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Sampaio, uma coragem à prova de bala
Opinião Portugal 2 min. 13.09.2021
1939-2021

Sampaio, uma coragem à prova de bala

1939-2021

Sampaio, uma coragem à prova de bala

Foto: Lusa
Opinião Portugal 2 min. 13.09.2021
1939-2021

Sampaio, uma coragem à prova de bala

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Falando com amigos, Jorge Sampaio ia deixando discretos lamentos, sobre o seu estado de saúde que se ia agravando. Os seus males tinham começado no coração, para depois se estenderem ao sistema respiratório.

Ele sabia que a sua hora se aproximava e que o corpo já não lhe dava cabal resposta à imensa vontade de viver. Apesar disso, horas antes de ser internado, ainda nadou um bocado, para tentar sacudir as desgraças físicas que o consumiam.

Nos últimos meses, teve mais um desgosto na família. O irmão Daniel, professor na Faculdade de Medicina, foi capturado pelo maligno Covid e passou semanas de desespero, numa unidade de cuidados intensivos. Jorge sofreu muito com isso.

Tudo contribuiu para este final doloroso. Umas férias algarvias interrompidas por uma crise respiratória e duas semanas de luta num hospital, sem sucesso. Morreu, quando lhe faltavam oito dias para completar 82 anos.

Mário Soares apreciou-lhe a coragem e ali nasceu uma amizade, com alguns sobressaltos, mas que os uniu para o resto das suas vidas.

Um dia, Mário Soares juntou no seu escritório de advogado, um conjunto de opositores à ditadura, para ali ensaiarem mais uma acção, contra Salazar. Soares explicou a acção com detalhe e, de seguida, perguntou quem se oferecia para a operação que continha riscos evidentes. O silêncio só foi interrompido por uma voz de um estudante da Direito, com cabelo celta.

- Eu vou - disse o jovem, desconhecido da maioria dos presentes, incluindo do titular do escritório.

- E como é que o senhor se chama? - indagou Soares.

- Jorge Sampaio - foi a resposta pronta e decidida.

Mário Soares apreciou-lhe a coragem e ali nasceu uma amizade, com alguns sobressaltos, mas que os uniu para o resto das suas vidas. Até os destinos de ambos se cruzaram muitas vezes. Ao ponto de o mais jovem suceder ao mais velho, na Presidência da República.


Jorge Sampio e o Grâo-Duque cumprimentam os cidadãos em Esch-sur-Alzette.
Festa, vindimas e sorrisos. A última visita de Jorge Sampaio ao Grão-Ducado
O antigo Presidente da República portuguesa faleceu esta sexta-feira aos 81 anos. A última visita oficial ao Luxemburgo foi em 2004, a convite do Grão-Duque Henri.

Liderou o PS, substituindo o anémico Victor Constâncio que levou o partido às profundezas dos infernos. Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, não se conformou com a substituição, como escreveu profusamente nas suas memórias. Foram tempos incaracterísticos, com o Governo a fazer oposição à própria oposição.

Sampaio passou por momentos difíceis, com cascas de banana e outras traições, vindas do interior do PS. Mas, corajoso, enfático e persuasivo, disse que se ia candidatar à Câmara de Lisboa, em coligação com os comunistas.

Mais tarde, abandonou uma disputa fratricida, contra Guterres. Abdicou da liderança do PS, para preparar a candidatura à Presidência da República. Tinha pela frente o mais desejado dos adversários: Cavaco Silva. Sampaio triunfou e ficou por Belém durante dois mandatos.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)


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