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Um milhão de espécies podem desaparecer do mundo se não mudarmos de comportamento

Um milhão de espécies podem desaparecer do mundo se não mudarmos de comportamento

Mundo 4 min. 06.05.2019

Um milhão de espécies podem desaparecer do mundo se não mudarmos de comportamento

O uso da terra (agricultura, desflorestação), a exploração direta dos recursos (pesca, caça) e as alterações climáticas são três das principais causas que poderão levar à extinção de milhares de espécies, segundo um relatório das Nações Unidas, “muitas delas nas próximas décadas”.

Um milhão de espécies estão ameaçadas e o ritmo continua a aumentar, alerta um relatório das Nações Unidas, segundo o qual a natureza está condenada ao declínio a menos que os modelos de produção e de consumo sejam alterados.

O relatório foi divulgado esta segunda-feira e é da autoria de um grupo de especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre biodiversidade (IPBES) que traça um futuro sombrio para a espécie humana que depende da natureza para beber, comer, respirar, aquecer-se e até curar-se.

“Estamos a desfazer as próprias fundações das nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”, alertou Robert Watson, presidente da IPBES, citado pela agência France-Presse (AFP).


Reino Unido declara estado de emergência climática
O Reino Unido é o primeiro Estado no mundo a tomar esta medida.

De acordo com o relatório das Nações Unidas, 75% do meio ambiente terrestre “foi severamente prejudicado” pelas atividades humanas, desde desflorestação, agricultura intensiva, pesca excessiva ou urbanização desenfreada, havendo 66% do ambiente marinho que também foi afetado.

Como resultado disso, cerca de um milhão de espécies animais e vegetais, entre as perto de oito milhões que se estima existirem no planeta Terra, estão ameaçadas de extinção, “muitas delas nas próximas décadas”.

Pelo menos 680 espécies com coluna vertebral já foram extintas desde 1960 e o relatório refere que desapareceram 559 raças domesticadas de mamíferos usados para alimentação, acrescenta a AP.


Guilherme Serôdio. “O poder político está a perder legitimidade porque não faz face à crise climática”
Um dos fundadores do Extinction Rebellion, o grupo que "invadiu" nu o Parlemento do Reino Unido, é português. Já foi detido várias vezes e considera que a sobrevivência do planeta depende de uma mudança política global. Para isso, é preciso fazer muito mais que manifestações. Até porque os governos têm feito orelhas moucas aos cidadãos.

Mais de 40% das espécies de anfíbios do mundo, mais de um terço dos mamíferos marinhos e cerca de um terço dos tubarões e peixes estão ameaçados de extinção.

De acordo com a AP, o relatório baseia-se na pesquisa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que é composta por biólogos que mantêm uma lista das espécies ameaçadas.

Em março, a IUCN calculou que existem 27.159 espécies em perigo, ameaçadas de extinção ou extintas na natureza entre quase 100 mil espécies analisadas em profundidade por estes biólogos.

Neste grupo estão 1.233 espécies de mamíferos, 1.492 espécies de aves e 2.341 espécies de peixes. Quase metade das espécies ameaçadas são plantas.

Dados que vão ao encontro daquilo para que muitos cientistas alertam há vários anos, ou seja, o início da sexta “extinção em massa” – que não é mencionada no relatório – e a primeira pela qual o homem é responsável.

“Não é tarde de mais para agir, mas só se for já” e através de “uma mudança transformadora” na sociedade que faça desacelerar os “motores” da perda de biodiversidade que ameaça o homem pelo menos tanto como as mudanças climáticas, defendeu Robert Watson.

No documento, em que 450 especialistas trabalharam durante três anos, estão claramente identificados os cinco culpados por ordem de importância, a começar no uso da terra (agricultura, desflorestação), exploração direta dos recursos (pesca, caça), alterações climáticas, poluição e espécies invasoras.


A temperatura no Ártico pode aumentar cinco graus até 2050
Este aumento pode provocar um considerável aumento do nível do mar e devastar muitas zonas do planeta.

Se o Acordo de Paris, que define a redução da emissão dos gases de efeito de estufa, pretende diminuir o aquecimento global em 2º, fosse cumprido, as alterações climáticas poderiam descer no ranking, agravando os outros fatores.

No entanto, outras ações para reduzir as emissões de CO2 também poderiam trazer benefícios diretos para a natureza, ajudando a quebrar este círculo vicioso.

O relatório da ONU refere como primeiro alvo o sistema agroalimentar, apontando que alimentar cerca de 10 mil milhões de pessoas em 2050 de forma sustentável implica uma transformação da produção agrícola (agroecologia, melhor uso da água), mas também hábitos de consumo (dieta, desperdício).

De acordo com a AFP, que teve acesso a um primeiro relatório preliminar, houve uma suavização na abordagem à questão da produção e consumo de carne, provavelmente por pressão dos vários países produtores.


Tentar salvar o planeta pode ser mais prejudicial que benéfico, dizem psicólogos
Todo o consumo causa danos ambientais permanentes e as opções ecológicas são muito menos prejudiciais. Mas não reparam o dano. Segundo um estudo divulgado esta segunda-feira, “a melhor coisa para o meio ambiente seria consumirmos menos no geral”.

Apesar de este relatório apontar muitas pistas, a questão agora é saber se os países membros da Convenção das Nações sobre a Diversidade Biológica vão estabelecer na agenda da próxima reunião, na China, em 2020, os objetivos esperados pelos defensores do meio ambiente por um planeta sustentável em 2050.

O relatório do IPBES apresenta outras ferramentas que os países poderão adotar para melhorar a sustentabilidade do sistema económico, tal como quotas de pesca efetivas ou uma reforma nos apoios públicos e na fiscalidade, defendendo mesmo que se abandone o dogma do crescimento.

Citado pela AFP, um outro autor do relatório, Eduardo Brundizio, defendeu que é preciso definir como objetivo a qualidade de vida e não o crescimento económico, mas recusou que esteja em causa a possível extinção da espécie humana, apesar de depender da natureza para viver.


O ator que envergonhou os políticos luxemburgueses com uma simples pergunta
Brice Montagne é ator e ativista do ambiente. Este mês, subiu ao palco do Grand Théâtre para interpretar a peça “Breaking the waves”, a adaptação para teatro do filme homónimo de Lars Von Trier. Mas não foi só em palco que o jovem ecologista fez ondas. Com uma simples pergunta, pôs a nu a ignorância dos deputados luxemburgueses sobre mudanças climáticas.

O documento das Nações Unidas destaca também que a qualidade de vida irá degradar-se ainda mais entre os mais pobres e nas regiões onde vivem populações autóctones muito dependentes da natureza.

Lusa