Escolha as suas informações

Um caderno em branco e alguns copos
Editorial Mundo 4 min. 30.12.2020

Um caderno em branco e alguns copos

Um caderno em branco e alguns copos

Foto: Antonio Turok
Editorial Mundo 4 min. 30.12.2020

Um caderno em branco e alguns copos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
A matéria prima do novo capitalismo somos nós e o nosso tempo. Até por isso, era bom ver o que fazemos em 2021 para mudar isso. Onde se recorda uma história com um fotógrafo e muito álcool no meio da selva mexicana.

Há muitos anos, numa reportagem em Chiapas, tropecei num fotógrafo mexicano de origem russa, que num ano novo tinha tropeçado numa chusma de guerrilheiros. Tudo isso, porque estava com os copos na passagem do ano, comentou-me ele, enquanto bebíamos qualquer coisa.

Antonio Turok estava bêbado. A coisa não era para menos, festejava-se o ano novo de 1994 e já tinham decorrido algumas horas da madrugada de 1 de janeiro na cidade de San Cristóbal de Las Casas. Tinha passado a noite a dançar, comer e beber, não obrigatoriamente por essa ordem. O fotógrafo mexicano de origem russa estava a apanhar ar na rua quando deu de caras com umas centenas de indígenas de cara tapada e armados. O seu primeiro pensamento foi sobre os malefícios do álcool: “Grande merda, não posso beber tanto, já imagino guerrilheiros nas ruas”, disse para consigo.

É preciso esclarecer, que nessa época, um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do México tinha escrito um livro a explicar que as guerrilhas eram impossíveis na América Latina. O mundo estava normalizado e tratava-se de o aceitar calmamente.

Foi nessa convicção que a realidade o enganava que o nosso fotógrafo dirigiu-se convicto, embora cambaleante, para casa, com a intenção de curar a borracheira, mas os guerrilheiros teimavam em cruzar o seu caminho, como elefantes cor-de-rosa em dia de coma alcoólico. Chegado a casa, foi buscar a máquina fotográfica, convencido de que os vapores da bebida não iriam certamente impressionar-lhe a película. Era a forma científica de escorraçar os fantasmas. Passou a manhã a fotografar guerrilheiros que julgava imaginários. A certa altura, um encapuçado de olhos claros disse-lhe a sorrir: “Tira fotografias que vai valer a pena.” Era o homem que mais tarde seria conhecido como subcomandante Marcos a meter-se com o fotógrafo. Foi assim que, anos mais tarde, em Chiapas, este último me contou a história.

Turok tirou as primeiras fotos da revolta dos indígenas do estado mexicano de Chiapas no dia da assinatura dos Acordo de Livre Comércio das Américas. Os indígenas que viviam do uso das terras comunais protestavam violentamente contra um acordo que iria privatizar as suas terras.

As imagens dos fotógrafos circularam na internet, divulgando de uma forma global este conflito local. As reações mundiais que se seguiram impediram que o exército mexicano massacrasse os indígenas. Aos mais pobres habitantes de Chiapas, a internet dizia pouco, até que perceberam que podia ser a diferença entre estar vivo e estar morto.

Os zapatistas perceberam como poucos que as suas lutas locais podiam ser defendidas por redes de ativistas globais e entenderam que as suas reivindicações de justiça e democracia eram comuns a muitos povos que se encontravam ameaçados por uma globalização económica que não considerava os interesses dos pobres.

As revoluções do planeta Terra à volta do Sol constituem o nosso ano. Sempre que reiniciamos um ciclo, temos sempre a secreta esperança de fazer diferente e de conseguir mudar o que está mal. O novo ano é uma espécie de caderno em branco em que podemos escrever novas histórias e ajustas conta com as antigas.

A revolta dos indígenas de Chiapas na passagem do ano de 1994 significou um grito de revolta das populações subjugadas por mais de 500 anos de domínio de uma elite importada. Isso não mudou que as noites se sucedessem aos dias, nem que haja gente discriminada e explorada em muitos lugares do planeta. Apenas mostrou, mais uma vez, que não tem de ser assim.

No longínquo 94 do século passado, a internet tinha evoluído de uma rede militar para uma rede científica que ligava as universidades e estava a fazer os primeiros passos na sociedade civil e nos ativistas. Estava muito longe de se ter tornado num mecanismo de alienação total e de negócio global que hoje é. Talvez por isso, tenha ajudado a salvar os indígenas de Chiapas.

Hoje, provavelmente, o algoritmo do negócio dividiria as pessoas entre quem defenderia o direito dos revoltosos das ruas de San Cristóbal das Casas a viver e outros que comentariam em todos os posts que eles estavam a pedi-las e que deviam ser liquidados.

As formas de comunicação não são neutras, nem existem por acaso. O filósofo canadiano Marshall McLuhan explicava que “o meio é a mensagem”. O meio que existe faz de nós todos matéria prima de um negócio, em que os falsos conflitos e as teorias da conspiração mais imbecis são o chamariz para ficarmos a viver a vida em universos virtuais, enquanto nos vendem publicidade. A matéria prima do novo capitalismo somos nós e o nosso tempo. Até por isso, era bom ver o que fazemos em 2021 para mudar isso.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.