Escolha as suas informações

100 anos do PCP. Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Domingos Abrantes, Sines e a fuga de Caxias no carro blindado de Salazar

  • Álvaro Cunhal: “A história só acontece de uma maneira"
  • Jaime Serra. O filho do estivador que organizou a luta armada contra a ditadura
  • Dias Lourenço. Quando os operários se libertam pelo conhecimento nas colectividades
  • Álvaro Cunhal: “A história só acontece de uma maneira" 1/4
  • Jaime Serra. O filho do estivador que organizou a luta armada contra a ditadura 2/4
  • Dias Lourenço. Quando os operários se libertam pelo conhecimento nas colectividades 3/4
  • 4/4

100 anos do PCP. Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Domingos Abrantes, Sines e a fuga de Caxias no carro blindado de Salazar

100 anos do PCP. Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Domingos Abrantes, Sines e a fuga de Caxias no carro blindado de Salazar

100 anos do PCP. Álvaro Cunhal, Jaime Serra, Domingos Abrantes, Sines e a fuga de Caxias no carro blindado de Salazar


por Nuno RAMOS DE ALMEIDA/ 06.03.2021

LUSA

Aqui se juntam várias histórias na primeira pessoa que contam também a vida dos homens de mulheres do mais antigo partido português que viveu metade da sua vida a lutar contra a ditadura e a sonhar com um mundo diferente.

1

Álvaro Cunhal: “A história só acontece de uma maneira"
Copiar o link

LUSA

 A última vez que falei com Álvaro Cunhal foi para lhe pedir uma entrevista de vida que faria parte de um documentário biográfico que estava a fazer com o jornalista Joaquim Vieira.

Nesse último dia que o vi já estava fisicamente debilitado. Via mal, parecia movimentar-se nos corredores da Soeiro recorrendo à memória. Falámos numa pequena sala do primeiro piso, decorada com gravuras de pintores neorrealistas portugueses.

Apesar da simpatia, Cunhal recusou participar em qualquer intento biográfico. Sorriu, olhou para mim daquela forma concentrada que desarmava qualquer interlocutor, como quem dava a alguém toda a atenção do mundo, e disse-me: "Não me ias querer como entrevistado. Isso faria do teu trabalho uma biografia oficial. Num trabalho desse género ias adotar os meus pontos de vista. Ora naturalmente convirá que sejas livre para fazer o documentário, com o qual eu posso não concordar." E concluiu: "Nunca estive interessado em fazer a minha autobiografia, gasto o tempo que me resta a trabalhar no presente." A conversa derivou para a importância para a história de não se perder o testemunho dos protagonistas e da necessidade de haver um contributo dos próprios para a história do PCP. Uma espécie de voz que não tivesse a pretensão de ser tudo, mas que não abdicasse de dar a sua versão do sucedido.

Nunca estive interessado em fazer a minha autobiografia, gasto o tempo que me resta a trabalhar no presente.

Álvaro Cunhal


 Álvaro Cunhal mostrou-se disponível, para ao longo do documentário eu falar com ele informalmente, mas isso acabou por não se verificar. No final do encontro ainda falámos sobre a história: "Os jornalistas tendem a pensar que basta dar duas versões de qualquer assunto para obterem uma verdade jornalística daquilo que se passou. Ora a história não é isso, ela não aconteceu de duas maneiras diferentes. As coisas acontecem apenas de uma maneira. Sobre a minha vida podem existir várias versões, mas eu tenho uma vantagem sobre essas pessoas que escrevem sobre ela. Eu estive lá, vivi e sei como aconteceu". Vejamos então, como algumas histórias aconteceram.

2

Jaime Serra. O filho do estivador que organizou a luta armada contra a ditadura
Copiar o link

LUSA

 Estamos nas vésperas da Festa do Avante. Se lá for e entrar no pavilhão do livro, pode ser que veja os livros de Jaime Serra. Um texto que parte de uma conversa com um operário que se formou numa altura em que os operários queriam aprender a língua universal para falar com o mundo. A sua vida daria muitos filmes. Há de tudo: fugas audaciosas, prisões, travessias em tempestades, luta armada e muita abnegação e trabalho clandestino.

Chegou à sede do Partido Comunista Português, na Soeiro Pereira Gomes, pontualmente. Eu já tinha tirado a credencial de jornalista que me dava acesso ao R/C. Fomos para a sala do fundo, onde normalmente os dirigentes comunistas dão entrevistas. Na parede, serigrafias neo-realistas, talvez um Cipriano Dourado ou coisa assim. A última vez que tinha falado com Jaime Serra tinha sido para um documentário sobre Álvaro Cunhal, há mais de 15 anos. O tempo passou e deixou marcas. Está com 94 anos (fez já 100 anos no ano do centenário do PCP), já não tem aquele ar forte que mantinha aos 70 e muitos, mas o olhar continua vivo e astuto. Pede-me que lhe diga o nome. Digo. Repito. "Ramos de Almeida é alguma coisa ao Pedro Ramos de Almeida?" "Sou filho", respondo. "Como está o seu pai?" "Morreu", retorqui. Silêncio. Começamos a conversa. E à medida que o tempo passa a sua fala vai ganhando a vivacidade de sempre.

Quando fez 74 anos, o filho José escreveu-lhe uma carta a pedir-lhe que lhe contasse a sua vida. Tinham crescido, por causa da clandestinidade, longe do pai e da mãe, e sabiam das opções políticas do pai mas queriam compreender e conhecer a sua vida. Só depois do 25 de Abril de 74 a família se tinha juntado toda à volta da mesma mesa. "É frequente questionar-me sobre as prioridades da vida, o que é de facto mais importante, como distinguir o essencial e encontrar o equilíbrio. A verdade é que todos os dias fazemos opções de vida. Tu também fizeste as tuas. Que têm dado origem à caminhada que tens feito. Das tuas opções resultou que a nossa família ficou dispersa. Hoje tens seis netos que nada conhecem da tua vida e quatro filhos que, além dos ideias e da luta a que te entregaste, pouco sabem das tuas opções, dúvidas e crenças mais profundas", escrevia o filho José Serra. Foi em resposta a essa carta que Jaime Serra escreveu "Eles têm o direito de saber" e mais três livros que se seguiram.

