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«Vivemos cenário de guerra com ‘toque de recolher’ contra um inimigo invisível»
Mundo 4 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

«Vivemos cenário de guerra com ‘toque de recolher’ contra um inimigo invisível»

«Vivemos cenário de guerra com ‘toque de recolher’ contra um inimigo invisível»

Foto: AFP
Mundo 4 min. 17.03.2020 Do nosso arquivo online

«Vivemos cenário de guerra com ‘toque de recolher’ contra um inimigo invisível»

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Itália regista cerca de 2.100 mortos e, desse total, dois terços (1.420) são provenientes da Lombardia, região norte que tem Milão como capital. Dois italianos residentes nessa cidade contaram ao Contacto como um país vive a pior epidemia do nosso tempo e como as suas vidas foram afetadas pelo coronavírus.

Num país em total quarentena até três de abril, o número de infetados não dá sinais de abrandamento e, no passado fim de semana, 14 e 15 de março, houve registo recorde de 368 mortes associadas ao coronavírus, em apenas 24 horas. É o caso mundial mais grave, depois da China e as medidas de restrição sãos as mais pesadas da Europa.

Carlos Cezar Montagnini, 33 anos, e Vitor Varesano, 25, vivem e trabalham em Milão. Estão no “centro do furacão” da epidemia italiana e ambos encontram-se longe de achar que a situação estará resolvida até ao início de abril. “É muito provável que só em maio possamos começar a voltar ao normal”, prevê Vito, já tentando ser otimista.

Depois de decretado o isolamento social, Vito recorda que “houve tempos em que existiu uma flutuação entre o pânico e a completa subestimação da epidemia” que pode ter ajudado à propagação da Covid-19. Neste momento, à exceção de farmácias e supermercados, está tudo fechado e a polícia foi destacada para afastar aglomerados de pessoas e para garantir que não há ninguém nas ruas sem ser por necessidades essenciais.

Carlos também observa as “ruas vazias, comércios fechados, trabalhadores que ganham por dia, parados em suas casas. Vivemos um cenário de guerra com toque de recolher contra este inimigo invisível”. Para o responsável comercial de uma empresa de eventos, 2020 vai ser um ano “desafiante, no mínimo, para todos. Este cenário mudou completamente a forma de desenvolvimento do trabalho, não por estar a trabalhar em casa em casa, mas pela falta de perspetiva de quando as coisas voltarão ao normal. É difícil trabalhar assim, sem saber os passos que daremos no dia seguinte”, garante. Carlos afirma que os eventos que estavam marcados para a primeira metade do ano foram adiados ou cancelados. Ou seja, meio ano perdido, para já. E outros países parceiros já mostram sinais de paragem semelhantes. “Tenho medo do impacto que tudo

isto vai causar na economia, não somente italiana mas a nível global. Os demais países europeus começaram essa semana a vivenciar o que vivemos há duas semanas. Não acredito que a economia global resista a 60 dias de paragem total”, estima Carlos. Vito já se está a preparar para “os efeitos negativos desta pandemia e uma recuperação que se avizinha difícil e provavelmente duradoura. Temos de estar dispostos a fazer ajustes e, sobretudo, temos de nos manter unidos. Enquanto país e enquanto população global.”

Social virtual

Vito é novo e vive uma vida social ativa, para além do trabalho como digital manager numa editora. A troca de vivências entre amigos passou a ser feita apenas pela via virtual e a “presença” em eventos é garantida através das redes sociais.

“Desde nove de março que estou a trabalhar a partir de casa. Não vejo os meus amigos há semanas e acho que não vai acontecer tão cedo. É muito estranho pensar nisso mas vamos falando por mensagem e tentando manter a calma. Também há vários artistas italianos a fazer mini-shows em streaming, através do Facebook e Instagram. Isso tem ajudado!”

Carlos e a mulher, Vanessa, estão à espera do primeiro filho. Um momento de plenitude familiar impedido de ser vivido em pleno com amigos e familiares. “Neste momento, todo o cuidado é pouco e estamos cientes disso. A vida social ficou restrita aos membros da nossa casa. Sem reuniões com amigos e sem contactos com outras pessoas. Não era assim que queríamos estar a viver este segundo trimestre da gravidez”. Por enquanto, estão os dois bem. Nem Vito nem Carlos conhecem pessoas infetadas pela Covid-19. Mas ambos admitem que parece “estar sempre demasiado perto”. Apesar dos números alarmantes, que continuam a aumentar diariamente, Carlos tem um olhar cético em relação ao que está a ser contabilizado – e divulgado – nos restantes países da União Europeia. “Não acredito que os números dos demais países da UE sejam diferentes dos que estamos a par em Itália. É matemático, realizamos mais testes e encontramos mais contaminados. Tenho contactos de pessoas que vivem na Irlanda, por exemplo, que possuem todos os sintomas do vírus, no entanto, o governo local optou por não realizar nenhum tipo de teste. Sabemos que mais de 80% dos casos não evoluem para algo mais grave, dos milhares casos aqui em Itália até este momento (12/03/2020), 1028 são casos críticos, 1045 já foram curados.” O que os números provam? “Que o país, de início, não

soube lidar com uma eventual pandemia, ou talvez foi transparente demais com os números apontados”, afirma. Seja este o cenário, ou não, a pandemia está longe do fim.  


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