França/Eleições

Mesas de voto abrem com “medo da abstenção”

Foto: AFP

O "medo da abstenção" está presente nas mesas de voto em Paris nesta segunda volta das eleições presidenciais, que hoje opõe o candidato centrista Emmanuel Macron à candidata da extrema-direita Marine Le Pen.

O português Paulo Nunes é o presidente da mesa de voto número 18 na escola Joliot Curie, em Villejuif, junto à capital francesa, e a abstenção "é um medo real" num dia cinzento e com alguma chuva e perante o descontentamento de alguns eleitores com os finalistas das presidenciais.

"Temos medo da abstenção, não sabemos muito bem se as pessoas se vão deslocar. O tempo não convida as pessoas a saírem cedo de casa. É um medo real porque, quanto mais abstenção houver, mais pode favorecer a extrema-direita, que tem um núcleo certo e forte de pessoas que irão votar, enquanto o núcleo mais republicano pode acreditar que o vizinho irá votar", disse à Lusa Paulo Nunes.

O conselheiro municipal na Câmara de Villejuif recordou que, além da abstenção, há a ameaça de votos brancos e nulos nesta segunda volta.

"O risco são todos os votos que finalmente não são contabilizados: as pessoas que não se deslocam até cá, as pessoas que votam branco ou nulo, riscando os nomes dos candidatos ou pondo o Mélenchon", afirmou o engenheiro ferroviário de 40 anos, que fez campanha por Emmanuel Macron.

Paulo Nunes disse, ainda, que há um movimento nas redes sociais de militantes de ‘A França Insubmissa’, liderada por Jean-Luc Mélenchon, que apela às pessoas a irem votar só a partir das 17:00 para mostrar o peso dos que vão votar, não por apoiarem Emmanuel Macron, mas para travarem a extrema-direita.

As urnas abriram hoje às 08:00 (07:00 em Lisboa) e 47,5 milhões de eleitores são chamados a votar em 66.546 assembleias de voto em todo o território.

Por ser a primeira vez que uma eleição presidencial francesa se realiza com o país em estado de emergência, decretado após os atentados de 13 de novembro de 2015, foram destacados mais de 50.000 polícias.

Só em Paris há 12.000 polícias e militares mobilizados.

"A polícia está a fazer rondas aqui em Villejuif, seja a polícia nacional como a municipal e eu, como presidente da assembleia de voto, tenho os números diretos do posto de polícia e se houver um problema mandam-me diretamente uns agentes. Vamos acreditar que não vai acontecer nada", adiantou Paulo Nunes, sublinhando que não se pode ficar "em casa com medo" porque há que "assumir esta votação republicana".

Daniel Mevel, de 67 anos, percorreu cerca de 500 quilómetros para ir votar e porque a sua morada continua em Paris ainda que resida em Brive-la-Gaillarde, no centro do país, sendo a sua motivação "travar a Frente Nacional".

"É um dever. Tinha que vir. Este ano há coisas que não queremos voltar a ver, a Frente Nacional. É um perigo e a história já o mostrou. Ainda que o partido tenha evoluído, a base continua a mesma. Quero também dar uma hipótese a Emmanuel Macron, é jovem, talvez tenha novas soluções, mesmo que saibamos que é preciso apertar a cintura porque as coisas não estão bem em França", declarou o reformado.

Mais reticente em falar, Fabienne Bazire hesitou em ir votar, mas "preferiu deslocar-se, nem que fosse para votar em branco".

"É um voto muito difícil o de hoje. Não queria vir, mas decidi que tinha que vir. Ou seria uma abstenção ou um voto branco, estava muito indecisa. O Macron não me convence, a Le Pen pode meter medo porque é muito direta, mas talvez a França precise dela. Só que ao nível dos estrangeiros, não se pode tocar nos que trabalham, vivem cá há muito e têm cá os filhos escolarizados", considerou à Lusa a funcionária pública de 52 anos.

Mais empolado na defesa do seu voto, Pascal Atisso, de 42 anos, afirmou que "é muito importante exprimir a sua opinião e não deixar Marine Le Pen avançar de vento em popa".

"Não se pode deixar que este vento de racismo se espalhe pela França. A república é para toda a gente, seja branco, preto ou verde. Por outro lado, é preciso que haja uma revolução política e há que deixar a juventude e Emmanuel Macron simbolizar essa esperança. Ficaremos vigilantes quanto ao que ele faz, é claro", declarou o engenheiro informático, que na primeira volta tinha votado no socialista Benoît Hamon.

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