A nossa conversa começa pela família. O pai de Jaime Serra morreu muito cedo, teria ele pouco mais de dez anos. Pergunto-lhe se tem memória dele. Fala-me do pai, que nasceu no lugar do Pezinho. Conta-me que foi com a mulher e com dois filhos para Lisboa para tentarem uma vida melhor. Aqui conseguiu um trabalho de descarregador de mar. O pai era simpatizante dos anarcossindicalistas, em casa recebiam "A Batalha" e havia literatura revolucionária. Foi muito jovem que Jaime Serra começou a ler. "Com 12 anos já tinha lido o 'Germinal' e o 'Trabalho' de Zola, e tudo o que apanhava à mão", diz. É também na infância, na companhia do pai, que se lembra de ter tido consciência dos combates e das divisões sociais em que o mundo e a sua vida estavam mergulhadas.

O pai, Joaquim Eleutério, era membro da Associação de Classe dos Trabalhadores do Tráfego do Porto e de Lisboa. Participava ativamente nas greves e nas lutas. Serra lembra-se de um dia ter visto o pai enrolar um cavalo marinho à da cintura e dizer-lhe: "É por causa dos amarelos [os fura-greves]."

É na sequência de uma greve prolongada que o pai de Serra se vê compelido a arranjar outro sustento. Tinha mulher e quatro filhos para alimentar. Pediu dinheiro emprestado e começou a vender, ele e toda a família, cabazes de fruta. A coisa foi crescendo, embora a fome em casa fosse tanta que às escondidas os filhos lhe comiam parte da mercadoria. Mas a necessidade era grande e da fruta passaram para os panos - esses ao menos não eram comidos. Mas a aventura comercial não teve um final feliz. Ao levar uma carroça, José Eleutério tem um acidente, é hospitalizado e morre com 41 anos, deixando mulher e quatro filhos menores.

Aos 12 anos dormia no barracão das obras

Jaime vê-se obrigado a abandonar os estudos e a ir trabalhar. Aos 12 anos um vizinho arranja-lhe lugar numas obras no Barreiro. Carregava tijolos e argamassa e dormia no barracão das obras. "O primeiro ano que passei foi muito rigoroso, dormia dentro de uma banheira de pedra com um pouco de palha a servir de colchão. Só mais tarde tive direito a ocupar uma tarimba", escreve no "Eles Têm o Direito a Saber". No estaleiro o almoço era sempre bacalhau e batatas. Comeu durante três anos bacalhau com batatas todos os dias, chovesse ou fizesse sol. Pergunto-lhe se ainda consegue comer bacalhau. Sorri-me e diz: "Gosto muito de bacalhau."

O primeiro ano que passei foi muito rigoroso, dormia dentro de uma banheira de pedra com um pouco de palha a servir de colchão.

Jaime Serra

Foi no barracão das obras em que dormia que conheceu o primeiro comunista. Era de Porto Brandão e levou Serra a frequentar a biblioteca dos Penicheiros, no Barreiro. Assistiu também a aulas de esperanto, um projeto de língua universal que tinha muita popularidade em sectores da classe operária. Sinto curiosidade por esta gente que queria ler, aprender línguas universais que dariam as palavras a um mundo sem fronteiras e que tentavam conhecer as matemáticas, a física e tudo o que acontecia de mais moderno no mundo. Falo-lhe de uma conversa que tive com Dias Loureço que me dizia que usou a prisão para aprender álgebra e alemão. Era uma forma de sair dos limites da classe em que nasceram? Jaime Serra contesta-me e diz-me que tem muito orgulho em ser da classe operária, mas, tal como tinha consciência de que o seu trabalho criava riqueza, achava que tinha o direito de conhecer o melhor do mundo. O conhecimento era uma forma de libertação.

Na sequência da revolta do 18 de Janeiro, a PIDE e a GNR vão prender às oficinas da CP, do Barreiro, um dirigente sindical. Os operários, alertados para a prisão, tocam as sirenes, revoltam-se e cercam as forças policiais exigindo a libertação do camarada. Os operários das redondezas incorporam-se no protesto. Serra larga o trabalho e participa na revolta de tal forma que conta no seu primeiro livro que um engenheiro da CP olha para ele e lhe diz: "Então, pequeno e já andas no pica-pica a incitar os mais velhos?"

Com o fim do trabalho começa a militar no PCP, em 1935. A revolta dos marinheiros em 1936, quando os revoltosos tentam sublevar os navios de guerra e levá-los a combater ao lado da República espanhola, que se defrontava contra o exército franquista sublevado e apoiado pela Alemanha nazi e pela Itália fascista, apanha Jaime Serra a caminho do trabalho, uma obra perto do forte e do Duque. Vê os preparativos militares e é aí que ouve os primeiros disparos da artilharia de costa contra os barcos tomados pelos marinheiros da Organização Revolucionária da Armada, ligada ao PCP.

Aos 16 é preso pela primeira vez

A sua primeira prisão dá-se nas vésperas de fazer 16 anos; o aniversário passa-o preso. "Estava a distribuir Avantes e fui ter a uma taberna à noite para dar um a um camarada. Como estávamos na altura da Guerra Civil de Espanha, a polícia fazia rusgas frequentes. Fui revistado. Quando viram o 'Avante!' mandaram--me para o Governo Civil de Lisboa. Durante uns dias bateram-me, para explicar como tinha o jornal. Respondi-lhes sempre a mesma coisa: tinha apanhado o jornal do chão e levei-o para casa para ler. Mandaram-me para casa com o aviso de que era má ideia deixar-me apanhar outra vez.

Depois da prisão passou vários meses sem trabalhar. Mudou de profissão, por influência de Alfredo Diniz (Alex), posteriormente assassinado pela PIDE, matricula-se num curso noturno da Escola Industrial Marquês de Pombal. Em 1939, depois de estar na equipa de construção de uma lancha da Marinha de Guerra, concorre para o arsenal do Alfeite e é admitido. Ajuda a organizar a célula clandestina do PCP no Arsenal, que tinha mais de 50 militantes e distribuía 100 exemplares do "Avante!" clandestino, entre os mais de 3 mil trabalhadores. É nesse período que começa a viver com a Laura, a sua companheira de sempre.

