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A campanha eleitoral ao vivo e em directo numa televisão próxima de si
Portugal 11 min. 21.01.2022
Legislativas

A campanha eleitoral ao vivo e em directo numa televisão próxima de si

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A campanha eleitoral ao vivo e em directo numa televisão próxima de si

Foto: AFP
Portugal 11 min. 21.01.2022
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A campanha eleitoral ao vivo e em directo numa televisão próxima de si

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Com o fim do ciclo de debates, é seguro afirmar que a campanha informal decorreu nas televisões, onde o formato "express" de debates se transformou num leilão de soundbites. Enquanto os debatentes se batiam, os comentadores debatiam. E, assim, com audiências inauditas, se operou uma mudança na forma de fazer campanha.

Vá-se lá saber porquê, a fasquia estava elevadíssima. Alguém, talvez eivado pela emoção, ou numa qualquer fase de abstinência de valerianas, teve a ousadia de chamar debate do ano o que opunha António Costa a Rui Rio, desde logo uma valente desconsideração para o ano, coitadito, que só tinha 13 dias, não sendo ainda de descurar o cenário de não acabar sem novas eleições.

Podiam ter-lhe chamado singelamente debate, pois isto já era suficiente para o distinguir dos rounds que o precederam – puro entretenimento, zero substância, verborreia da grossa, muita parra, pouca uva, alguma violência, aqui e ali, falta de chá e má-criação, audiências nos píncaros -, algo entre o Big Brother Extra e um encontro de desamigados no Facebook.

Debate televisivo com os nove partidos com assento parlamentar, a 17 de janeiro.
Debate televisivo com os nove partidos com assento parlamentar, a 17 de janeiro.
Foto: Lusa

Alguma coisa estranha se passa, pois até Marcelo Rebelo de Sousa tem andado discreto, longe das câmeras e do seu natural desassossego. Também não deve ter visto muita televisão, na medida em que considerou "bastante esclarecedores" os ditos debates neste formato, mais para bater do que para debater, como uma leiloeira de soundbites, com uma retórica a atirar para o futebolês em vez de programática, com os entrevistadores transformados em cronometristas monocórdicos, repetindo à exaustão perguntas às quais ninguém responde. Por junto, este formato funcionou tão bem como a substituição de metadona por heroína.

– Dr. André Ventura, como é que pretende garantir a sustentabilidade da Segurança Social? 30 segundos, que temos de passar para a castração química.

– Dr. Francisco Rodrigues dos Santos, o CDS admitirá chamar um Uber em vez de um táxi? Minuto e meio para descarregar a muleta, os toiros, a lavoura, a ausência de democracia interna, o excesso de laicismo na escola pública, o culto satânico do nunomelismo, a ideologia de género e a App.

– Dr. Rui Tavares, explique-nos lá o que é isso do Rendimento Básico Incondicional e, já agora, onde é que a malta se inscreve? E, se por algum acaso do destino, o Livre alguma vez se encontrar aprisionado, em tese que seja, na engrenagem numa dessas geringonças futuristas que para aí andam? Por favor, não abuse do progressimo, pois a palavra consome mais tempo do que o programa do Chega lido de trás para a frente.

Até ao debate com António Costa, Rui Rio esforçou-se para passar por homem invisível com o sorriso número 3.
Até ao debate com António Costa, Rui Rio esforçou-se para passar por homem invisível com o sorriso número 3.
Foto: AFP

– Dr. Rui Rio, sucintamente: admite ou não privatizar a Saúde, a Segurança Social, o Éon Fanerozoico, o sorriso, o choque fiscal e uma parte substancial do século XIX?

– Dra Catarina Martins, foi ao cabeleireiro da dra Ferreira Leite? É de todo inverossímil uma geringonça que envolva o Vaticano? Em que circunstâncias chumbaria uma rerum novarum de Estado? 15 segundos para explicar em que circunstâncias admite sair das trincheiras do problema para regressar ao arco da solução?

– Sr. Jerónimo de Sousa, o PCP mantém a sua carótida entreaberta para viabilizar de novo uma maioria parlamentar de esquerda? Sim ou não, Jerónimo de Sousa? João Oliveira? João Ferreira? Meio minuto para explicar como pretende o Partido Comunista recuperar o eleitorado alentejano que tresmalhou para a extrema-direita e para nos falar da nacionalização de neo-sefarditas como Roman Abramovich?

– Em poucas palavras, dr. Cotrim de Figueiredo, o que une e o que separa o IL do PSD? Se quiser aproveitar para esclarecer o liberalismo negacionista, o porco no espeto e aquela arruada sem máscaras em Santos ao arrepio das regras de saúde pública, pf, não se detenha. Dez segundos para explicar melhor a reforma do sistema de pensões, da capitalização e do investimento em bolsa dos fundos da Segurança Social.

