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Vai-te embora, ano bissexto!
Opinião Mundo 5 min. 30.12.2020

Vai-te embora, ano bissexto!

Vai-te embora, ano bissexto!

Foto: AFP
Opinião Mundo 5 min. 30.12.2020

Vai-te embora, ano bissexto!

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Na agenda internacional, o acontecimento mais importante será a tomada de posse de Joe Biden, como Presidente dos Estados Unidos.

Em cada ano, os acontecimentos mais importantes são sempre aqueles que ninguém teve a ousadia de prever. São provocados por forças que superam as previsões. Apesar desta verdade irrefutável, 2021 promete.

Em janeiro, pela quarta vez na sua História, Portugal vai assumir a presidência rotativa da União Europeia. Um exercício que se vai prolongar até junho, com problemas para resolver. Os mais difíceis são os decorrentes da pandemia e da falência económica que esta crise sanitária está a provocar.

Os estados-membros vão pedir dinheiro com a urgência determinada por uma crise económica que alguns prevêem ser de dimensão superior à grande depressão dos anos 30, do século passado.

É certo que António Costa vai endereçar esses protestos e reclamações para a Comissão Europeia, mas nem por isso vai escapar à molha de uma chuvada que pode ser diluviana, se o dinheiro da bazuca se atrasar muito.

Com isto, virão também as crónicas manifestações de mau-feitio dos estados governados por executivos de extrema-direita, como a Hungria e a Polónia. Mas outros podem aparecer.

A 24 de janeiro, Portugal vai às urnas para escolher o Presidente da República. Ninguém tem dúvidas que o vencedor desse escrutínio será Marcelo Rebelo de Sousa. Como já aqui escrevi, sobram algumas dúvidas para esclarecer nessa noite. Por exemplo, qual será a expressão da vitória de Marcelo, quem será o segundo classificado e, sobretudo, que dimensão terá a abstenção, numa eleição com vencedor antecipado.

Deste escrutínio podem ainda resultar outras dúvidas e questões, sobretudo, para o PS que não tem candidato oficial. Se Ana Gomes tiver uma votação expressiva, pode cair na tentação de querer transferir esse peso para o interior do partido, irritando António Costa.

Isso podia causar divisões no PS, num ano politicamente muito importante. Primeiro, porque o Governo terá graves problemas para resolver, como se verá mais adiante. Depois, porque há eleições autárquicas no Outono e o PS quer e precisa de vencê-las. Além disto tudo, o feitio de Costa não tolera divisões internas e contestações.

É quase certo que virá aí uma crise económica, provocada, sobretudo pelos efeitos da pandemia. E será num ambiente destes que Portugal terá de iniciar o difícil processo de reestruturação da TAP, tendo como uma única fonte de receita para essa operação o dinheiro do Orçamento de Estado. Porque não se prevê que consiga vender por um preço justo qualquer dos 20 aviões que colocou no mercado.

Do Orçamento do Estado vai também sair o dinheiro reclamado pela administração do Novo Banco. Um caso que vai continuar a alimentar polémicas que não resolverão o essencial da questão. Dito isto, é certo que o Governo terá de levar ao parlamento uma proposta de orçamento rectificativo. E terá de arranjar convergências para o fazer aprovar.

A factura social também vai continuar a agravar-se, ao ritmo que se agravam os problemas da sociedade. Haverá mais falências e com elas, mais desemprego e mais gente a pedir apoios estatais.

Apesar deste quadro negro, os especialistas dizem que, em 2021, a economia portuguesa retomará uma trajectória de crescimento. Mas será um crescimento anémico, insuficiente para enfrentar os grandes problemas. O Fundo Monetário Internacional diz que Portugal, no ano que agora começa, terá uma taxa de crescimento de 6,5 por cento. Um milagre em que pouca gente acredita.

Costa respira melhor, quando lhe falam de juros da dívida pública. Devem continuar a descer, sobretudo, porque o Banco Central Europeu prevê investir 20 mil milhões de euros, na dívida portuguesa, pressionando assim a descida das taxas de juro. Para que isto aconteça, é bom que não se exija qualquer reforço da bazuca. O BCE continua a dizer que os 750 mil milhões de euros são suficientes para ajudar a recuperação das economias europeias. A Portugal caberá uma fatia de 15,5 mil milhões.

Na agenda internacional, o acontecimento mais importante será a tomada de posse de Joe Biden, como Presidente dos Estados Unidos. O conjunto de cerimónias está marcado para 20 deste mês de janeiro, mas ninguém sabe até onde se pode cumprir a tradição. Há um figurante nesta transmissão de poder que deve faltar às suas obrigações. É Donald Trump que ainda hoje insiste na denúncia de uma hipotética fraude eleitoral que ninguém reconhece, nem o Partido Republicano a que ele pertence, nem os tribunais a quem ele recorreu.

Há aqui uma grande incógnita que só se vai resolver, no próprio dia. Depois, começa outra: saber, até que ponto, Joe Biden vai desratizar a administração norte-americana, com uma operação de higienização que limpe tudo o que Trump lá deixou.

Biden tem outras prioridades, como atacar as causas e consequências da pandemia que deixou a América irreconhecível.

Depois, será com ansiedade que o mundo verá até onde Biden conseguirá que os Estados Unidos regressem ao multilateralismo abandonado por Trump e como vai o novo presidente resolver algumas questões bilaterais, como sejam as relações comerciais com a China e as políticas com a Rússia.

O mundo precisa de boas soluções para estes problemas que têm tornado a vida das sociedades tão difícil.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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