Em 1945 dão-se por muitas cidades do país as manifestações que assinalam a vitória dos Aliados sobre os exércitos nazis. Nas fábricas os operários saem com bandeiras dos Aliados e muitos paus sem pano, a simbolizar a bandeira vermelha da foice e do martelo da União Soviética. Na sequência dessas ações de massas e do crescimento da revolta contra o regime é criado o MUD (Movimento de Unidade Democrática) e muitos comunistas passam a ser referenciados pelas autoridades, dadas estas atividades paralegais. O crescimento do movimento obriga os poucos funcionários clandestinos do PCP a intensificarem o trabalho. É nesse contexto que é assassinado Alex (Alfredo Diniz), pela PIDE, na estrada de Bucelas, quando se deslocava de bicicleta a caminho de uma reunião clandestina. Em várias fábricas de Lisboa, os operários afluíram ao Hospital de São José, onde o corpo estava depositado na morgue. Depois das greves de 1947, Serra está referenciado pela polícia e tem de passar para a clandestinidade. A segunda filha de Jaime Serra, Olga Maria, nasce em 1948 na clandestinidade. O parto foi assistido pela mãe de Serra.

A tortura da "estátua"

Em 1949, todo o secretariado do PCP é preso: Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro vão parar à prisão. Durante esse processo repressivo Jaime Serra tem a sua prisão. "Aí já não havia desculpa de ter apanhado o 'Avante!' no chão. Recusei- -me a fazer qualquer declaração. Nada. Puseram-me imediatamente a fazer de "estátua" [tortura em que os detidos eram obrigados a ficar longos períodos em pé imobilizados, e quando se mexiam eram espancados]. Quando acabou, tinha as pernas tão inchadas que não conseguia tirar as botas, tiveram de ser cortadas com uma faca." Como era possível não falar na tortura? "O que nos aguentava eram as convicções e não querermos que outros dos nossos passassem pela mesma coisa." Durante meses ficou nos calabouços do Aljube, à espera das sessões de tortura, em que o inspector da PIDE Gouveia profetizava que ia "vergar". Tal não aconteceu.

Puseram-me imediatamente a fazer de "estátua. Quando acabou, tinha as pernas tão inchadas que não conseguia tirar as botas, tiveram de ser cortadas com uma faca.

Jaime Serra

Foi transferido para Peniche, e daí consegue fugir em 1950, na companhia de Francisco Miguel (Chico Miguel) que é recapturado. Volta a ser preso em 1956 e 1958. Tenta fugir uma vez. É apanhado. E foge mais duas vezes, a última das quais, em 1960, na famosa fuga de Peniche na qual escapam vários elementos do PCP, entre os quais Álvaro Cunhal. Nunca mais é preso. "Como eram possíveis tantas fugas?", interrogo-o. Com um olhar divertido, diz-me: "Tínhamos muito tempo para pensar nisso." Acrescenta, mais sério, que a primeira tarefa de um revolucionário preso é tentar escapar. "E entre os presos tínhamos o tempo e a determinação para observar a vida na prisão, ver nas rotinas as fraquezas e preparar essa fuga." O último livro que escreveu versa aliás essa experiência coletiva, "12 Fugas das Prisões de Salazar".

Em 1952, Jaime Serra passa a fazer parte do comité central do PCP e posteriormente da comissão política. Tem um papel relevante no 5.o Congresso, o do chamado "desvio de direita" na história oficial do partido, em que apresenta com o nome de guerra Freitas, o relatório sobre política colonial e no 6.o Congresso, o único realizado no estrangeiro, em Kiev, em que Cunhal depois da fuga toma as rédeas do partido. Serra trabalhou com Júlio Fogaça e Cunhal. Sobre o primeiro é de poucas palavras, quase mudo.

Em 1962, entre várias tarefas, o partido encarrega-o da operação de fazer sair de Portugal os dirigentes dos movimentos de libertação Vasco Cabral e Agostinho Neto. Arranja um barco para essa ação e, no meio de uma tempestade, em que Serra tem de abrir o motor à machadada, conseguem desembarcar os dois com as famílias em Marrocos. "Chegou a ver Agostinho Neto depois?", pergunto-lhe. "Alguma vez lhe perdoou a tempestade [risos]." "Sim, vi-o em Portugal, tanto me desculpou que me convidou para visitar Angola. Infelizmente morreu antes de eu concretizar a visita", informa.

Em 1970 envia uma carta ao comité central defendendo as ações armadas contra o regime. Fica responsável pela criação da ARA (Acção Revolucionária Armada). Esta organização faz um conjunto de ações contra a máquina de guerra do regime: a bomba no paquete Cunene, a destruição de mais de 20 aeronaves da força área em Tancos, a interrupção das comunicações durante a reunião da NATO em Lisboa são algumas delas. 

Vida na clandestinidade sem filhos

Depois de uma vaga de repressão que atinge parte dos operacionais, o PCP decide, pela aproximação dos momentos eleitorais, em que o regime permitia uma maior ação da oposição legal, interromper as ações da ARA. Nessa repressão distinguiu-se um elemento do CC do PCP que trai o partido e começa depois da sua prisão a dar informações à PIDE. Augusto Lindolfo sofre um atentado, uma rajada de pistola-metralhadora. Ferido, sobrevive e é enviado pela PIDE para o estrangeiro. Pergunto a Jaime Serra se o atentado tinha sido feito pela PIDE, para que Lindolfo denunciasse mais gente, ou pelo partido. Já tínhamos, em anterior entrevista, conversado sobre isso. Sem nenhuma resposta. Desta vez Jaime Serra nega que tenha sido a PIDE. "Foi o partido?", pergunto-lhe. Os olhos parecem responder mas mantém o silêncio. E depois diz: "Não interessa saber quem foi, até porque não resultou."

