OPINIÃO: Privatizar a democracia

Foto: Serge Waldbillig

Por Hugo Guedes - Que interessante o debate entre os candidatos a burgomestre da cidade do Luxemburgo que ocorreu ontem à noite! Quero dizer, imagino que tenha sido interessante. Na realidade, escrevo estas linhas antes do debate ter acontecido. E de qualquer forma não poderia assistir ao mesmo, dado que não sou rico.

Que significa a última frase? Que o debate político entre os candidatos do DP, LSAP, CSV e Verdes (estes quatro participam, mas na verdade há mais três listas concorrentes) foi organizado por um influente grupo de comunicação social, ou seja, era um evento privado, embora os temas discutidos sejam eminentemente públicos, e as “estrelas” participantes estejam ali na qualidade de candidatos a cargos públicos. Para quem more fora dos limites da capital, mesmo que seja em Strassen ou Hesperange, a entrada para quem quisesse assistir ao debate custava… 250 euros.

Não há qualquer limitação legal para que uma entidade privada organize um evento de interesse público e por ele cobre uma quantia suficiente para assistir a três concertos ao vivo dos Rolling Stones. A história já é bem diferente, no entanto, se considerarmos as questões éticas que levanta. Não há, eventualmente, discurso mais importante em democracia que o debate entre aqueles que se propõem obter cargos públicos. No caso em questão, falamos do tipo de eleitos que estão mais próximos dos cidadãos, num momento em que esses cidadãos esperam deles propostas para melhorar a sua cidade. Não é aceitável que a participação cívica seja restringida àqueles que podem pagar bom dinheiro para ali estar, deixando os demais de fora. E o facto de este debate ser apelidado de “preliminar”, e logo deixar entendido que existirá pelo menos mais um, não desvia do problema central.

Nesta caminhada infeliz e aparentemente inexorável em direção a sociedades pós-democráticas, os EUA parecem sempre um passo à frente – e esta discussão já se colocou ali em relação a alguns debates presidenciais que são transmitidos apenas em canais de tv por cabo. Sabendo nós que os cidadãos, especialmente os jovens, se encontram mais alienados que nunca da participação na vida cívica e democrática, não é lógico nem curial levantar uma barreira económica adicional à mesma. Mais ainda no caso luxemburguês, em que as eleições comunais só acontecem ao fim de longos seis anos, e onde as taxas de participação de cidadãos estrangeiros (que pelo menos podem votar neste tipo de eleição…) são sempre baixas. Em vez de privatização, esta democracia requer incentivo, interesse e divulgação.

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