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Surto na África do Leste. “Eu nunca tinha visto um gafanhoto em Nairobi”
Mundo 8 min. 03.02.2020

Surto na África do Leste. “Eu nunca tinha visto um gafanhoto em Nairobi”

Surto na África do Leste. “Eu nunca tinha visto um gafanhoto em Nairobi”

Foto: AFP
Mundo 8 min. 03.02.2020

Surto na África do Leste. “Eu nunca tinha visto um gafanhoto em Nairobi”

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Estes são os maiores enxames de insectos invasores da Somália e a Etiópia nos últimos 25 anos. Enquanto o Quénia não sofria uma ameaça de gafanhotos desta dimensão há 70 anos.

O cenário é quase bíblico, a situação é preocupante. “Eu nunca tinha visto um gafanhoto em Nairobi”, disse ao Contacto Bogonko Ongera, jovem ativista e fundador da Jambo Charity Organization, um projecto anti-pobreza na capital queniana. Demonstra-se preocupado com a situação do seu país e dos seus vizinhos, que têm sido invadidos desde dezembro por uma onda de gafanhotos do deserto que já é considerada a maior do Quénia nos últimos setenta anos. 

Milhares de milhões de gafanhotos invadiram o Leste da África continental e ameaçam um desastre para uma região que ainda não recuperou das situações climáticas extremas que têm vindo a ser apontadas como principal causa para a rápida proliferação desta invasão.

"Precisamos agir imediatamente e em escala para combater e conter essa invasão. Quando as chuvas começarem em março, haverá uma nova onda de criação de gafanhotos. Agora é, portanto, o melhor momento para controlar os enxames e proteger os meios de subsistência e a segurança alimentar das pessoas. e evitar um agravamento da crise alimentar ", disse David Phiri, coordenador sub-regional da FAO para a África Oriental.

"Esta é uma emergência mais séria do que havíamos antecipado", disse Guleid Artan, do grupo de especialistas regionais Centro de Previsão e Aplicações Climáticas (ICPAC), em entrevista coletiva na capital do Quénia, Nairobi, esta sexta-feira. "Mais enxames de gafanhotos estão a entrar diariamente no norte do Quénia e, a este ritmo, em breve poderão espalhar-se para o Uganda e Sudão do Sul."

Segundo Artan, esta situação pode levar a "um grande problema de segurança alimentar” e os gafanhotos, são o sintoma mais recente das condições extremas que viram 2019 começar com uma seca severa, passando por oito ciclones e a terminar numa das estações mais chuvosas das últimas quatro décadas, com inundações que mataram centenas em todo o leste da África.

Na origem destes fenómenos estará o Dipolo do Oceano Índico, também conhecido por El Niño do Índico, que por sua vez levou a uma seca severa na Austrália que tem enfrentado uma vaga de incêndios desastrosa, bem como tempestades de areia e granizo.

"Sabemos que a África Oriental é uma das mais vulneráveis ​​às mudanças climáticas. Sabemos que esta região verá mais extremos", alertou o especialista.

São necessários cerca de 76 milhões de dólares para intensificar a pulverização aérea de pesticidas, a única maneira eficaz de combatê-los, segundo a ONU.

Para a população queniana, esta ameaça traz más recordações.“Isto aconteceu na década de 1970 e o que se seguiu foi fome e desastres, estamos muito preocupados”. Comenta Bogonko, que mora em Nairóbi. “Eu moro na cidade, mas a minha família vive em Kisii, para onde os gafanhotos se dirigem agora e onde a agricultura se baseia em plantações”. Segundo a imprensa local, os insectos saltaram as fronteiras da Somália para o Quénia a 28 de dezembro de 2019. A família de Bogonko, tal como as famílias vizinhas vivem de plantação de "milho, todos os tipos de feijão, chá, café, banana, cana de açúcar, mandioca, batata doce, batata irlandesa, amendoim. Mas eles - os gafanhotos - comem qualquer coisa que seja verde, isto é uma ameaça à nossa segurança alimentar”, afirma o jovem queniano.

Marta Baeta, portuguesa a viver em Nairobi há sete anos, é a fundadora da associação sem fins lucrativos “From Kibera, with Love” e diz que ficou a saber da invasão de gafanhotos através de um alerta de notícias no seu telemóvel. A jovem de 31 anos diz que não tinha ouvido falar de nada, mas que estranhou o aparecimento dos insectos em Kibera. “Por acaso reparei que nos últimos dias têm aparecido aqui no centro gafanhotos. Os miúdos normalmente avisam-me, ou porque os cães ou as galinhas querem comê-los, e tem sido frequente vê-los aqui. Eu nunca tinha visto gafanhotos aqui no Quénia, penso que deverá ser resultado do que está a acontecer”. 

