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Turquia e Rússia enfrentam-se no vespeiro de Idlib
Mundo 8 min. 03.03.2020 Do nosso arquivo online

Turquia e Rússia enfrentam-se no vespeiro de Idlib

Turquia e Rússia enfrentam-se no vespeiro de Idlib

Foto: AFP
Mundo 8 min. 03.03.2020 Do nosso arquivo online

Turquia e Rússia enfrentam-se no vespeiro de Idlib

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Com a Turquia a tentar impedir a Síria de prosseguir, com o apoio da Rússia, a ofensiva final para dominar o seu próprio território, quase um milhão de refugiados procura abrigo na União Europeia.

A Turquia anunciou no domingo uma grande ofensiva contra o governo sírio na região de Idlib deixando em aberto pela primeira vez uma guerra entre os dois países. O envolvimento direto de Ancara é cada vez maior depois de anos a financiar, treinar e armar grupos de jihadistas que combatiam neste conflito que dura há quase nove anos.

Depois de sofrer as piores perdas militares em décadas num único ataque, é o prestígio do governo nacionalista turco que está em causa. Com ambições estratégicas no vizinho do sul e na Líbia, o gigante da NATO quer mostrar ao mundo que não tem pés de barro.

A declaração chegou três dias depois da morte de 36 soldados num ataque conjunto da aviação e artilharia síria e russa que também provocou 30 feridos. Apesar de roçar o absurdo, o presidente Recep Tayyip Erdogan jurou retaliar e exigiu que as tropas sírias se retirassem do seu próprio território.

De acordo com o New York Times, o ministro da Defesa da Turquia, Hulusi Akar, anunciou a contra-ofensiva na televisão num comunicado também distribuído pela agência estatal de notícias Anadolu afirmando que a operação no norte da Síria tinha como objetivo acabar com a guerra e deter uma ofensiva do governo sírio que estava a provocar milhares deslocados sírios.

Mais do que perguntarem-se se ia acontecer, muitos analistas questionavam-se antes sobre quando é que se poderia vir a dar uma confrontação militar entre a Síria e a Turquia. Era um desfecho previsível numa região cada vez mais instável num tabuleiro permeável à movimentação das peças do xadrez geopolítico mundial. 

Numa guerra que dura há já nove anos e em que o governo sírio, encabeçado por Bashar al-Assad, conseguiu derrotar a ofensiva do Estado Islâmico com o apoio fundamental da Rússia, do Irão e do Hezbollah, parte do território continua fora do controlo de Damasco. Essencialmente, são três zonas: uma parte a nordeste controlada pelos curdos com o apoio militar dos Estados Unidos, uma zona a noroeste controlada por extremistas islâmicos com o suporte bélico da Turquia e os Montes Golã, ocupados por Israel desde 1967.

A Turquia garante que todos os esforços militares vão no sentido de “garantir um cessar-fogo, impedir a migração e parar o fluxo de sangue", sublinhou Akar, "e assim trazer paz e estabilidade para a região o mais rapidamente possível".

Volte-face da Turquia

Mas como em todos os jogos de tabuleiro nem sempre o que parece é. Se na primeira fase da guerra, a Turquia movimentou-se alinhada com os Estados Unidos, União Europeia, Arábia Saudita e Israel, a tentativa de golpe de Estado contra Erdogan em 2016 empurrou o presidente turco para os braços da Rússia. Com as autoridades turcas a acusarem os Estados Unidos de estarem por trás da intentona, o Ocidente viu com estupefação o seu maior aliado na região estabelecer acordos militares e económicos com Moscovo. É uma aliança frágil que encontra na Síria e na Líbia os principais obstáculos não obstante Ancara medir bem as palavras quando fala sobre o envolvimento da Rússia na guerra a pedido do governo sírio.

"Nós não pretendemos confrontar a Rússia", afirmou também o ministro turco da Defesa. "O nosso único objetivo ali é deter o massacre do regime”. Segundo o New York Times, Erdogan vai encontrar-se com o presidente Vladimir Putin esta quinta-feira em Moscovo no momento de maior tensão desde a aproximação entre os dois países. No domingo, as autoridades sírias anunciaram uma zona de exclusão aérea sobre a região de Idlib e a Rússia advertiu que não tinha condições para garantir a segurança dos aviões turcos sobre o território sírio.

O envio de cerca de 7 mil soldados turcos denuncia uma escalada no momento em que as forças sírias se preparavam para retomar Idlib numa operação que levou à fuga de cerca de um milhão de pessoas para a fronteira com a Turquia. Só na semana passada, a Turquia abateu dois helicópteros e dois bombardeiros sírios durante a contra-ofensiva para reconquistar a cidade estratégica de Saraqib, que fica na principal auto-estrada que liga Alepo a Damasco.