 O casal viveu na clandestinidade sem os filhos. Quando saiu para a União Soviética a última filha, Maria Armanda, e depois o mais novo, José, Serra e Laura acusam o duro golpe e protestam ao partido pela decisão. Pergunto como foi depois do 25 de Abril para recuperar a vida familiar. "Muito difícil. Há sequelas difíceis de curar. Mas tudo se faz com tempo e insistência", justifica. Quando nos separamos à porta da Soeiro Pereira Gomes aborda-me uma última vez: "O teu pai também esteve na clandestinidade. Tu estiveste com ele?" "Sim", sussurro envergonhado. Olha para mim: "Tempos difíceis." Falando sinceramente, os meus e dos meus foram fáceis comparados com os de Jaime Serra. Quase turismo. É pena que a vida de muitos como ele se vá perdendo sem que as pessoas conheçam a sua história.

3

Dias Lourenço. Quando os operários se libertam pelo conhecimento nas colectividades
Copiar o link

 No início do seu último livro, a antropóloga Paula Godinho conta a história de um velho camponês que sabe que vai morrer em pouco tempo mas que, apesar disso, se afadiga até ao último sopro de vida a lavrar as suas poucas terras e a deitar-lhes as sementes para uma colheita que ele sabe que nunca verá. “O futuro é para sempre”, concluía a antropóloga, que aprofunda o sentido dessa ideia, citando as palavras do poeta Federico García Lorca, cedo ceifado pelas balas dos pelotões de execução franquistas, quando falou na inauguração da biblioteca da sua aldeia da Andaluzia: “Porque é necessário que saibam todos que os homens não trabalham para si, mas para todos os que vêm a seguir, e este é o sentido moral de todas as revoluções e, em última instância, o verdadeiro sentido da vida.” Quando olhamos para as coletividades populares que vão sobrevivendo de outras épocas, podemos espreitar a cristalização deste credo em que a memória e o futuro se cultivavam e recriavam coletivamente. 

Ana Dias era adolescente quando passeava com uma amiga pelas ruas de Sines e ouviu música. Entrou pela porta da coletividade aberta e ficou por lá. “Nunca mais saí”, relembra. Aprendeu solfejo e a tocar um instrumento, mas também foi aprendendo a viver e trabalhar com outras pessoas e a escutar os mais velhos a relatarem a história desta terra de corticeiros e pescadores em que mais valia partir que torcer. 

Os reorganizadores

A SMURSS (Sociedade Musical União de Recreio e Sport Sineense) foi fundada, com outro nome não tão suspeito, em 1927. Impedida de continuar pelo regime salazarista, foi “reorganizada” depois da revolução. O termo tem o seu quê de ironia histórica: “reorganizadores” é também o nome que tomaram os militantes comunistas, nos anos 30, que deram um novo fôlego a um partido debilitado pelas incursões da polícia política da ditadura. Fizeram-no ligando mais a militância às lutas populares nas fábricas e nos campos. Mas voltemos a Sines. A coletividade foi refundada a 1 de maio de 1975, Dia do Trabalhador, e as suas instalações foram erguidas com o trabalho da população, num terreno cedido que hoje se encontra sob a ameaça de ser retirado, desalojando assim uma casa construída pelo povo. 

A história de muitas coletividades alentejanas é muitas vezes uma história de resistência em que as populações se encarniçam na defesa das suas associações, sabendo que foram também elas que lhes deram o cimento para afrontar um regime que as condenava ao silêncio e à exploração. Depois da II Guerra Mundial, o regime desconfiava de todos os ajuntamentos de mais de duas pessoas. Para o salazarismo, alentejanos a fazerem coisas em comum, mesmo que fosse “apenas” música, era uma conspiração subversiva. Todos os cuidados eram poucos para a PVDE, que passou a PIDE e acabou disfarçada de DGS, numa terra contestatária e insubmissa como Sines, onde os pescadores e assalariados rurais se tinham revoltado pela liberdade mais do que uma vez. Como provava a greve geral insurrecional de 18 de janeiro de 1934, em que os trabalhadores de Sines, Silves, Marinha Grande, Almada e mais algumas localidades com uma presença importante de operários e assalariados rurais param o trabalho e tentam tomar as suas ruas de assalto. 

No rescaldo da revolta, centenas de pessoas são presas e muitas vão morrer no campo da morte do Tarrafal, onde agoniza Bento Gonçalves, operário do Arsenal do Alfeite e primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português. As coletividades eram o sítio onde as populações trabalhadoras se juntavam. Aí se construía uma identidade, se vivia e se tentava ultrapassar as limitações impostas aos que trabalhavam.

Isso acontece por todo o lado onde havia influência de uma cultura operária, muitas vezes feita em conjugação com outras camadas da população. Quando entramos na Padaria do Povo, em Campo de Ourique, Lisboa, deparamo-nos com a sede da Biblioteca Cosmos, fundada por Bento de Jesus Caraça, intelectual e matemático expulso da universidade pela ditadura. É neste espaço onde se produzia um pão mais barato para as classes populares da cidade que os livros se acumulavam com a intenção de dar as asas da liberdade a todos aqueles que pretendiam escapar das garras da ignorância, que perpetuavam a sua dominação, que o fascismo lhes reservava.

O torneiro mecânico que falava esperanto

Há muitos anos entrevistei o antigo operário e dirigente comunista Dias Lourenço, entretanto falecido, e que escapou uma vez da prisão de Peniche, mergulhando nas águas geladas e tempestuosas do mar. Ele recordou-me com orgulho o trabalho que faziam para aprender coisas, desde línguas a matemática, para conseguirem libertar-se de um trabalho escravizante, em condições inumanas, e em plena ditadura. Chegou a passar à mão na cadeia um manual de Álgebra, para outros presos poderem aprender. Num texto sobre a sua morte, escrito no “jornal i”, sem autoria identificada no site, dizia-se o seguinte: Dias Lourenço nasceu em Vila Franca de Xira em 25 de março de 1915, filho de uma costureira e de um ferreiro. Foi amigo de infância de Alves Redol. “Muitas vezes, quando a maré já estava vazia, íamos de barco até uma rocha que ficava um bocadinho fora do Tejo no momento da vazão da maré. Descíamos e íamos apanhar o marisco. Éramos íntimos amigos”, disse Dias Lourenço em 2007 numa entrevista ao jornal “O Mirante”. Com Redol, Dias Lourenço é corresponsável pela popularização do neorrealismo. “O Alves Redol era o principal, mas eu e vários jovens com tendências intelectuais e políticas demos grande impulso a todo esse movimento literário que é conhecido naquela zona”, contou na mesma entrevista.

