Escolha as suas informações

A arte de Berardo para impedir que lhe fiquem com a coleção

A arte de Berardo para impedir que lhe fiquem com a coleção

Foto: LUSA
Portugal 4 min. 15.05.2019

A arte de Berardo para impedir que lhe fiquem com a coleção

BCP, CGD e Novo Banco, credores da fundação de Joe Berardo que detém cerca de 500 obras de arte, acusam o empresário de golpe. Os três bancos denunciam que o madeirense fez uma assembleia geral da Associação Coleção Berardo em segredo para retirar poderes aos credores.

 Na audição parlamentar realizada na passada sexta-feira, Cecília Meireles e Mariana Mortágua, deputadas do CDS e do BE, expuseram o truque de Joe Berardo. O empresário admitiu que convocou uma assembleia geral para fazer um aumento de capital sem convocar os bancos que, por serem credores, têm direito de participação nas decisões da associação. Em segredo, mexeu nos estatutos de forma a que as unidades de participação da associação não pudessem ser transmitidas a terceiros sem a aprovação de 51% dos votos. Desta forma, os bancos não entraram no aumento de capital e os 75% que detinham sobre os títulos da associação ficaram diluídos e Berardo voltou a ganhar a maioria do capital.

Na audição, o empresário madeirenses reiterou que os credores, que entretanto já intentaram uma ação para anular a mudança dos estatutos, não podem penhorar os quadros.

"O senhor anda à procura de todos os expedientes para garantir que a garantia não é executada", afirmou Cecília Meireles. Em resposta, Berardo disse que o objetivo era "proteger a coleção" por receio de que os bancos vendessem a sua dívida a fundos de reestruturação.

Já a deputada Mariana Mortágua, do BE, levou o madeirense a reconhecer ter feito um aumento de capital que tinha tirado a maioria aos bancos. "O senhor acha que foi um golpe de génio, quem está a ouvir em casa deve achar que isto foi uma golpada".


Comissão de inquérito investiga operações financeiras

Joe Berardo foi chamado ao parlamento depois de conhecido um relatório de auditoria da EY a atos de gestão do banco público que revelou que entre as 25 operações que geraram maiores perdas para a CGD estão dois financiamentos a sociedades ligadas ao empresário.

De acordo com o Diário de Notícias, a auditoria da EY identifica um crédito inicial de 350 milhões de euros à Fundação José Berardo, bem como um outro de 50 milhões de euros à Metalgest, 'holding' do universo do empresário madeirense. Em 2015, segundo a auditoria, a exposição da CGD à Fundação José Berardo era de 268 milhões de euros, sendo de 53 milhões no caso da Metalgest. As operações de crédito serviram para financiar a aquisição de ações do BCP, no já denominado "assalto" ao banco, em 2007 (que Berardo rejeita), dando como garantia à CGD as próprias ações. Como as ações desvalorizaram de forma abrupta e praticamente na totalidade em poucos anos, a garantia dada pela Fundação José Berardo à CGD perdeu o valor, gerando perdas avultadas para o banco público.


A polémica da penhora das obras de arte

De acordo com a revista Exame, Berardo foi um investidor de relevo na bolsa portuguesa, em 2007, e chegou a ser o quinto homem mais rico do país, com uma fortuna avaliada em 890 milhões de euros. Hoje, deve quase mil milhões de euros ao BCP, CGD e Novo Banco que concederam créditos ao empresário sem acautelar as devidas garantias. Os três bancos tentam agora executar o antigo investidor e especulador da bolsa que afirmou que não tem dívidas e que as obras de arte expostas no Centro Cultural de Belém (CCB) são da Associação Coleção Berardo.

O Museu Coleção Berardo abriu em junho de 2007 com um acervo inicial de 862 obras da coleção de arte do empresário, que pertencem oficialmente à Associação Coleção Berardo e que foram cedidas ao Estado, num acordo celebrado em 2006, e avaliadas nessa altura em 316 milhões de euros pela leiloeira internacional Christie's, noticia o DN.

Em novembro de 2016, pouco antes do fim do contrato de dez anos entre as duas partes, foi negociada e assinada uma adenda ao acordo que determinou a sua continuidade por mais seis anos, com a possibilidade de ser renovada automaticamente a partir de 2022, "se não for denunciado por nenhuma das partes", nos seis meses antes do fim do protocolo.

Até agora, explica o DN, não foi realizada nenhuma outra avaliação da coleção além da Christie's, em 2006. Em 2016, o Ministério da Cultura, na altura liderado por Luís Filipe Castro Mendes, anunciou que o Governo iria manter a opção de compra da Coleção Berardo. Antes de o acordo terminar, Luís Filipe Castro Mendes disse, no parlamento, que tinha sido decidido renegociá-lo porque o Governo e Berardo estavam interessados em manter a coleção em Portugal.


Bruno Amaral de Carvalho

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas