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Telmo Baltazar. “O sucesso de Cristiano Ronaldo também é resultado da União Europeia”
Mundo 9 min. 17.10.2019 Do nosso arquivo online

Telmo Baltazar. “O sucesso de Cristiano Ronaldo também é resultado da União Europeia”

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Telmo Baltazar. “O sucesso de Cristiano Ronaldo também é resultado da União Europeia”

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Mundo 9 min. 17.10.2019 Do nosso arquivo online

Telmo Baltazar. “O sucesso de Cristiano Ronaldo também é resultado da União Europeia”

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
O conselheiro de Jean-Claude Juncker diz que o Presidente da Comissão Europeia "é um grande amigo dos portugueses". De saída, Telmo Baltazar reforçou a convicção europeísta.

Telmo Baltazar é alto funcionário da Comissão Europeia desde 1995 e foi o principal conselheiro político de Jean-Claude Juncker durante o mandato que terminará a 31 de outubro. 

Nos últimos 5 anos, “teve o privilégio” de assessorar o presidente em matérias como a união energética, a ação climática, ambiente e pescas e também as relações do Berlaymont com o Parlamento Europeu. 

Em 2017, foi-lhe atribuída a comenda da Ordem do Infante D. Henrique pelos serviços prestados ao país. No momento em que está a arrumar o gabinete no 13º andar, e ainda sem conhecer as próximas funções, vê a União Europeia como o bastião do progresso. 

Qual a importância da União Europeia (UE) hoje?

A UE permite a cada um dos seus habitantes ser mais do que seria se vivesse confinado ao território onde nasceu. Permite-nos viajar e emigrar, garantindo uma série de direitos comuns. Todos devíamos visitar a pequena cidade luxemburguesa de Schengen, pelo menos uma vez na vida. Dou o exemplo do futebol: o sucesso do Cristiano Ronaldo, para lá do talento e profissionalismo, é também resultado do que é possível na UE. Determinados mercados, como o futebol, só cresceram porque foram eliminadas muitas barreiras. Foram criadas diretivas europeias que permitem relações económicas ágeis, a retransmissão dos jogos – o que permite potenciar negócios e dar mais chances aos que seguem a profissão.

O mercado europeu do futebol mudou.

O futebolista é um trabalhador comunitário, e como não pode haver discriminação sobre a origem, as equipas podem ter até 11 jogadores da UE. Isso mudou o panorama.

Está a arrumar o escritório para sair. Que balanço faz da Comissão Juncker?

Tivemos muitas crises. Viemos do final de 2014, quando a Europa saía da mais grave crise económico-financeira da sua história, com países ainda sob auxílio, como Portugal e a Grécia. Foi essencial ter ao leme da Comissão Europeia (CE) alguém com grande sensibilidade para o impacto social das medidas. Que não deixasse que as decisões fossem tomadas aplicando de forma cega fórmulas burocráticas. Também houve a crise dos refugiados, que começou em 2015, e que ainda estamos a gerir. Depois houve o Brexit. Mas além disto, tivemos sempre a preocupação de desenvolver uma agenda positiva, como foi todo o trabalho para a proteção climática, que nos permite agora uma liderança a nível mundial, bem como a criação do pilar europeu dos direitos sociais.

Que é o quê?

Foi criado em 2017 e é a proteção mínima garantida dos direitos sociais das pessoas na Europa. Traduz-se numa série de princípios e valores a que nova presidente da CE irá agora dar mais vida. O presidente Juncker defendia que na Europa a preocupação com as pessoas fosse central. E que os cidadãos fossem protegidos por princípios comuns, como o de assegurar o acesso a bens básicos, como água e energia e licença de parto para as mulheres. Não é apenas considerar um direito, é assegurar que os tenham de facto. E quem quiser ser membro da UE tem que aceitar um pacote de direitos mínimos. São as regras do clube.

Como foi trabalhar nesta equipa?

Um grande privilégio. Por vários motivos. Um deles é que o presidente Juncker é um grande amigo dos portugueses. Acompanhei-o a várias visitas a Portugal. Quando foi à tomada de posse do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, pediu para ir ver a nova estátua do Eusébio, porque em criança ouvia os vizinhos portugueses a festejarem os golos dele. Por outro lado, o facto de ser luxemburguês dá-lhe características únicas. O presidente Juncker fala várias línguas, mas a sua língua materna nem sequer é reconhecida nas reuniões oficiais. Isto, em vez de um handicap, é uma vantagem. Os luxemburgueses percebem como a UE reforça a sua identidade e permite a alguém de um pequeno país presidir aos destinos de 500 milhões de pessoas. Durante estes anos, ele foi um grande intérprete do interesse comum dos europeus.

Muita gente conhece o presidente Juncker pelo lado anedótico. Como aquelas imagens com os chefes de Estado, em Bruxelas, onde foi visto a tropeçar.

Há 30 anos teve um grave acidente de viação e desde então tem dificuldades de locomoção e sofre de ciática. Nesse caso, teve uma crise de ciática no meio de uma foto de família de líderes e foi auxiliado por António Costa. Quanto ao resto, ele é uma pessoa muito afetuosa, com um estilo próprio, invulgar na política. Quando nos vê pela manhã dá dois beijinhos, diz bom dia em português.

Mas ele a si dá dois beijinhos?