O New York Times noticiou que Ancara procurou o apoio dos Estados Unidos e de outros aliados da NATO na sua tentativa de frustrar a ofensiva síria e russa em Idlib. A NATO descarta o envolvimento direto mas Jens Stoltenburg, secretário-geral da aliança atlântica, afirmou depois de uma reunião de emergência na sexta-feira a organização está a fornecer aos turcos vigilância aérea por radar sobre a Síria.

A Turquia terá ainda pedido aos Estados Unidos que lhe fornecessem mísseis Patriot para fazer face ao poder aéreo russo e sírio mas Washington recordou que continua à espera que Erdogan dê ordens para inutilizar o sistema russo de defesa antimíssil S-400 que Ancara comprou no ano passado a Moscovo.

Demonstração de força no Mediterrâneo

Neste contexto de tensão, os Estados Unidos e a Rússia enviaram meios navais para o Mediterrâneo. O porta-aviões norte-americano USS Eisenhower atravessou o Estreito de Gibraltar e entrou no Mar Mediterrâneo no sábado, informou a Al Masdar citando a página de monitorização do tráfego marítimo Marinetraffic. Segundo os detalhes do site, o porta-aviões é escoltado por vários navios de guerra, incluindo dois cruzadores de mísseis teleguiados e três destruidores. Além disso, um comunicado da Marinha dos EUA divulgado na quarta-feira passada afirmou que a esquadra, chamada Ike, está equipada com seis caças e dois helicópteros de combate.

As fragatas russas Almirante Makarov e Almirante Grigorovich também entraram no Mediterrâneo na sexta-feira, depois de levantarem âncora no porto de Sebastopol, no Mar Negro.

Vaga de refugiados provoca revolta

Entretanto, desenrola-se um novo drama humanitário nas fronteiras com a União Europeia depois de a Turquia ter decidido suspender o acordo migratório usando, uma vez mais, os refugiados como moeda de troca. Na segunda-feira, uma criança morreu afogada ao largo da costa da ilha grega de Lesbos.

De acordo com a Guarda Costeira, citada pelo El País, a criança estava num barco insuflável que transportava 48 refugiados. A embarcação chegou à fronteira marítima com a Grécia escoltada por um barco turco e em alta velocidade. Já com a Guarda Costeira à sua frente, a tripulação decidiu virar o barco, uma prática comum recomendada pelos traficantes para forçar um resgate, de acordo com o relato das autoridades gregas.

Na fronteira terrestre, onde milhares de pessoas se apinham à espera que o portão que as separa da UE se abra, repetiram-se as cenas dos últimos dias: refugiados atirando pedras e ramos de árvores em chamas, alegadamente encorajados pelos próprios turcos, e a polícia grega respondendo com gás lacrimogéneo.

Como se o drama humano não fosse suficiente, a encruzilhada de reprovação entre os dois países também está a tornar-se cada vez mais virulenta. A Turquia acusa a Grécia de disparar em pessoas inocentes e a Grécia alega que os guardas fronteiriços turcos incentivam os migrantes a cruzar a vedação.

"Os migrantes têm tido uma grande ajuda do lado turco. Ontem [domingo] uma patrulha com um alicate na mão cortou o arame da vedação para ajudar os migrantes a atravessar para território grego. Claro, a nossa patrulha impediu esse ato e a cerca foi restaurada", afirmou Stavros Tsiamalidis, autarca de Kastana, onde fica o posto fronteiriço, à estação privada de televisão Skai.

Nas ilhas do Mar Egeu, a chegadas de embarcações não pára. Ao longo do domingo, quase mil refugiados chegaram à costa e a guarda realizou mais de vinte operações de resgate. A situação na segunda-feira foi semelhante.

Nalgumas ilhas, como Lesbos, o ambiente entre a população é tenso com as autoridades locais  a decidirem cortar o tráfego da parte nordeste - onde se encontra uma das praias que aonde mais chegam refugiados e onde se encontra o campo de refugiados superlotado, que abriga quase 20 mil pessoas.

A polícia foi obrigada a intervir depois de os habitantes desta ilha incendiarem no domingo um centro de acolhimento de refugiados, que estava desocupado, na praia de Skala Sykamineas, segundo um fotógrafo da AFP.  O centro, que foi gerido pelo Alto Comissariado da ONU para os refugiados, foi encerrado no fim de janeiro. Os migrantes que estiveram antes no local foram deslocados para um outro centro na ilha. Cerca de 150 habitantes concentraram-se em redor do centro após a chegada de novos migrantes a Skala Sykamineas e incendiaram-no parcialmente, com receio que fosse reaberto.

O governo grego decidiu suspender o direito de asilo por um mês e anunciou que vai devolver  ao seu país de origem todos aqueles que entrarem irregularmente. Simultaneamente, intensificou os seus contactos com a União Europeia e pediu ajuda à Frontex. O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, visitou a zona fronteiriça na terça-feira acompanhado do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli.

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