 Aos 13 anos, Dias Lourenço começou a trabalhar como torneiro mecânico. Aos 17 aderiu ao PCP. “Éramos jovens profundamente ligados à intelectualidade e ao jornalismo. Organizávamos aulas no velho sindicato que funcionava como escola. Chegámos a juntar 50 ou 60 trabalhadores com mulheres costureiras e fiadeiras e operários. Aprendi a falar esperanto para poder dar aulas à malta. Tínhamos muita atividade literária e com forte participação nesses jornais da época. Não só de Vila Franca e do Ribatejo, mas também de Lisboa.”

4

Copiar o link

LUSA

 Domingos Abrantes. Como foi a fuga de Caxias no carro blindado de Salazar

No bairro em que viveu, a ditadura era vista como uma espécie de regime garantido por uma força de ocupação. Foi protagonista de uma das mais audazes fugas das cadeias portuguesas, no carro blindado de Salazar. Viveu no escuro da ditadura, regressou no avião com Álvaro Cunhal, saudado por um mar de bandeiras vermelhas.

Quando se apercebeu de que vivia num regime ditatorial?

Cresci num bairro operário, fui trabalhar na fábrica muito novo, e o sentimento de viver oprimido é algo que nos meios populares se vive todos os dias. Há quem limite a ditadura à repressão das liberdades e à proibição da organização partidária, mas o fascismo era muito mais que isso. Nos mais pequenos aspetos da nossa vida sentia-se a repressão. Lembro-me de um episódio que resume este clima: estava a jogar à bola na rua e tive de fugir à polícia, porque era proibido e havia multas brutais. Fugi. A polícia bateu-me à porta e a minha mãe mandou-os trabalhar. A multa duplicou logo, isto tudo para uma família que não tinha um centavo.

E a repressão política?

A primeira vez que vi a repressão política foi em 1942, quando foi das greves. Para mim foi um espanto, porque vi malta do meu bairro, trabalhadores da fábrica, que tinham trabalhado com a minha mãe, cercados por GNR a cavalo. Uma brutalidade enorme, que impressiona qualquer miúdo. Passados uns tempos vivi outro episódio, a tendência dos miúdos é serem curiosos, vim à rua e vi uma quantidade de gente que conhecia do meu bairro a colar cartazes do Norton de Matos [candidato da oposição nas eleições presidenciais de 1949] e comecei a ajudar. A malta com os escadotes colava os cartazes a uma altura enorme para os GNR não os arrancarem. Quem fazia a cola dos cartazes era o farmacêutico lá do bairro e quando acabava pediam aos miúdos, como eu, que fossem buscar mais. A polícia andava sempre atrás do pessoal que colava, mas nos meios urbanos contiveram-se, só que a certa altura entrou-se na Azinhaga dos Sabões, ao pé de uma fábrica em Marvila, e cercaram o pessoal. Espancaram-nos e partiram e roubaram tudo. Quando voltei com a cola vi tudo partido.

Os operários tinham consciência que o regime não era deles?

A gente nos bairros populares tinha um verdadeiro ódio ao regime, a bufos e legionários. Essa malta só nos merecia desprezo.

Mas o regime durou quase 50 anos, alguém o apoiou. Não se mantinha apenas porque a cadeira estava de pé.

O fascismo tinha também um suporte social que ia para além da repressão. Mas muitas manifestações populares que eram organizadas como de apoio ao regime devem ser relativizadas. Por exemplo, os operários das fábricas militares eram obrigados a ser da Legião Portuguesa, não era uma coisa voluntária. Conheci muitos operários que levavam o fato da Legião numa mala, não tinham lata nem coragem de o vestir no próprio bairro. Depois entravam numa escada, vestiam a roupa. Quando acabava a manifestação de apoio ao regime, em que eram obrigados a participar, tiravam o disfarce e voltavam para o bairro. O medo era uma coisa real. Além disso, o fascismo usava uma demagogia colossal, é uma coisa que nos deve fazer refletir. Eu lembro-me de trabalhar numa fábrica e quando havia eleições os fascistas punham sempre a correr que ia haver aumento de salários, depois não havia nenhum aumento. O que é incrível é que se criava sempre a ideia que desta vez é que ia ser. Apesar de as pessoas já terem sido enganadas uma, duas, três vezes.

Lembra-se das manifestações do fim da Segunda Guerra Mundial?

Lembro perfeitamente. Era miúdo e ia à manifestação. Das bandeiras, muitas delas eram só um pau [expediente que os manifestantes usavam para aludir à bandeira com a foice e o martelo da União Soviética], e a história do "foice", que pelos vistos correu vários bairros. Lembro-me da manifestação no Poço do Bispo, e quando perguntavam o que tinha acontecido à bandeira, visto só lá estar um pau, o pessoal dizia: "Foice." Apesar disso, nessa altura o fascismo conseguiu incutir em muita gente a ideia de que "passámos fome, mas Salazar safou-nos da guerra". O fascismo tinha uma capacidade de manipulação brutal. A certa altura resolveram tomar conta dos clubes, sabiam que eram instituições que movimentavam muita gente e ali no Poço do Bispo eram clubes progressistas, com malta do partido nas direções. A nós do Oriental calhou-nos o Tenreiro. O clube tinha uma secção náutica e ele fez a inauguração de um posto náutico junto da doca do Poço do Bispo, com o lançamento da primeira pedra. Tudo com banda, pompa e circunstância. Embrulharam a pedra à bandeira do Oriental e atiraram-na ao Tejo. E o tipo que estava ao meu lado comentou: "Lá está o funeral do Oriental." E já passaram mais de 50 anos e apenas lá está no fundo a primeira pedra. Posto náutico nem vê-lo.