Tem um tratamento muito afável com o staff e obriga-nos a tratá-lo por tu e pelo nome. Em determinadas circunstâncias, isto não é bem visto. E tem uma relação pessoal afável com vários líderes do mundo. Conta que já explicou o que é a UE a muito presidentes americanos. Naquela cimeira dos G7, de julho de 2018, que deu uma foto muito famosa onde o Trump tem os braços cruzados e está a chanceler alemã e o presidente Macron, falava-se que o Juncker não estava. Duas semanas depois, foi convidado à Casa Branca e conseguiria um acordo que tem sido considerado como uma trégua. Se há dois blocos que não estão em guerra comercial hoje são a UE e o Estados Unidos. Este acordo permite que a UE tenha uma grande voz comercial no mundo.

Se tivesse que escolher um momento desta comissão, qual seria?

A intervenção direta de Juncker para que Portugal e Espanha – era o que estava em discussão – não fossem punidos com sanções devido às dificuldades orçamentais. Marcou-me muito, porque foi o corolário de que a presidência de uma instituição como a CE, não é apenas a verificação se todas as regras foram cumpridas. E na altura, em 2016, havia a tentativa de reagir friamente, cortando fundos. O presidente Juncker mostrou que a comissão não é um corpo de burocratas cegos.

Para os portugueses a palavra Bruxelas é sinónimo de castigo.

Olha-se para Bruxelas como um deve e haver. Em que se vai a uma reunião e é preciso dizer: eu ganhei. Ora a UE é o que nos mantém unidos, é esta capacidade de negociar, de estar numa mesa de negociações entre governos, comissários, representantes do Parlamento Europeu. Soluções que depois são codificadas no direito da UE e apoiadas por programas de investimento, por programas de trocas. Nos últimos 25 anos todos os líderes ingleses voltavam das reuniões a culpar Bruxelas. Quando votaram no referendo, os eleitores no Reino Unido só se lembravam que Bruxelas era mau e que impunha a curvatura das bananas. Mas Bruxelas não é um ringue de boxe. 

Não tem pena que as áreas que lhe foram atribuídas, a transição energética, o ambiente, sejam agora a prioridade da próxima comissão?

Pelo contrário. É um reconhecimento do trabalho sólido que a comissão Juncker fez, ao qual não foi dada a visibilidade necessária. Houve um trabalho de formiga da comissão Juncker que identificou como uma das suas dez prioridades, a união energética e a política de ação climática. Foi devido à União Europeia que os Acordos de Paris foram assinados, graças às alianças que fizemos.

Foi durante esta comissão?

Sim. Estive lá com o presidente Juncker, 15 dias após os atentados de novembro de 2015 em Paris. Juncker fez um um discurso marcante em que fala da dor de um pai que perdeu um filho e da obrigação de os líderes encontrarem um acordo para salvar o planeta. Foi também devido à UE que a ratificação dos Acordos de Paris, um ano e meio depois, foi possível. Hoje, a UE é a única grande economia do mundo que ratificou todos os compromissos assumidos e que estão codificados em leis. Estou muito contente que a partir desta base sólida se possa construir algo mais.

A reunião de 23 de setembro na ONU de ação climática foi uma decepção?

Pelo contrário. A transição vai requerer uma transformação profunda das nossas economias. E isso precisa ser transmitido às empresas, às famílias. Hoje já falamos de emergência climática. Mas a primeira preocupação e, insistimos muito nisso, é a dimensão social. Muitas pessoas vão necessitar de ajuda, regiões inteiras serão afetadas. E a UE tem que garantir formas de solidariedade para todos. A transição terá que ser acompanhada pelos poderes públicos e por investimentos privados. A ação climática vai necessitar de ser global e vai ter um grande impacto geopolítico. Por isso, é do nosso interesse, europeus, sermos os primeiros e os mais rápidos e exigirmos nos acordos internacionais, tal como há cláusulas de direitos humanos, cláusulas ecológicas. Ainda não chegámos ao ponto de viragem, mas estamos cada vez mais perto.

Como vê as manifestações pelo clima?

São muito importantes. Mas não é só ouvir nas manifestações. Os políticos têm que sair da torre de marfim, e ir ao encontro das pessoas. O Jean-Claude Juncker faz muito isso. Todos os anos faz encontros com os cidadãos de Saint-Vith, uma pequena povoação na região alemã da Bélgica, muito perto do norte do Luxemburgo. Em Coimbra, depois do honoris causa fez questão de encontrar-se com os estudantes no Teatro Gil Vicente. E em Bucareste, na Roménia, também o acompanhei num encontro com mais de mil pessoas num auditório. Um político não precisa de responder imediatamente, mas tem que ouvir as perguntas e as preocupações dos cidadãos.

Acha que há esforços reais no sentido de se combater as alterações climáticas?

Sim. A minha função permitiu-me ter acesso a pessoas de diferentes quadrantes. De tudo, o mais relevante são as mudanças no setor financeiro. Também os poderosos começam a ser afetados. Por exemplo, os filhos das elites de Pequim estão a ficar muito doentes e a morrer com a poluição. Isto levará a China vai mudar. Nos EUA, as pessoas estão a ver a sua qualidade de vida deteriorar-se e começam a exigir que os seus investimentos sejam aplicados em projetos ‘limpos’. O ponto de viragem vai vir dos serviços financeiros. Idealmente devia haver uma ‘credit rating agency’ para investimentos limpos ou verdes. Tal como há as agências de notação para as empresas, tendo em vista a capacidade de um estado ou uma empresa pagar, deveria haver também tendo em vista a ‘pegada ecológica’ dos projetos. E quando começar a haver cada vez mais casos em tribunal contra as indústrias poluentes, os bancos vão abandonar esses financiamentos. 


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