Atualmente, dez regiões do país estão afectadas pela invasão destes herbívoros. Segundo Bogonko, fontes do governo informaram que “40 milhões de gafanhotos comem 80 toneladas de comida por dia, a mesma quantidade pode alimentar 35.000 pessoas, 20 camelos ou 6 elefantes”. Tanto os alimentos para humanos, quanto o dos bovinos estão em risco e “terá um efeito sério sobre o meio ambiente e nosso sistema ecológico”. Uma das maiores preocupações atuais para o povo queniano será o custo dos alimentos.

Os enxames entraram no Quénia em dezembro e atingiram as pastagens no norte e no centro do país. Enquanto os aglomerados de insetos descem sobre as plantas, os quenianos são descritos a “disparar para o ar, a bater latas e a correr, enquanto agitam gravetos em desespero para afastá-los”. 

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estes são os maiores enxames de insectos invasores da Somália e a Etiópia nos últimos 25 anos. Enquanto o Quénia não sofria uma ameaça de gafanhotos desta dimensão há 70 anos.

No Quénia, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estimou a medida de um enxame que se aproxima a uma extensão de 2.400 quilómetros quadrados, área aproximada de Moscovo e do Luxemburgo, e que pode conter até 200 mil milhões de insectos. 

As nuvens negras de insetos vorazes, cujos enxames escurecem os céus da África Oriental ,são conhecidos por “gafanhotos do deserto”, um grande herbívoro que se assemelha a um gafanhoto. Têm em média entre 6 a 8 centímetros de comprimento e um só insecto pode consumir o seu próprio peso em alimentos por dia, o que se considera “uma enorme ameaça para as plantações e pastagens”. Os insectos estão a ser combatidos por aviões que lançam pesticidas, o único meio efetivo de controlo, segundo os especialistas.

A FAO diz que a invasão atual é conhecida como "surto" - quando uma região inteira é afetada - no entanto, se piorar e não puder ser contida, ao longo de um ano ou mais, poder-se-á tornar em "praga" de gafanhotos.

Segundo a BBC, um especialista na conferência de imprensa em Nairóbi teve que tranquilizar os participantes de que a invasão de gafanhotos após a seca e as inundações não era um presságio do "fim dos tempos" bíblicos.

Somália declara estado de emergência 

A Somália declarou, este domingo, estado emergência nacional perante invasão de gafanhotos do deserto, que se alastra pelo leste da África. 

O Ministério da Agricultura do país disse que os insetos, que consomem grandes quantidades de vegetação, representam "uma grande ameaça à frágil situação de segurança alimentar da Somália". Receia-se a falta de controlo desta situação antes do início da época de colheitas em abril. 

A Somália é o primeiro país da região a declarar emergência nacional devido à infestação, no entanto, as Nações Unidas pediram, no final de janeiro, ajuda internacional para combater os enxames em todo o Corno de África, alertando que o número de gafanhotos na região pode crescer quinhentas vezes até junho. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) pediu ajuda internacional para "evitar ameaças à segurança alimentar, meios de subsistência, desnutrição”.

Os enxames espalharam-se pelo leste da África a partir do Iémen através do Mar Vermelho e podem viajar até 150 km num dia. Em dezembro, um enxame de gafanhotos forçou um avião de passageiros a sair do curso na Etiópia. Os insetos esmagaram os motores, o para-brisa e o nariz, mas a aeronave conseguiu pousar com segurança na capital, Adis Abeba.

Sudão do Sul a postos nas fronteiras

Segundo o “The EastAfrican”, o Sudão do Sul enviou especialistas para as fronteiras que compartilha com o Quénia e Uganda para monitorar a invasão de gafanhotos.

O semanário relata que o vento que sopra em direção ao Sudão do Sul pode ajudar os insetos a voarem em direção ao país e que Michaya Nasona, do Ministério da Agricultura e Segurança Alimentar do Sudão do Sul, na Organização para a Alimentação e Agricultura, treinou cerca de 20 funcionários técnicos que foram destacados nas fronteiras do país para monitorar a situação. Nasona disse que o clima e a vegetação verde estão a atrair os gafanhotos.

“Essas são as fronteiras que esperamos que surjam os gafanhotos, mas também estamos monitorando de perto a situação. Atualmente, os países vizinhos estão a enfrentar a invasão e o Sudão do Sul não é exceção, os gafanhotos estão prestes a chegar às nossas fronteiras ”, afirmou.

Nasona afirmou que o governo já foi informado sobre a invasão de gafanhotos e seu impacto na segurança alimentar e que irá colaborar com parceiros e especialistas para se preparar para o surto de gafanhotos.


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