OPINIÃO: Sim, senhor Juncker!

Jean-Claude Juncker
Jean-Claude Juncker
AFP

Avenida da liberdade, por Sérgio Ferreira Borges - O presidente da Comissão Europeia reconheceu que as políticas da troika resultaram num ataque à dignidade do Povo português. Só por isso, Jean-Claude Juncker foi vaiado por uma pequena minoria, incluindo o Governo português, e aplaudido por uma imensa maioria.

A primeira reacção veio do ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, que considerou as declarações de Jean-Claude Juncker de “infelizes”. Mais infeliz foi, por certo, a escolha deste ministro para replicar o Presidente da Comissão Europeia. Porquê? Porque o curriculum de um não tem qualquer comparação com o curriculum do outro. Abstenho-me de recordar aqui a biografia e o prestígio internacional de Juncker. Pelo contrário, talvez seja oportuno recordar que Luís Marques Guedes fez pouco na vida, para além de uma carreira partidária que o levou a assessor de gabinetes ministeriais. Depois, foi deputado e agora ministro. Fora desta ascensão partidária e aparelhista, o seu curriculum é económico de méritos, sabendo-se apenas que, antes disto, foi cronometrista, no Autódromo do Estoril. É pouco – muito pouco – para afrontar uma personalidade com a dimensão de Jean-Claude Juncker.

Outros membros do Governo, incluindo Passos Coelho, vieram a público ajudar o desprotegido Marques Guedes, mas sem sucesso. Nas primeiras horas parecia que a esquerda estava com Juncker e a direita com o Governo. Mas foi puro engano.

Aos aplausos da esquerda, juntaram-se outros, vindos do PSD. Uns mais tímidos, como foi o caso de Marques Mendes, ou do ministro dos Negócios Estrangeiro, Rui Machete. Outros mais entusiásticos, como os de Manuela Ferreira Leite, a antiga líder do partido, ou o de Ângelo Correia, um dos fundadores do PSD e o principal apoiante de Passos Coelho. O criador desta figura, como dizem muitos comentadores.

Entre críticas e aplausos, ficou a grande dúvida: que conceito de dignidade tem este Governo? Com gente a morrer de fome e de frio, com uma queda acumulada de 6.5 por cento do PIB, com a destruição de 500 mil empregos, com 300 mil novos emigrantes, o Governo acha que a dignidade nacional não foi beliscada?

Inabilmente, Passos Coelho tentou arrefecer a polémica, no debate quinzenal, na Assembleia da República. Mas sem grande sucesso. O Governo passou a imagem de obediente a Berlim, de mais alemão que os alemães.

Ao invés, Jean- Claude Juncker criou a expectativa de vir a ser um Presidente da Comissão mais independente, em relação à Alemanha, mais atento ao que se passa no conjunto dos Estados-membros, marcando uma diferença de estilo em relação ao que a Europa estava habituada a ver em Durão Barroso. Isso agradou muito à opinião pública e à opinião publicada.

As declarações de Jean-Claude Juncker foram um risco, mas um risco calculado, de um homem inteligente que, por esta hora, já percebeu que muita coisa tem de mudar na Europa. Ele sabe que há alternativas políticas para tirar a Europa do fosso e sabe, sobretudo, que a austeridade serve exclusivamente os bancos alemães. Tal como sabe que não será a austeridade a patrocinar novos e duradouros ciclos de crescimento económico. Isso só se consegue com investimento, público e privado.