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Trump faz de cobranças difíceis na Cimeira da NATO

Trump faz de cobranças difíceis na Cimeira da NATO

Foto: AFP
Mundo 6 min. 11.07.2018

Trump faz de cobranças difíceis na Cimeira da NATO

O presidente dos EUA continua os seus ataques no Twitter aos seus aliados europeus, a quem acusa de roubar os contribuintes norte-americanos, enquanto faz elogios a Vladimir Putin com quem tem encontro a 16 de julho.

“A muito curto prazo, o problema mais importante que a UE precisa de enfrentar é Donald Trump. O presidente dos EUA representa uma ameaça clara e iminente à segurança militar e à prosperidade económica da UE. O objetivo não deve ser apaziguá-lo, mas abordar a maior fraqueza da União: a falta de resiliência”, escrevia esta semana o editor do Financial Times Wolfgang Münchau, sobre a Cimeira da NATO que decorre até quinta-feira em Bruxelas.

Terça-feira, já em pleno voo para Bruxelas, Trump atacou os seus aliados europeus, escrevendo em maiúsculas, na sua conta de Twitter, que “os países da NATO têm de pagar MAIS e os Estados Unidos pagar MENOS”. “Muitos países da NATO, que é suposto nós defendermos, não só não cumprem o seu compromisso de 2% (que é baixo), como se mantêm há muitos anos delinquentes dos pagamentos que nunca fizeram. Vão reembolsar os EUA?”, questionou.

Já em Bruxelas, no final do dia, na inauguração de um pequeno monumento de homenagem às vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001, na nova sede da NATO, Donald Trump não se coibiu de puxar as orelhas aos líderes europeus que o escutavam: “Muitas nações devem quantidades enormes de dinheiro dos anos anteriores”, insistindo, “mesmo 2% [de percentagem do PIB para gastos militares] é insuficiente para tapar o buraco, é só o mínimo para afrontar a ameaça real e feroz que temos pela frente”, argumentou Trump, cuja política externa privilegia o aumento dos gastos militares e os cortes nas ajudas para o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos.

A crítica recorrente do presidente dos EUA deve-se a apenas a Grécia, Estónia, Reino Unido, Letónia, Polónia, Lituânia, Roménia e França cumprirem, ou estarem perto de o fazer, a meta de 2% de gastos militares, que os países da NATO devem atingir até ao ano de 2024. E apesar de não ser o primeiro presidente dos EUA que critica a falta de solidariedade nos gastos militares dos outros países da NATO, nenhum presidente norte-americano tinha atacado diretamente os seus aliados numa cimeira, devido a isso.

Depois de enviar cartas a dez dirigentes europeus, queixando-se do alegado incumprimento dos gastos de defesa de 2% acordados an Cimeira de Gales, o ocupante da Casa Branca continuou o seu bombardeamento de tuítes: “Os EUA gastam muito mais na NATO que qualquer outro país” e que “segundo alguns cálculos pagamos 90% [das despesas de NATO]”, o que “não é justo nem aceitável”.

Na realidade as acusações de Trump não são totalmente factuais, em Gales ficou estabelecido atingir os 2% do PIB em gastos de defesa em 2024, o que foi acordado é caminhar para essa meta. E, para além disso, os EUA não contribuem com 90% do orçamento da NATO, mas como 22%. Outra coisa é o volume dos gastos militares dos EUA, em comparação com os seus aliados europeus: os norte-americanos atingem 67,5% dos gastos militares totais dos 29 países da NATO, mas isso inclui as bases militares dos EUA, espalhadas pelo todo o globo, muito longe da área de intervenção da NATO.