Entrou no PCP em 1956?

54, 55. Comecei pelas juventudes.

Mas não tinha sido extinta a Federação das Juventudes Comunistas?

Sim, mas havia o MUD Juvenil. A transição era quase imediata.

E depois da campanha do Norton de Matos?

Isso correspondeu a uma altura de grande efervescência política. O Poço do Bispo foi sempre uma zona com grande influência do partido. O camarada que me recrutou para o juvenil, depois quando passou para o partido levou-me para o partido. Era um operário da Fábrica do Material de Guerra, onde eu trabalhava. Os aprendizes normalmente eram maltratados por princípio, com as ideias que os velhos operários tinham das hierarquias e de que os putos tinham de comer pão duro para avançar. Não nos podíamos lavar antes do mestre e mais uma série de coisas. E eu por espírito de rebeldia não gostava muito disso. E estava sempre metido em sarilhos. Estava a lavar-me antes da saída do trabalho e um velho operário disse-me: "Desde quando é que os aprendizes se lavam antes dos mestres?" E eu respondi: "Isso era antigamente." Tive um mestre, que vim a saber mais tarde que era do partido, que era um homem muito diferente em relação aos aprendizes: procurava ajudar, fazer com que progredissem. Era aquele velho operário que tinha orgulho no seu trabalho e se impunha aos diretores pela sua capacidade. Ele tinha de facto uma forma curiosa de pôr os jovens a raciocinar. Dizia: "Eu não sou político, não sei nada de política", mas acrescentava: "Não sei o que é o comunismo, mas se os patrões não gostam deve ser bom para nós."

Em 1956 é divulgado o relatório Krutschev e são conhecidas as primeiras denúncias dos crimes do estalinismo. E os acontecimentos na Hungria, em que o regime aproveita para fazer uma série de manifestações. Como foi?

Foram momentos diferentes. No caso da Hungria, o fascismo organizou manifestações, autocarros com jovens da mocidade a percorrer a cidade, uma campanha anticomunista feroz. Estas campanhas tinham nos meios operários pouca influência, por uma razão muito simples: o regime não era credível e havia um sentimento de esperança em relação à União Soviética. O problema do relatório Krutschev é diferente, já não é o fascismo, é uma coisa que vem de dentro.

A certa altura o PCP fez uma edição clandestina do relatório?

Mas há duas coisas diferentes: uma coisa é o informe ao vigésimo congresso, que tem novidades e inovações, num esforço de sair de um certo marasmo, e é acompanhado por uma grande esperança. Quando se fala do vigésimo congresso fala-se na "via pacífica para o socialismo", muitas vezes sem se ler o conteúdo do que lá está escrito, mas ignora-se que é um período de grande iniciativa dos países socialistas: é a primeira vez que esses países tomam posição em conjunto de apoio à luta anticolonial, e isso teve um impacto extraordinário em todo o mundo. O documento que foi uma bomba é o chamado relatório secreto. Eu lembro-me que estava numa reunião quando um jornal publicou esse documento. A nossa primeira interrogação foi se era ou não verdade. E lembro-me que estava numa discussão e um camarada disse-me: "Já li, se é verdade ou não logo se vê." Criou naturalmente enormes perplexidades. Primeiro, nenhum de nós sabia daquilo, e Estaline era um ícone para muita gente. Recordo-me que ia para a fábrica quando soube da morte dele, foi um operário que me disse, no elétrico, com uns olhos carregados de tristeza. Para nós tinha morrido um amigo. Toda a gente sabia o papel da União Soviética na guerra. Nos meios operários era o nosso herói, quem tinha salvo o mundo do nazismo. As pessoas dividiam-se entre não acreditar no que liam e dizer: "Se isto é verdade é porque os outros [que ele mandou liquidar] não eram bons de certeza."

Hoje o que pensa?

Sem dúvida que no combate ao nazismo Estaline tem um papel importantíssimo, independentemente dos erros que cometeu, mesmo na avaliação errada do começo da guerra. Isso é bom relembrar que não foram os comunistas que o disseram. Havia mesmo uma visão elogiosa do Estaline por parte de Churchill e Roosevelt, que saberiam certamente muito mais do que acontecia que nós.

Mas não se verifica em alguns sectores do PCP uma recuperação da imagem de Estaline?

Isso é um problema marginal. Mas há uma questão real: o "estalinismo" tem servido a certos sectores imperialistas para denegrir o papel dos comunistas na história recente. O Estaline passa a ser só preto, a parte positiva da tentativa de construção do socialismo e o seu papel na guerra são abafados. Ao mesmo tempo que usam aquilo que de mau aconteceu para colar os ideais comunistas aos crimes, esquecendo que em matéria de crimes o capitalismo detém recordes monstruosos. Para muito dessa gente, Estaline é comunismo e Hitler é Hitler, não é capitalismo. O capitalismo lava sempre as mãos dos seus crimes, pretende fazer esquecer que tanto Mussolini, como Salazar e Hitler defendiam o capitalismo - um modo de produção que tem uma história de crimes e que ainda não parou.

Mas há quem defenda que apenas existe liberdade e democracia com o capitalismo e que sempre que há uma tentativa de criar o socialismo as liberdades são restringidas. Que pensa disso?

