Troca de ataques verbais entre China e Estados Unidos
Troca de ataques verbais entre China e Estados Unidos
Se durante algum tempo, o combate à pandemia conseguiu meter em água morna as diferenças entre os diferentes governos, nos últimos dias subiu de tom a retórica política sobre a eventual responsabilidade da China pela doença. Abertamente, países com lideranças mais à direita como os Estados Unidos, Brasil e Israel apontaram o dedo ao gigante asiático. Mas sem a estridência do presidente norte-americano, vários líderes europeus questionaram esta semana a versão chinesa sobre a origem, a gestão e as números da pandemia. Os governos da França e do Reino Unido encabeçaram precisamente essa subida de tom.
“Esperamos que a China nos respeite como ela deseja ser respeitada”, declarou na segunda-feira o ministro francês de Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, segundo o El País. “Nada pode voltar a ser como antes” enquanto a China não esclarecer de forma cabal tudo o que está relacionado com o vírus, observou também na semana passada o seu homólogo britânico, Dominic Raab, provisoriamente à frente do governo enquanto o primeiro-ministro, Boris Johnson, se recupera da doença.
O facto é que a pandemia exacerbou as rivalidades geopolíticas. Entre os Estados Unidos e a China, os europeus tinham mantido um perfil discreto até recentemente. Uma exceção foi Josep Borrell, alto representante para a Política Externa da União Europeia, que em 24 de março alertava para o que chamou de “política da generosidade” como arma de influência geopolítica na “batalha global das narrativas”. Uma retórica adoptada quando a União Europeia se mostrava incapaz de lidar com a pandemia enquanto imagens de aviões chineses transportando material médico para a Europa enchiam os telejornais.
Agora, a China decidiu responder à Casa Branca subindo também o tom. "Nos anos 80, a SIDA foi inicialmente descoberta nos Estados Unidos e depois espalhou-se pelo mundo. Alguém pediu aos Estados Unidos que assumissem a responsabilidade por isto?", questionou o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang. "O vírus é um inimigo comum da humanidade que pode atacar a qualquer momento e em qualquer lugar. Como outros países, a China é também uma vítima, não um criminoso, quanto mais um cúmplice da covid-19", afirmou o porta-voz.
Geng insistiu que a China tomou as medidas mais completas, rigorosas e exaustivas para conter a COVID-19, num espírito aberto, transparente e responsável. "A China fez enormes sacrifícios, acumulou experiências valiosas e deu contributos significativos para a resposta global. A comunidade internacional está a testemunhar e a aplaudir os esforços e os progressos da China", sublinhou. Face às grandes crises de saúde pública e às doenças infecciosas, a comunidade internacional deve mostrar solidariedade e trabalhar em conjunto, em vez de recorrer a acusações mútuas ou exigir retribuição ou responsabilização, afirmou, acrescentando que também a gripe H1N1 surgiu nos Estados Unidos propagando-se a mais de 214 países e regiões em 2009. “Alguém pediu uma indemnização aos Estados Unidos?", perguntou Geng que foi mais longe e referiu ainda os Estados Unidos como responsáveis pela crise financeira de 2008.
"Os Estados Unidos precisam de compreender que o seu inimigo é o vírus, não a China", afirmou. "Atacar e desacreditar outros países não compensará o tempo e as vidas perdidas". "Esperamos que o lado americano respeite os factos, a ciência e o consenso internacional e que deixe de atacar e culpar a China por nada, que deixe de fazer declarações irresponsáveis e que, em vez disso, se concentre na luta contra a epidemia a nível interno e na promoção da cooperação internacional", acrescentou.
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