973, no ano anterior foi uma coisa que nos tinha afetado bastante, e portanto, falou-se muito disso, e depois houve o 25 de abril. Foi algo extraordinário a revolução de abril. E depois a partir daí foi sendo uma sequência de intervenção, de ação.

A intervenção na atividade sindical

 Sempre trabalhou em sindicatos. Foi uma escolha sua?

Exato, eu não procurei trabalho para uma empresa. Tinha 20 anos. Considerei que trabalhar no movimento sindical era uma forma de continuar a dar o meu contributo para a ação, para a intervenção, para a luta que era preciso travar. E em 1979 as coisas já estavam a regredir um bocadinho.

Tem um percurso sindical de quase trinta anos.

Esta é a minha atividade profissional que se cruza e interliga e articula completamente com a minha intervenção. Fui sempre ligada aos trabalhadores, ao mundo do trabalho, à realidade dos locais de trabalho, àquilo que são os problemas sentidos pelos aos trabalhadores, às suas necessidades. E de contribuirmos para a sua organização na luta por melhores condições de vida e de trabalho.

@Rodrigo Cabrita
@Rodrigo Cabrita

Mesmo nunca trabalhando no “mundo real” de uma empresa esteve sempre em contacto com ele?

Tinha uma parte de trabalho que também era administrativa, mas grande parte era direta. Participação em reuniões, em ações, iniciativas, em lutas, inclusivamente. No ano a seguir a começar a trabalhar aconteceu a primeira greve geral, e senti que dei também o meu contributo importante para essa greve geral, e outras greves e lutas que se sucederam ao longo dos anos. Acabei por ser eleita porque os trabalhadores dos sindicatos são sindicalizados.

Acabou por casar-se também com uma pessoa ligada ao sindicalismo.

É verdade. Conhecemo-nos cá e casámos. Tenho uma filha, com 32, quase 33.

Petiscos portugueses e música

Sei que é fã dos petiscos portugueses, gosta de música de intervenção e sempre e foi ao concerto dos U2.

É verdade. Adoro os petiscos, mas comida portuguesa gosto de tudo o que é comida levezinha (risos), cozido à portuguesa, rancho, rojões, migas...Mas também gosto do peixinho grelhado da nossa costa, tão bom. Quanto a música fui ao concerto dos U2, sim, banda que gosto muito, mas também gosto de Xutos&Pontapés. Gosto do rock em geral, português e estrangeiro.

No cinema é fã de Robert de Niro.

É um ator extraordinário. Não digo que vi toda a filmografia dele, mas vi muitos, cada um deles são de facto extraordinários. Por exemplo, o ‘Taxi Driver’, é fabuloso. Gosto muito de cinema, gosto muito de teatro.

Também é fã de policiais?

Quer em livros, quer em filmes, distrai-me. Desde miúda, sempre gostei muito. Em miúda lia muito Agatha Christie, George Simenon, o Perry Mason, que eu gostava muito também, é outro estilo, é americano puro e duro, mas gostava de ler.

Como secretária geral da CGTP consegue ter tempo livre?

Esta profissão exige muito de nós, não tem horários, por isso o tempo em família, a vida em casa, sabe muito bem. Gosto muito de ler, mas a nossa leitura é muitas vezes absorvida por coisas que precisamos mesmo de ler e acabamos por não ter tempo para os autores que gostamos, como José Saramago.

Como aproveita os raros tempos livres?

Gosto de estar com a família e com os amigos, de conviver. No seio do próprio movimento sindical temos uma grande fraternidade, amizade entre nós e acabamos por ser amigos. Para além do trabalho há também todo esse convívio e amizade que é muito importante e também nos ajuda. Como disse o Arménio Carlos no seu discurso, no nosso congresso, nestas atividades e tarefas que temos de sindicalistas, a família é fundamental. Sem o apoio da família muitas vezes não seria possível dar resposta a tudo o que temos que dar e isso é de facto muito importante.

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