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Turquia cada vez mais próxima do Kremlin
Mundo 4 min. 18.07.2019

Turquia cada vez mais próxima do Kremlin

Turquia cada vez mais próxima do Kremlin

Foto:AFP
Mundo 4 min. 18.07.2019

Turquia cada vez mais próxima do Kremlin

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
A chegada das primeiras peças de sistema russo de defesa anti-aéreo à Turquia provocam estupefação entre os membros da NATO que vêem o segundo maior exército da aliança atlântica consumar a sua relação com a Rússia. Os EUA suspendem a venda de caças F-35 a Ancara e Moscovo acena com os SU-35.

A relação entre a Turquia, Washington e a NATO viveu esta semana uma importante prova de fogo com a chegada das primeiras peças do sistema de defesa anti-aéreo e anti-mísseis S-400, de produção russa, a uma base militar perto de Ancara. Como resposta a um sistema que é incompatível com os mecanismos defensivos da NATO, os Estados Unidos já anunciaram sanções que vêem, com os restantes aliados, um dos mais antigos membros da aliança atlântica alinhar-se com Moscovo.

“A primeira encomenda do equipamento de defesa anti-míssil S-400 começou a chegar à base aérea Murted em Ancara este 12 de julho de 2019”, confirmou o Ministério turco da Defesa no Twitter. “O processo decorre como se tinha previsto. Coordenámos as autorizações para os aviões e para o pessoal”, afirmou o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlut Çavusoglu. O sistema vai ser montado por uma equipa de técnicos turcos e russos no aeroporto militar de Murted e entra em funcionamento a 10 de setembro, de acordo com o Haberturk.

Se durante décadas foi um dos principais aliados dos Estados Unidos, a aproximação da Turquia à Rússia é vista cada vez mais com estupefação. A base militar que está a receber o material chamava-se Akinci e foi precisamente dali que se dirigiu o golpe de Estado de 2016, o que atribui um forte simbolismo à operação uma vez que foi a partir do levantamento militar que Ancara reforçou a sua relação estratégica com Moscovo. A aproximação do segundo maior exército da aliança atlântica a Vladimir Putin é um facto consumado depois de a Turquia ter acusado o Ocidente de estar por trás da intentona militar de 2016.

Para trás fica uma tensa relação com a Rússia que atingira nos últimos anos episódios sombrios como o abate pela Turquia, em 2015, de um caça Su-24 russo em território sírio e, no ano seguinte, o assassinato do embaixador da Rússia em Ancara.

O governo de Recep Tayyip Erdogan defende que escolheu as baterias russas S-400, que adquiriu por 2500 milhões de dólares, com a opção de mais duas, depois de fracassarem as conversações com fabricantes norte-americanos e europeus que não quiseram transferir este tipo de tecnologia. Outra das justificações de Ancara, de acordo com o El País, é o facto de a Grécia ter também um sistema defensivo russo, o S-300, instalado em Creta em 1998.

No princípio da década, uma alta patente do exército turco redesenhou a estratégia de defesa aérea do país apostando nos sistemas de mísseis no lugar de depender unicamente na capacidade de combate das suas aeronaves. Depois do golpe militar, em 2016, quando o governo mandou prender ou reformar compulsivamente 260 pilotos, as forças armadas têm menos pilotos do que caças em funcionamento.

Na sexta-feira, Bruno Lete, especialista em defesa do think tank German Marshall Fund, afirmou ao El País que “o S-400 é um bom sistema, muito bom para derrubar aviões”. Tem uma capacidade de 60 quilómetros contra misseis balísticos e de 250 contra aviões, que pode ser ampliada até aos 400 quilómetros se utiliza os novos misseis de longo alcance 40N6E. Mas de acordo com o especialista, “o problema é que ainda que o S-400 tenha o seu próprio radar estes sistemas normalmente são usados em conjunto com outras unidades de defesa aérea, com mísseis caças e radares, coordenados através de avançados sistemas informáticos. Mas a NATO não vai permitir que o sistema russo se conecte ao seu sistema. Ou seja, o S-400 da Turquia não vai poder usar os radares europeus”.

A aquisição dos S-400 por Ancara já provocou o cancelamento por parte dos Estados Unidos da venda de uma centena de F-35, o mais avançado avião de combate norte-americano. Washington alegou que Moscovo podia ter assim acesso a informação confidencial sobre os caças. Erdogan já fez saber que a Turquia vai denunciar a decisão junto de um tribunal internacional uma vez que Ancara financiou parte do programa dos F-35 e há empresas turcas a fabricar parte das peças destas aeronaves. Para além destas represálias, a Turquia enfrenta também sanções económicas por manter relações com Moscovo.

 A suspensão da venda dos F-35 é um duro golpe para Ancara. Os turcos pretendiam sunstituir os seus velhos F-16 por modernos F-35. E o afastamento da Turquia do grupo que produz componentes do F-35 pode ser um golpe mortal na sua indústria aeronáutica é muito dependente dos contratos de fornecimento de 937 componentes do caça no valor de 12 mil milhões de dólares, segundo a Foreign Policy. 

A Rússia não perdeu tempo e anunciou estar disponível para vender a Ancara caças Sukhoi Su-35 se esta o desejar.  “Se os nossos parceiros turcos expressarem esse desejo, estamos preparados para trabalhar na entrega de Su-35”, garantiu o presidente da empresa estatal russa Rostec, Sergei Chemezov, citado pela Associated Press.

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