Portugal e Luxemburgo muito longe da meta

Portugal consagra atualmente cerca de 1,36% do PIB a despesas em Defesa, ainda longe do objetivo de 2% acordado entre os países membros da NATO, para 2024, segundo os dados divulgados pela Aliança Atlântica. De acordo com esses dados – para 2017 e 2018 trata-se ainda de estimativas -, Portugal destinou no ano passado 2.398 milhões de euros a despesas em Defesa, o que equivale a 1,24% do seu PIB, devendo este ano aumentar para 2.728 milhões de euros, o equivalente a 1,36% da riqueza nacional. Já o Luxemburgo é o país da NATO que menos percentagem do PIB consagra para despesas militares: de acordo com previsões da Aliança Atlântica, prevê-se que gastará cerca de 0,55% do PIB em despesas militares, em 2018.

O amigo Putin e os inimigos alemães

Os diplomatas europeus receiam que se repita o cenário catastrófico da Cimeira do G7, em que Donald Trump atacou o primeiro-ministro do Canadá e vetou as conclusões do encontro. Uma crise na NATO em vésperas do encontro entre os presidentes dos EUA e da Rússia não acalmam os receios dos dirigentes europeus. O inquilino da Casa Branca carrega com o dedo na ferida, antes de sair de Washington declarou que a reunião com Putin “poderia ser mais fácil” do que a Cimeira da NATO.

As divergências sobre o clima, as questões comerciais ou o rasgar do acordo nuclear com o Irão são apenas os últimos pontos de um conflito transatlântico. Trump ganhou o hábito de “chatear os seus aliados e de beijar os seus adversários”, disso um diplomata europeu ao Le Monde.

A Alemanha de Angela Merkel é uma espécie de bode expiatório de Donald Trump, dado que as suas despesas na defesa estão muito longe da meta dos 2% (1,24%), porque mantém uma política migratória generosa e, sobretudo, tem um excedente comercial superior a 51 mil milhões de euros. O homem da Casa Branca não se cansa de martelar que há demasiados Mercedes na Quinta Avenida e “não suficientes Chevrolet na Alemanha”.

Num comício em Montana a 5 de julho, Donald Trump não se coibiu de fazer uma ameaça direta: “Sabe, Angela, nós protegemo-vos e isso significa muito mais para vocês, até porque eu não sei que proteção ganhamos nós em vos proteger”, acrescentando, “eu vou dizer na NATO: comecem a pagar as vossas faturas. Os EUA não vão fazer tudo”, avisou os seus aliados europeus, momentos antes de referir que ia-se encontrar com o seu homólogo russo a 16 de julho, em Helsínquia.

Posições que são criticadas pelo especialista em questões internacionais Bernardo Pires de Lima, no seu artigo no Diário de Notícias, “o dado novo é que o atual presidente resolveu transformar uma necessária mas doseada pressão americana num bullying constante aos europeus num momento extremamente complexo para a sustentabilidade da coesão continental. Nesta última semana, num comício no estado do Montana, o presidente americano chegou mesmo a dizer aos seus partidários: "A Europa mata-nos no comércio e na NATO." Nunca um presidente ousou chegar a este nível”, afirma. “Só falta mesmo passar a usar as T-shirts que Matteo Salvini gosta de ostentar com a cara de Putin estampada. Como dizia o general McMaster, ex-conselheiro de segurança nacional de Trump, 'o presidente pensa que pode ser amigo de Putin. Não percebo porquê nem porque quer ser'. Como sabemos, o general não durou muito tempo no cargo”, ironiza o especialista.

A reposta ao querido Donald

O presidente do Conselho da Europeu, Donald Tusk, que já anteriormente tinha afirmado sobre Trump, que “como amigos como Trump a Europa não precisa de inimigos”, escreveu uma missiva ao “Querido presidente Trump” , em que garante : “A América não tem nem terá nenhum aliado melhor melhor que a Europa”. Nessa carta escrita antes da cimeira, a mensagem aos participantes é clara: “Querida América, aprecia os teus aliados, ao fim ao cabo não tens assim tantos. Querida Europa, aumenta as despesas militares”.

Desta cimeira deverão sair a decisão de saírem planos nacionais, em que cada país vai dizer como planeia atingir a meta de 2% em 2024 e uma implicação maior da Aliança Atlântica na chamada guerra contra o terrorismo.

Nuno Ramos de Almeida

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