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Trump até pode perder, mas não é o final do trumpismo
Editorial Mundo 3 min. 04.11.2020

Trump até pode perder, mas não é o final do trumpismo

Trump até pode perder, mas não é o final do trumpismo

Foto: AFP
Editorial Mundo 3 min. 04.11.2020

Trump até pode perder, mas não é o final do trumpismo

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Mesmo que no fim dos recursos judiciais Trump seja derrotado, é preciso perceber como chegou a Presidente e pode ficar. Trump é um sintoma perigoso. É um sintoma com a mão nos botões nucleares, mas não deixa de ser um fenómeno da crise em que vivemos, mais que a origem de todos os males.

Na altura que escrevo não sei o resultado das presidenciais dos EUA. Se bastantes coisas correrem mal, o meu leitor também não saberá na quarta-feira quem ganhou.

Uma derrota de Trump, de uma forma clara, pode ser um passo em direção a um mundo menos perigoso. Mas sejamos claros: Trump é mais um sintoma grave e agudo da situação planetária em que vivemos do que é a sua causa.

E da mesma maneira que o racismo estrutural não acabou com a vitória de Obama em anteriores eleições nos EUA, também as circunstâncias que levaram à eleição do atual Presidente dos EUA continuam a existir.

Donald Trump governou para os ricos, baixando os impostos dos muitos ricos até quase nada contribuírem para a sociedade. Mas se tivesse apenas os votos destes, por muito dinheiro que tenham, não teria sido eleito em 2016.

A sua eleição deve-se a uma manobra ideológica que permite que um multimilionário, que poucos impostos paga, apareça como o campeão contra o sistema que o criou e alimentou.

A chamada classe operária branca transferiu grande parte dos seus votos para as listas republicanas, porque a política dos Governos democratas e republicanos de uma determinada elite polícia económica e social privilegiou a deslocalização de fábricas, a destruição da indústria e um discurso ideológico em que deixam de haver comunidades e problemas sociais, para tudo serem meros problemas individuais que podem ser resolvidos a golpes de empreendorismo e com páginas de auto-ajuda. Essa vitória ideológica deu espaço a um personagem como Trump, enriquecido na especulação imobiliária e popularizado por um programa de televisão espetáculo, aparecer como salvador das pessoas que trabalham.

Os trabalhadores foram divididos por um racismo que sempre serviu para impedir que se unissem, e foram terreno fértil para os oportunistas de turno, que mais nada fizeram que continuar a dar mais dinheiro aos mais ricos.

Todos sabemos que não são as raças, uma realidade biologicamente inexistente, que fazem o racismo: é o racismo que cria as raças. E essa ideologia é móvel e produz uma hierarquia de conveniência. Ainda hoje, alguns meios de comunicação social dos EUA, não reconhecem os portugueses como maioritariamente “caucasianos”, mas como “hispânicos”. Há poucos séculos a nobreza inglesa apelidava os irlandeses de sub-humanos. O racismo é um mecanismo de criação de desigualdade. E para muita gente é a forma como a luta de classes aparece na sua vida.

Se formos ver a evolução social, política e eleitoral nas últimas décadas, podemos verificar que há poucas décadas a maioria dos trabalhadores brancos votava democrata, mas nessa altura a taxa de sindicalização era superior a 60%, e hoje mal atinge, nessas mesmas camadas, os 10%.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bom motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats, em o “O Segundo Advento”, “Aos melhores falta convicção, e aos piores / sobeja apaixonada intensidade”.

Existem, para o filósofo Zizek, quatro antagonismos que podem permitir que o capitalismo global, que gera os racistas e os fundamentalistas, tenha que ser destruído: “A ameaça iminente de catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada da chamada ‘propriedade intelectual’, as implicações sócio-éticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (sobretudo a biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros, desigualdades sociais e bairros da lata.” É este aspeto final que politiza e dá tom às contradições existentes no sistema. E enquanto não houver uma força política para resolver estes problemas, haverá sempre um Trump a espreitar.

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