O PAN emergiu como peça fundamental para o poder. António Costa espalhou o charme no debate com Inês Sousa Real, estendendo a passadeira. Na foto, a líder do PAN com o líder do Chega.
O PAN emergiu como peça fundamental para o poder. António Costa espalhou o charme no debate com Inês Sousa Real, estendendo a passadeira. Na foto, a líder do PAN com o líder do Chega.
Foto: José Fernandes/Lusa

– Dra Inês Sousa Real, é ou não verdade que o PAN defende a esterilização em massa e de tornar exclusivamente vegetariana a alimentação dos animais de companhia? Admite viabilizar um governo do PS? Admite viabilizar um governo do PSD? Foi o PAN ou ou PSD que mais votou ao lado do PS na última legislatura? Não teme que o PAN se transforme numa passadeira sintética? Minuto e meio... minuto e 29... minuto e 28...

– Dr. António Costa, sempre se demite caso o PS não tenha maioria absoluta? Ainda tem pruridos em dizer a palavra absoluta? E se não ganhar? E se ganhar por uma margem mínima? E como estamos em matéria de reedição da geringonça? Está aberto ao diálogo, senhor primeiro-ministro? O secretário-geral do Partido Socialista fechou definitivamente as portas de uma maioria parlamentar ao PCP e ao BE? Está o dr. António Costa disponível para um braço-dado com o PSD? Está no campo das hipóteses a tal de ecogeringonça? Não teme desenvolver um problema nas articulações ao agitar como um cartaz um OE que pesa chumbo?

Jerónimo de Sousa parecia muito cansado no debate com Costa. Dias depois teve de ser internado e sub metido a uma intervenção cirúrgica.
Jerónimo de Sousa parecia muito cansado no debate com Costa. Dias depois teve de ser internado e sub metido a uma intervenção cirúrgica.
Foto: Lusa

Um concílio das estações televisivas mais sólido ainda do que a cartelização dos combustíveis, aprovou um formato de debates de 25 minutos, modelo mano a mano, peixeirada style, mais para a audiência do que para o eleitorado. 

Já os debates sobre os debates são infindáveis, com uma legião de talking-heads a dar notinhas às prestações dos debatentes, a encontrar significados ocultos nos gestos, nas palavras, nos silêncios, nas expressões e até na cor das gravatas, traçando os mais diversos cenários políticos pré e pós-apocalípticos, do prosaico ao impensável, para esclarecer o que cada um dos candidados não consegue (ou não quer) em meteóricos 12,5 minutos, não contando com o consumo dos moderadores, que perdem imenso tempo a moderar-se. Com isto, à vista desarmada, aconteceram pelo menos duas coisas igualmente graves. À parte de não se considerar formalmente como campanha eleitoral os supostos debates políticos, aconteceu uma clara mudança nas regras e forma de fazer campanha.

Talvez por fruto da actualidade epidemiológica, da longevidade desta pandemia, da instituição do confinamento, é possível que tenham sido as televisões a perceber primeiro do que os partidos o vazio démodé em que as campanhas eleitorais se haviam tornado desde há muito, junto com o descrédito geral da política e dos políticos. Do nada, gerou-se uma espécie de modelo misto, em que as televisões não se limitam a ser pêndulo (para isso temos o PAN) para ser parte, seguindo depois para a campanha clássica, com a habitual pregação de freguesia em freguesia. 

Tão cedo se esgotou o que parecia o campeão predestinado deste modelo de debates (o líder do Chega) quanto a objectividade jornalística, até porque não é isso que se espera dos comentadores-noteadores de serviço. A opinião, com muito mais tempo de antena do que os partidos, impôs-se rapidamente e sem constrangimentos, tornando-se mais do que evidentes os lados e as barricadas. Já não se sabe bem o que é opinião e o que é campanha (que oficialmente começou no dia 16), se é que uma coisa não é a outra. Também já não deve faltar muito para termos a Pipoca Mais Doce a distribuir notas. 

Pelos intervalos da chuva, decorre a normalização de um candidato e de um discurso fascista, cujo lema é uma decalcomania do Estado Novo, polvilhado com soundbites de taberna, dizendo hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, prometendo terramotos no sistema enquanto se vai alimentando deste, com a questão da sua legalidade pendente na consciência do Tribunal Constitucional, ofuscada pelos sonhos eróticos de ser governo, com idílio na pasta da Justiça, seguindo o arquétipo de geringonça açoriana.

Andámos dias a fio a falar da pena de prisão perpétua, que em Portugal foi abolida em 1884, a admissibilidade das suas gradações, a assistir a espectáculos degradantes de bordoada – com expressão máxima no debate entre Ventura e Francisco Rodrigues dos Santos, versão Chicão com esteróides anabolizantes – a ver quem é que tinha mais músculo, a ver quem conseguia domesticar na arena o líder do Chega na TV, que no início era equivalente a ter um blind-date em directo com um babuíno, com o devido respeito pela transversalidade dos primatas, a ver quem conseguia sintetizar qualquer coisa parecida com um programa de governo. 

