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"Uma loira de olhos azuis". Depois do exílio, a ameaça da exploração sexual das ucranianas
Mundo 3 min. 06.05.2022
Guerra na Ucrânia

"Uma loira de olhos azuis". Depois do exílio, a ameaça da exploração sexual das ucranianas

As refugiadas ucranianas são "presas fáceis" para as redes de prostituição, mas também para os anfitriões mal intencionados.
Guerra na Ucrânia

"Uma loira de olhos azuis". Depois do exílio, a ameaça da exploração sexual das ucranianas

As refugiadas ucranianas são "presas fáceis" para as redes de prostituição, mas também para os anfitriões mal intencionados.
Foto: AFP
Mundo 3 min. 06.05.2022
Guerra na Ucrânia

"Uma loira de olhos azuis". Depois do exílio, a ameaça da exploração sexual das ucranianas

AFP
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Por enquanto são "alertas" e "suspeitas", mas geram a maior preocupação para as autoridades e para toda a rede humanitária: as refugiadas ucranianas são "presas fáceis" para as redes de prostituição, mas também, especificamente nesta crise, para os anfitriões mal-intencionados.

Este cenário surgiu logo no início de março, quando os primeiros deslocados da guerra na Ucrânia inundaram a França. Em frente ao centro de acolhimento que a associação France Terre d'Asile tinha acabado de abrir no norte de Paris, um homem criou recentemente alguma inquietação. 

Segundo o relato de duas mulheres ucranianas aos voluntários do centro, o desconhecido estava a propôr-lhes que "trabalhassem" para ele. "Ele estava a pedir na fila! Desde então, temos tido uma forte vigilância policial", afirmou Delphine Rouilleault, diretora-geral da associação, à AFP.

Um outro homem terá dito que queria cuidar de mulheres em nome de uma associação desconhecida, ou as refugiadas que regressavam a uma ONG "não tranquilizadas" após uma primeira noite num "anfitrião solidário", os bons samaritanos de quem depende a maior parte da oferta de acolhimento da França. 


Amnistia Internacional está averiguar tráfico de seres humanos entre refugiados ucranianos
A organismo apela aos voluntários que estão a deslocar-se até aos países que fazem fronteira com a Ucrânia para ir buscar refugiados para o fazerem sempre em conjunto com as organizações que estão no terreno.

Os riscos enfrentados pelas mulheres ucranianas, que juntamente com as crianças representam 90% dos refugiados da invasão russa da Ucrânia, têm sido expostos durante semanas por todos os atores que acompanham este êxodo. 

São suscetíveis de "atrair tanto atacantes individuais como oportunistas que se fazem passar por voluntários, assim como redes criminosas especializadas no tráfico de seres humanos", advertiu a polícia europeia, Europol, no final de março. 

"Uma loira de olhos azuis"

Os riscos aumentam nas primeiras fronteiras, polacas ou romenas por exemplo, mas começam a pesar no exílio destas pessoas em França. Mas nesta fase "nenhum caso de tráfico foi provado", diz Elisabeth Moiron-Braud, secretária-geral da Miprof, a missão interministerial encarregada da luta contra o tráfico de seres humanos.

"Por outro lado, há suspeitas, alertas de trabalhadores sociais, que são relatados. Estamos, portanto, numa fase de prevenção. Estes são riscos que conhecemos, porque temos a experiência da crise migratória de 2015, quando tivemos um grande fluxo de menores nigerianas apanhadas em redes de prostituição", observou a magistrada.

As mulheres ucranianas, diz ela, são "presas fáceis", especialmente porque as redes de tráfico da Europa de Leste já estão ativas.


ONU quer "investigação independente" a violência sexual contra mulheres na Ucrânia
A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu uma "investigação independente" aos vários relatos de violações e violência sexual contra mulheres na guerra na Ucrânia, de forma a garantir justiça e responsabilidade por esses crimes.

Mas o que preocupa particularmente as autoridades francesas, diz Elisabeth Moiron-Braud, são os "riscos de tráfico por particulares que se aproveitam da vulnerabilidade destas mulheres, que é o grande perigo desta crise".

Algumas das ofertas de alojamento também preocupam as associações. "Dizem que só querem uma jovem ucraniana, sem filhos. Outros especificam 'uma loira de olhos azuis'", diz um membro de uma das associações, responsável pela digitalização de milhares de ofertas, que pede o anonimato. 

"Se for apenas um homem, rejeitamo-lo"

A associação France Terre d'Asile iniciou um "trabalho de controlo", exigindo um extrato do registo criminal, realizando visitas ao alojamento e assegurando "acompanhamento social" nos casos particulares de acolhimento destas pessoas.

"Deixamos claro que não se trata de alojamento para serviços. Porque o tráfico não é apenas sexual, pode também ser as mulheres que têm de fazer os trabalhos domésticos e cuidar das crianças durante todo o dia", sublinha Delphine Rouilleault.

Os refugiados "nunca devem dar os seus documentos de identidade" e "ter cuidado com as ofertas que são demasiado boas para serem verdadeiras", explicou Céline Schmitt, porta-voz francesa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Schmitt apela, por isso, ao "reforço" dos mecanismos de controlo para "rastrear" todas as boas intenções.


Criança na fronteira entre a Ucrânia e Polónia
"Quando há crianças em fuga, há criminosos a tirar partido". Há risco de aumento do tráfico humano
A Comissão Europeia diz estar em alerta para o risco de tráfico de crianças na Ucrânia devido à fuga da guerra causada pela Rússia, indicando ter já ativada uma rede antitráfico, apesar de ainda não haver registo de vítimas.

Para apoiar as mulheres que estão frequentemente exaustas, a comunidade ucraniana está também a organizar-se: "Acompanhamo-las para ver o apartamento, falamos com quem as acolhe... tentamos limitar os riscos", diz Nadia Myhal, presidente da Associação das Mulheres Ucranianas em França. "Damos preferência às famílias ou às mulheres. Se for apenas um homem, rejeitamo-lo". 

O facto é que todos estes esforços são "homeopáticos", admite Delphine Rouilleault, porque é tão difícil detetar situações problemáticas atrás de portas fechadas. 

Especialmente porque "o processo de identificação das vítimas é longo", sublinha Elisabeth Moiron-Braud, da Miprof. "Talvez uma mulher esteja a ser explorada neste momento. Mas não saberemos durante alguns meses".

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