Sobre isso temos algum distanciamento em relação a certas práticas. Sempre defendemos eleições, uma assembleia constituinte, liberdade de imprensa, não é uma posição de agora. Mas convirá não esquecer que o caminho da União Soviética não pode ser separado da sua história. E não é de somenos importância nela o facto de, desde que a revolução triunfou, a União Soviética ter sido permanentemente cercada e até invadida por forças estrangeiras, começando pela participação de vários exércitos ocidentais a apoiar os brancos contra os vermelhos na guerra civil. Morreram milhões de pessoas, portanto criou-se um clima de estado acossado. Grande parte dos países ocidentais só reconhecem a União Soviética durante os anos 30. Este tipo de cerco e acosso é clássico no capitalismo e tem-se repetido ao longo dos anos. Vemos uma enorme hipocrisia nos nossos dias, veja-se o caso da Ucrânia. Há poucos dias um ministro russo, que provavelmente não é grande rolha, disse uma coisa interessante a propósito do governo dos Estados Unidos da América: "Eles devem estar a ver isso à luz da experiência deles." Há algum país que tenha feito mais intervenções estrangeiras ao longo dos últimos 100 anos? Derruba governos, invade países, promove golpes de estado. Granada foi ocupada porque estava a construir uma pista que permitia a aterragem de aviões supersónicos; o cerco a Cuba, a promoção da guerra na Jugoslávia, a secessão do Kosovo, a invasão do Iraque. Perante isso aparece Durão Barroso a dizer que a situação da Crimeia é inadmissível no século xxi, um tipo que esteve envolvido na invasão do Iraque e que devia ter sido julgado como criminoso de guerra.

Depois de entrar no partido quais são as suas primeiras tarefas?

Até 59 fui funcionário do partido para o trabalho da juventude. A certa altura era o único funcionário com essa tarefa e era uma espécie de caixeiro viajante a correr o país todo.

Mas estava na legalidade?

Tive situações duplas. A certa altura passei à clandestinidade, porque se pensava que ia ser preso. Isso não aconteceu, passei para uma situação semilegal. Depois das eleições do Delgado passei para o trabalho do partido. Depois da campanha houve muitas prisões e o partido foi buscar malta da juventude. No fim de 58 passei para o Comité Local de Lisboa.

E quando começa a sentir que pode ser preso?

A minha primeira prisão dá-se em Junho de 59, fui preso na rua na Amadora. Mas antes disso tenho uma história fantástica, tive um acidente de automóvel. Estava na tropa nas Caldas da Rainha e tinha ido a Lisboa, a uma reunião, e levava um saco de marinheiro cheio de propaganda e molhos de Avantes. Vinha com dois oficiais das Caldas e um sargento e apanhamos um táxi para ir para Lisboa. Eu estava castigado mas saí pelo muro, com oficiais que sabiam disso mas eram uns tipos porreiros, e logo por azar houve um acidente. O carro foi por uma ribanceira e eu parti o braço, umas costelas e desmaiei. Viram-se aflitos para me tirar de dentro do carro, por eu estar todo partido. E eu acordei e perguntei ao fulano que me tirou se conhecia "fulano de tal da Póvoa de Santa Iria ", que era um tipo do partido. Ele disse que "conhecia perfeitamente". Desmaiei e quando acordei o indivíduo ainda lá estava. Pedi-lhe que "fizesse o favor de lhe fazer chegar o meu saco que está no carro". E ele fez isso, mas quando ele foi ver já lá não estava. O saco tinha ido para a Covina, mas ele contactou a pessoa que foi lá buscá-lo.

E a prisão dá-se em que circunstâncias?

A certa altura, desconfiando que a prisão podia acontecer, fui para casa do meu irmão em Alvalade. E quando lá estou a polícia aparece para prender o meu irmão. Abri a porta e eles puseram o pé para não conseguir fechar. Mas o meu irmão tinha saído umas horas antes. A polícia resolveu fazer uma busca à casa e eu tinha a cama do quarto cheia de panfletos. Eles pediram-me para acompanhar a busca e eu pedi-lhes um momento para dar um recado à mulher a dias. Ela escondeu-os no soutien e depois foi à janela e atirou-os para o quintal. Eu pisguei-me, porque sabia que depois eles me iam buscar-me. Sou preso mais tarde na Amadora. Tive a consciência de que havia um tipo na Sorefame que era bufo. O tipo tinha sido seminarista, e o Zé Magro e a Sofia Ferreira tinham sido presos, longe dali, mas depois de saírem da casa dele. O Comité Local era eu, a Sofia, o Santos e era controlado pelo Zé Magro. Fiquei só eu em liberdade. Mas quando saí da casa desse indivíduo tive a consciência que estava a ser seguido: entrei no comboio na Amadora e uns tipos entraram para outra carruagem, mas eu quando cheguei à Buraca, deixei o comboio sair da estação e saltei em andamento. E depois tive um encontro com ele em Campolide, mas já para tirar a confirmação, e ele apareceu, eu vi um carro a rondar, e quando ele chega pergunta-me se tinha desconfiado de alguma coisa. Tirei a prova dos nove. Havia uma reunião de que ele sabia na Amadora e eu fui para lá para avisar que o indivíduo era um bufo. Só que a polícia já desconfiava e montou um cerco e prenderam-me num descampado a caminho da Amadora.

Nessa altura ficou quanto tempo?

Até 1961, altura em que participei na fuga de Caxias. Eles quando me prenderam não sabiam quem eu era. Sabiam que era clandestino, mas não sabiam o meu nome. Perguntaram-me quem eu era e eu moita carrasco. Fui para o terceiro andar da António Maria Cardoso, onde se faziam os interrogatórios, e perguntavam-me repetidamente: "Como te chamas, onde moras?" Mas a certa altura cruzaram dados, e já sabiam quem eu era. Mas insistiam em me perguntar o nome, para forçar que eu lhes dissesse qualquer coisa. E eu mantinha-me calado. Na primeira prisão, além de uns espancamentos tive pouca tortura de sono. Três dias, depois seis, depois dois dias... De 59 a 65 eles aumentaram muito as doses da tortura. A certa altura apareceu-me um fulano do turno das quatro horas e disse-me: "Bom dia", e eu moita carrasco. Ele volta a insistir e eu nada. Insultou-me de tudo. E a partir daí não me largou. No dia 13 de Setembro de 1959, os soviéticos enviaram o primeiro foguetão para a Lua. Estava em isolamento nos curros, mas pendurei-me nas grades e espreitei, estava o carcereiro a ler "O Século", que dizia a toda a largura: "Foguetão soviético a caminho da Lua". O homem percebeu que eu tinha visto, ficou danado, abriu as portas e disse-me: "É tudo mentira. É propaganda comunista." Nessa noite foram-me buscar para interrogatório. Lá me vesti com lentidão. Desci e quando saí do Aljube para a carrinha, quem é que me aparece? Esse bebedolas, o gajo do bom dia, boa noite. Estava preso há meses, sem visitas e sem jornais e mal entrei na carrinha disse para o fulano: "Ouvi dizer que os americanos tinham mandado um foguetão para a Lua." O homem ficou possesso. Chamou-me tudo. E eu a pensar: "Já ganhei o dia. Agora quando chegar é que vão ser elas." Ele não me tocava sem a autorização do inspetor. Estava no terceiro andar o inspetor Farinha, uma figura sinistra com quase dois metros de altura, que tinha sido diretor do Museu do Carmo. E o pide contou-lhe a história: "Este tipo, este filho disto e daquilo, foi-me dizer que os americanos chegaram à Lua para me provocar", à espera que o Farinha desse ordem para começar a malhar. E o Farinha teve uma tirada à intelectual e disse: "Não foram os russos nem os americanos, foi a humanidade." E o outro pide com um olhar esbugalhado e eu safei-me de levar umas trancadas.

Na primeira prisão, além de uns espancamentos tive pouca tortura de sono. Três dias, depois seis, depois dois dias... De 59 a 65 eles aumentaram muito as doses da tortura.

Domingos Abrantes

Como é que é preparada a fuga de Caxias?

Quando se está preso um dos deveres é procurar fugir, mas há uma grande diferença entre o dever e o conseguir fugir. É evidente que se não se estuda a forma de fugir não se consegue. Por vezes encontram-se os pontos fracos, mas não se consegue lá chegar. Tínhamos tentado fugas, e algumas até chegaram a estar marcada, por um túnel, mas os carcereiros desconfiaram da nossa ida repetida a um lavador e bloquearam uma porta. Os funcionários do partido estavam todos juntos em duas salas, separados do resto da cadeia. A certa altura houve muitas lutas nas cadeias e cometeram um erro grande, distribuíram os funcionários do partido pela cadeia toda, o que permitiu reforçar a combatividade dos presos. Quando o Zé Magro foi colocado numa outra sala teve uma ideia genial: convencer o Tereso a "rachar". O Tereso nem queria acreditar. Um rachado era um tipo desprezível, que colaborava com os carcereiros. Ninguém falava ao tipo, nem à própria família. Mas o Zé Magro convenceu-o da justeza da tarefa, uma tarefa terrível, porque se aquilo desse para o torto e acontecesse alguma coisa ao Magro ninguém saberia que ele estava combinado com o partido. Arranjou um conflito interno, bateu com a porta: "Estou farto destes gajos, comunismo já basta." Depois de desconfiarem lá o aceitaram, e o Tereso passou para os rachados.

E qual era a missão do Tereso? O carro blindado do Salazar?

Quando o Tereso "rachou" não havia carro blindado, ele "rachou" para nos dizer quais os pontos fracos da cadeia. Ganhou a confiança dos guardas e do diretor, que tinha mais confiança nele que em alguns guardas prisionais. E ele passou a circular em todo o lado. Havia guardas prisionais que quando queriam alguma coisa do director pediam ao Tereso. Mas a certa altura o Tereso comunicou--nos que não havia saída. Nós estávamos confinados a um espaço muito pequeno e sem saída, tirando um pátio interior.

E nessa altura como é que fizeram?

O Tereso estava quase a sair em liberdade. Perdido por um, perdido por mil. O Tereso ofereceu-se ao diretor para trabalhar para a Pide. O director achou que isso era difícil, mas propôs-lhe que ficasse a trabalhar para ele. Eis senão quando o Tereso descobriu os dois carros blindados na garagem, só que o Chrysler tinha chaves na ignição e o Mercedes não, mas não trabalhava. Ele teve um golpe de asa e imaginou que se podia fugir com o carro. Convenceu o director a permitir-lhe recuperar o carro. Isso demorou tempo. Tornou-se habitual ele andar com o carro na cadeia. No dia em que fugimos ele tinha combinado com o diretor ir passear com ele à cidade. Quando o diretor apareceu já a gente tinha fugido com o carro [risos]. A fuga tinha imensos problemas, o carro tinha de ir ter connosco ao pátio do recreio. E tinha de conseguir arrombar a porta e resistir aos tiros. Mas havia um fator que jogava a nosso favor. Numa saída ao tribunal verifiquei que os guardas não enfiavam as trancas de ferro do portão que entravam um metro no solo. Só estava fechado. De qualquer forma, só teríamos a certeza durante a fuga, e assim foi. A fuga demorou 60 segundos, parece pouco tempo mas é uma eternidade. Eles dispararam. Mas o carro, de cinco mil e tal quilos, era mesmo blindado. O carro bateu no portão, ficou todo amolgado, mas rebentou com a barreira. E lá conseguimos fugir. Foram buscar os carros da polícia da cadeia para nos perseguirem, mas estavam sabotados pelo Tereso.

E volta para a clandestinidade?

Sim, onde me mantive até ser novamente preso, em 1965. Saí em 1973. Fui para a clandestinidade a 6 de Fevereiro de 1974. Não sabia que ia haver 25 de Abril. Não fazia ideia nenhuma que três meses depois ia estar aos gritos nas ruas. No 25 de Abril tinha ido a Bruxelas fazer uma reunião com vários movimentos de libertação, o encontro foi na sede do PC belga, e o 25 de Abril deu-se ia eu no comboio de Bruxelas para Paris. Quando lá cheguei já a Conceição [a companheira] sabia. Chegámos a casa e ligámos a televisão. Quando chegou a Junta de Salvação Nacional sentimos uma onda gelada, mas as coisas pareceram compor-se e regressámos no dia 30, com o Álvaro [Cunhal]. Foi uma coisa fantástica, tinha saído com a ditadura e tinha voltado com um mar de bandeiras vermelhas.

Nota: As entrevistas de Jaime Serra e Domingos Abrantes foram publicadas originalmente no i, no ano dos 40 anos do 25 de Abril.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.