Até que Rui Tavares apanhou André Ventura distraído e revelou a fórmula para anestesiar a máquina trauliteira, sem ofensa para os jarros. Curiosamente, aquele que parecia o modelo mais talhado para o mais populista dos candidatos, acabou por revelar-se uma armadilha. O radicalismo do seu discurso e uma certa sobranceria de sondagem rapidamente viraram o feitiço contra o feiticeiro. 

Rui Tavares apanhou André Ventura distraído e revelou a fórmula para anestesiar a máquina trauliteira.
Rui Tavares apanhou André Ventura distraído e revelou a fórmula para anestesiar a máquina trauliteira.
Foto: Pedro Pina/RTP

Mesmo Rui Rio, que até ao debate com António Costa, apropriadamente no Parque Mayer, se tinha esforçado para passar por homem invisível nos debates, com o sorriso número 3 e uma condescendência de grande amplitude, se deixou conduzir a um "não" com o Chega numa possível aliança centro-direita-ultra-direita. De nada serviu falar como o avô, dizendo ao menino que podia ter a trotineta, mas só se prometesse que se ia portar bem dali em diante. Pedir que se comporte a um autoproclamado enfant terrible da democracia, que se diz empossado de missão divina para acabar com Schengen, o transbordo fronteiriço de telemóveis topo de gama e a frota de Mercedes à porta das barracas, é como pedir a um burro para não tocar nas cenouras.

A coisa chegou mesmo ao ponto do próprio Rui Rio se ver na circunstância de explicar o que André Ventura queria dizer num debate com a coordenadora do Bloco de Esquerda. Para usar as metáforas de G3 que Rui Rio adoptou desde as autárquicas, dá impressão que o líder do PSD guardou todas as munições para o debate a dois com António Costa, que levou consigo o catrapázio do Orçamento de Estado, azul-teflon, com menos páginas do que o Livro Negro do Capitalismo, já para não falar do tratado de 600 páginas que é o programa do Iniciativa Liberal. Por entre os sucessivos debates, uns em prime-time outros nem tanto, por entre os estilhaços da esquerda e a desfilada de cavalaria da direita, emergiu o PAN, como peça que a engrenagem convidou para um piquenique vegan no jardim do poder. António Costa espalhou o charme no debate com Inês Sousa Real, estendendo a passadeira.

O mesmo fez Rui Rio mais desajeitadamente, como é seu apaganágio que, aliás, já se transformou em imagem de marca. Rui Tavares, sempre com o fenómeno Joacine atravessado na garganta, esforça-se para posicionar o Livre no doce espectro em que se achou repentinamente o PAN. Tanto o PCP como o BE não conseguem ainda disfarçar o desconforto de ter conduzido a uma eleições que ninguém queria, desdobrando-se em discursos de dar com uma mão, tirando com a outra, sempre com o cuidado de não deixar as portas fechadas à chave, como se faz na província, não vá o PS ter um destes dias de voltar a casa da geringonça, para relativizar o que hoje quer por absoluto. 

Nem Rui Rio, que raramente embarca em euforias para dar aquele toque de sentido de Estado, só aqui e ali dizendo timidamente que também gostaria de conquistar uma maioria absoluta, declara com todas as letras que tal desígnio é não menos do que uma missão impossível, tanto para o PSD como para o PS, usando o mesmo sentido de Estado para não colocar o diálogo com o PS de fora dos cenários que Fevereiro ditará. Todo o jogo político se transformou num imenso quem quer casar com a carochinha, sendo que todos se dizem divorciados e todos se dizem casadoiros. O expoente dramático ocorreu na passada segunda-feira, de novo no Capitólio da nação televisiva, já com as caravanas ao sabor da estrada.

O debate a nove foi uma espécie de oito contra um, todos entretidos a diabolizar o primeiro-ministro e aquele seu lendário "optimismo irritante", que agora se revela na ambição de uma maioria absoluta. À excepção do PS, dos nove partidos com representação parlamentar, digamos assim, só há um consenso: ninguém está interessado em que o PS tenha uma maioria absoluta. Se para uns isto esvazia a possibilidade do poder, para outros ditará a posição em que ficam na luta pela sobrevivência, exactamente o que acontece com algo que ninguém elege como prioridade nos seus programas: a Cultura. E, já agora, ninguém fala do vírus que corrói consistentemente as próprias fundações do regime democrático: a abstenção. Normalmente, à boa maneira portuguesa, isso fica para a última.

Neste momento em que desce à terra o baile de máscaras, com as comitivas e os megafones, os panfletos e as bandeirinhas ao vento, os jantarinhos, os autocolantes e as promessas da praxe a desfilar pelos territórios da realidade, como numa visita de estudo ao convés das redes sociais, dá a impressão que toda a gente, PS incluído, se posiciona no lado cómodo da oposição, transformando o passado no futuro e o menu do dia em temas fracturantes. Por falar nisso, se calhar seria mais fácil instituir logo de uma vez o voto electrónico para o eleitorado confundir com um like o acto cívico de votar. De qualquer maneira, para citar um tema recente de Sérgio Godinho: "Acordaste informado, ignorante te deitas".

(Autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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