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Um fascista no poder
Editorial Mundo 2 min. 31.10.2018 Do nosso arquivo online

Um fascista no poder

Um fascista no poder

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 31.10.2018 Do nosso arquivo online

Um fascista no poder

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Não pode haver meias palavras com aquilo que se passou no Brasil: eleger Jair Bolsonaro representa um perigoso retrocesso não só para o povo brasileiro, mas para a América Latina.

Todas as sondagens apontavam no mesmo sentido, mas muitos só acreditaram quando os resultados acabaram por confirmar que Jair Bolsonaro seria o próximo Presidente do Brasil. E assim se concretizou, com os meios da democracia, a eleição de alguém que não pode corresponder mais à antítese do que é ser democrata.

Tudo o que se viu durante a campanha remete para a imagem que o agora eleito foi deixando ao longo dos anos – alimentando-se do sistema e dele tirando o maior proveito para garantir que vive à custa do povo. Para quem deposita na sua eleição as esperanças de que acabe com a corrupção e a violência, convém lembrar como o seu historial por entre diferentes partidos não está imune ao efeito sedutor do dinheiro.

Um candidato que elogia o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar condenado pela Justiça brasileira por responsabilidade na morte de 60 pessoas e por ter torturado pelo menos outras cinco centenas, não sabe o significado da democracia. Ao mesmo tempo, o candidato foi capaz de dizer que o grande erro da ditadura no Brasil “foi torturar e não matar”, até porque os militares deveriam ter “fuzilado uns 30 mil naquela época”. Quem votou nele espera que acabe com a violência? Com afirmações deste género ou as ameaças que foi fazendo aos rivais, a resposta mais evidente é que estará muito mais próximo de contribuir para o aumento da violência. Até porque, entretanto, se encarregou de defender a ideia de que deve ser flexibilizada a posse de armas. De facto, é mesmo de mais armas que possam ser utilizadas para matar cada vez mais gente que a sociedade brasileira precisa para diminuir a violência – ao contrário do que afirma, as armas não são sinónimo de liberdade de um povo, mas sim que este fica refém delas. Mesmo que se salvaguardem diferenças, o exemplo norte-americano mostra como é errado esse conceito.

Por muito que outros tenham errado antes, um fascista no poder é o pior que podia acontecer ao Brasil e à América Latina, cuja História está repleta de ditaduras que custaram as vidas a milhões de inocentes. E isso não pode ser indiferente. Não se trata de uma questão de esquerda e direita, é muito mais do que isso – é civilizacional e, neste caso, um perigoso retrocesso.

Bolsonaro pode até rodear-se de uma biblioteca com todos os livros do mundo que isso de nada irá adiantar se aos 63 anos ainda não percebeu que, sendo inspirado pelo fascismo, nenhum disfarce lhe servirá para iludir seja quem for. Esperemos que os cidadãos brasileiros, responsáveis pela sua eleição apesar de todos os alertas, permaneçam atentos.

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