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Sr. Trabuco, deite abaixo este muro
Editorial Mundo 3 min. 15.01.2019

Sr. Trabuco, deite abaixo este muro

Sr. Trabuco, deite abaixo este muro

Foto: AFP
Editorial Mundo 3 min. 15.01.2019

Sr. Trabuco, deite abaixo este muro

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Os muros são uma tecnologia obsoleta desde a invenção da pólvora.

Qual é a frase mais célebre do final do século XX? Muito provavelmente a escolha recairia sobre o desafio de Reagan em 1987, à sombra do muro de Berlim: “Sr. Gorbatchov, deite abaixo este muro!”. O líder do PCUS não estava presente, mas ouviu, e dois anos depois, o Muro – com maiúscula, porque nesse tempo parecia que só esse existia – caía mesmo. A História tinha acelerado pelas palavras do presidente americano.

Qual é a frase mais célebre da campanha que levou à eleição de Donald Trump? Na verdade, são duas. “Encarcera-a!”, um cântico vagamente fascista dedicado à adversária democrata Hillary Clinton; e o sempre actual “Constrói esse muro!”, gritada pelos apoiantes de Trump em comícios/show e que se refere, obviamente, à barreira que supostamente protegerá para sempre os EUA das hordas latinas mais a sul.

Extraordinária forma de fechar um círculo geopolítico, essa. Reagan proferiu o seu discurso para a posteridade em junho de 1987. Duas semanas depois, o playboy milionário Donald J. Trump visitava a União Soviética, segundo afirmou na altura “porque os russos lhe pediram para construir um hotel em frente ao Kremlin” – o hotel nunca chegou a existir e outras versões afirmam que nessa viagem Trump foi na verdade recrutado para trabalhar para o KGB, a agência de espionagem onde já pontificava um tal de Vladimir Putin. Três décadas mais tarde, o homem que ocupa o cargo de presidente americano, eleito pelo mesmo partido de Reagan, já não propõe derrubar muros. Muito pelo contrário, é eleito graças à promessa de os construir (e também graças a velhos amigos russos, claro).

Trump exige que o Congresso (ou seja, o parlamento dos EUA) lhe financie a construção do muro com 5 mil milhões de euros, e como nunca obterá esse dinheiro, retalia fechando os outros ramos do Estado. Funcionários não recebem salário, contribuintes não recebem a devolução do IRS, famílias carenciadas não recebem assistência, animais em zoológicos não são cuidados: como sempre quando os extremistas chegam ao poder, são os mais vulneráveis os que são mais afectados. A empatia do presidente é nula, e ele ameaça que a paralisação poderá durar “meses, até anos”, até que lhe deem o seu muro. Este representa o vértice ideológico da presidência, a sua ’raison d’être’, o barómetro pelo qual se avaliarão os quatro anos de Trump – e ainda mais importante, seria a única realização a apresentar como argumento para a reeleição, no próximo ano. Mas até agora, dos 1.600 km de parede de betão sugeridos pelo presidente, foram construídos exatamente… zero.

Quando o poder cai nas mãos de um homem perigoso, talvez a melhor forma de resistência esteja no humor. É nisso que acreditam os criadores de “Cards against Humanity”, um divertidíssimo jogo de tabuleiro que não é, definitivamente, para toda a família (as piadas são extremamente cruas) e que infelizmente só existe em inglês. Estes americanos determinados reuniram 2 milhões de euros e com eles compraram um terreno mesmo na fronteira, prometendo lutar contra a sua expropriação por anos e anos – até que Trump desapareça, por exemplo – e assim abrindo uma brecha enorme num possível futuro muro. E já que o governo quer construir uma tecnologia militar que se tornou há séculos, com o advento da pólvora, obsoleta… os mesmos humoristas pegaram no dinheiro que sobrou e construíram uma catapulta medieval para guardar o terreno – mais precisamente, um trabuco: uma arma usada ao longo de séculos na conquista de cidades muralhadas. Foi graças a trabucos que Afonso Henriques conquistou Lisboa em 1147 após um cerco de cinco meses, por exemplo.

Não é que estes cidadãos anónimos, simples inventores de um joguinho de cartas disponível grátis pela internet, estejam a ameaçar destruir propriedade do todo-poderoso governo federal dos EUA… Mas se eles quisessem fazê-lo, até podiam. Um trabuco contra um ditador populista. Sr. Trabuco… Deite abaixo esse muro!

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