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Steve Maia Caniço: advogada pede investigação "objetiva"
Mundo 6 4 min. 31.07.2019 Do nosso arquivo online

Steve Maia Caniço: advogada pede investigação "objetiva"

Steve Maia Caniço: advogada pede investigação "objetiva"

Mundo 6 4 min. 31.07.2019 Do nosso arquivo online

Steve Maia Caniço: advogada pede investigação "objetiva"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Este transformou-se num "caso de Estado" que obrigou o primeiro-ministro francês a falar ao país, diz Cécile de Oliveira.

A morte do luso-descendente Steve Maia Caniço levou ontem o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, a fazer uma declaração exclusiva sobre o caso, para negar a responsabilidade das autoridades policiais sobre o afogamento do jovem, de 24 anos, no Rio Loire. 

Cécile de Oliveira, na foto em baixo, a advogada da família do jovem espera que seja feita justiça e que as novas investigações decorram com "objetividade". 

AFP

Steve Maia Caniço terá caído ao rio, sem saber nadar, quando tentava fugir da forte intervenção policial, que disparou gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os festivaleiros que assistiam a um concerto no festival anual da música de Nantes, na noite de 21 de junho. Desde então continuava desaparecido, até que ontem, as autoridades confirmaram que o corpo encontrado no rio Loire, há dias, era o de Steve Maia Caniço.  Ontem muitas pessoas juntaram-se na margem do Loire e na praça, em Nantes, para prestar homenagem ao luso-descendente e protestar contra a polícia.. Veja as imagens. Também em Bordéus houve uma manifestação com os mesmos objetivos.

Édouard Philippe declarou que o relatório da Inspeção Geral da Polícia francesa (IGPN) mandado elaborar sobre o caso não estabelecia “relação entre a intervenção das forças policiais e o desaparecimento de Steve”.  Afirmações feitas depois de manifestar o seu pesar à família do jovem.

“O falecimento de Steve Maia Caniço é um drama que nos toca a todos. Gostaria de exprimir o meu pesar e do governo e apresentar aos pais deste jovem as mais sinceras condolências. Sei que as palavras significam pouco quando perdemos um filho, mas desejo encontrá-los em breve, juntamente com o ministro do Interior, para lhes testemunhar o nosso apoio e a nossa vontade de transparência total”, disse.

O aviso da advogada da família do jovem

Este transformou-se  num "caso de Estado”, afirmou Cécile de Oliveira, a advogada da família de Steve Caniço à imprensa francesa após as declarações do primeiro-ministro.  “O facto do executivo assumir um caso que foi confiado a um juiz de instrução, parece-me revelador do momento político muito complicado sobre as intervenções policiais” que a França atravessa, disse esta advogada.

O Procurador de Nantes anunciou também ontem abertura de uma investigação por suspeita de “homicídio involuntário” a Steve Maia Caniço informando ainda que continuam as diligências para tentar esclarecer as causas da intervenção judicial.

“Penso que a investigação policial será conduzida com coragem, lealdade, objetividade e que revelará uma relação entre a morte de Steve e a intervenção polícial”, adiantou Cécile de Oliveira em declarações à RTL.

E acrescentou: “Penso que o inquérito deverá sem o mais amplo possível, abranger todos os terrenos. O que é importante para a família de Steve Caniço é que a investigação se faça na maior lealdade e objetividade”.

 Ação coletiva leva policia a tribunal

Este caso trágico tem levado à rua centenas de manifestantes protestando contra a atuação policial, desde inscrições nas paredes dos edifícios de Nantes e arredores “Onde está Steve?” à realização de um cordão humano, no passado dia 20, ao longo do Loire com palavras de ordem “Justiça para Steve”, o caso mobilizou a sociedade francesa, com a oposição a reagir fortemente contra o governo de Macron.

Duas associações francesas formalizaram já uma queixa coletiva contra as autoridades policiais, em nome de 88 festivaleiros que assistiam ao concerto quando a polícia usou da força para os expulsar do local, alegando que o “tempo limite” para a música já tinha terminado.

A queixa que já reuniu 140 testemunhos alega que a intervenção policial “colocou em perigo” a vida dos jovens presentes no festival naquela noite, ao recorrer “à violência voluntária”.

Relatório não encontra ligação

O relatório do IGPN, a polícia das polícias francesa, indica logo no início, que na noite de 21 para 22 de junho, durante a festa da música, várias pessoas caíram à água no decorrer das intervenções da polícia em circunstância indeterminadas, tendo sido necessária a intervenção dos sapadores bombeiros. Paralelamente foi registado o desaparecimento do jovem Steve Maia Caniço, de 24 anos e as primeiras investigações concluíram que ele estava próximo do local da ação da polícia”.

De acordo com o documento “os problemas começaram quando os polícias pediram para desligar o ‘último sistema de som’, de transmissão de música, no Wilson Wharf levando dois DJs insatisfeitos a empurrar a multidão para insultar e lançar um monte de projéteis de qualquer tipo sobre a polícia, ferindo cinco deles". Em resposta, “a polícia usou 33 MP7 (gás lacrimogêneo), 12 LBD (lançadores de balas defensivas) e 10 DMP (demissão de granadas) durante sua intervenção”. Isto entre as 04h30 e as 04h51.

Nas suas conclusões, o relatório contabiliza que “entre oito a 14 pessoas caíram no Loire, sem se ter a certeza da contagem efetuada pelos socorristas. (…) A única certeza é que três pessoas caíram antes da intervenção policial”, indica o IGPN. E acrescenta que “nenhuma das pessoas que foi salva declarou ter caído à água por causa da ação policial”.  

Para o IGPN nenhum fator permite estabelecer que as forças policiais usaram de força ofensiva ou realizaram uma manobra que se assemelhasse a uma carga que tivesse por consequência levar os participantes em direção ao rio”.