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Sonia Guajajara. "Temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles é derrubar o Governo Bolsonaro"
Mundo 21 min. 05.10.2020 Do nosso arquivo online

Sonia Guajajara. "Temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles é derrubar o Governo Bolsonaro"

Sonia Guajajara. "Temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles é derrubar o Governo Bolsonaro"

Foto: Tuane Fernandes/dpa
Mundo 21 min. 05.10.2020 Do nosso arquivo online

Sonia Guajajara. "Temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles é derrubar o Governo Bolsonaro"

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
"Vivemos praticamente num cenário de guerra", denuncia ao Contacto uma das principais vozes indígenas do Brasil, Sonia Guajajara, numa altura que ardem as terras do Pantanal, iniciado pelas queimadas dos madeireiros, destruindo muitas das terras dos indígenas.

Traz no sangue a descendência de uma linhagem de guerreiros, os Guajajara /Tentehar, que resistem há 400 anos à imposição do mundo do homem branco nas matas da terra indígena Araribóia no estado do Maranhão.

Sonia Bone Guajajara nasceu em 1974 e é uma das vozes líderes na luta pelos direitos dos povos índigenas no Brasil. Licenciada em Letras, orgulha-se do seu percurso no mundo do associativismo, que garante "seguiu todas as etapas".

Da representação da aldeia, passou à Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA) durante seis anos e mais tarde seria eleita para a vice-coordenação da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazónia Brasileira (COIAB), onde ficaria quatro anos. Não estranhou a mudança "embora cada povo tenha um jeito e costumes específicos, no geral somos muito semelhantes, muito parecidos nos costumes e tradições", conta ao Contacto em entrevista por videochamada. 

De voz suave com um sorriso permanente descreve que entre os diferentes povos a forma de relacionamento, o princípio da coletividade e a relação com a Mãe Natureza é muito similar. "Quando se é indígena, em qualquer lugar que você chega e encontra indígena, já se sente acolhido, em casa. Porque acabamos sendo da mesma família". 

Em 2013 foi eleita para a coordenação executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), onde se mantem até hoje.

Em 2017, no Rock in Rio, no rio de Janeiro, Alicia Keys chamou-a ao palco para um discurso memorável de apelo à "mãe de todas as lutas, a luta pela mãe Terra".  Em 2018, tornava-se a primeira mulher indígena candidata à vice-presidência do Brasil, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). 

Tem viajado pelo mundo em defesa do meio ambiente e dos direitos dos povos indígenas, tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU e já levou denúncias às Conferências Mundiais do Clima (COP) e ao Parlamento Europeu.

Ao Contacto, em entrevista, conta hoje enfrentam-se "muitos desafios pela frente", explica a dimensão da realidade atual dos povos indígenas no Brasil e denuncia as políticas de Bolsonaro cujo "estrago vai levar décadas para se recuperar".

Os anciãos, caciques e lideranças dos Guajajara chamavam-na “A grande pequenina”. Porque?

Eu nunca fui muito grande, sempre tive uma estatura baixa, mas ao mesmo tempo eu era muito grande perto deles porque eu estava sempre pronta para ajudar, sempre solícita para tudo que precisava. Nunca medi esforços para estar junto, então eles sempre tiveram conhecimento e era uma forma carinhosa de me tratar e de mostrar esse reconhecimento. 

Começou a trabalhar aos dez anos como “babá” e empregada de limpezas para poder estudar, saindo da sua comunidade ainda criança. Sente que de alguma forma a sua infância ainda tem semelhanças com a realidade de muitos dos jovens indígenas que querem estudar? 

Hoje muito mais indígenas querem estudar, poucos têm acesso. É grande o número de jovens que estão nas aldeias e que não conseguem dar continuidade ao estudo depois do ensino médio. Embora as universidades, hoje em dia, tenham cotas que facilitam a entrada, não tendo esse apoio, esse suporte para que a pessoa fique na cidade, eles não conseguem ficar. Então é muito grande o número de jovens que quer ficar estudando, fazer um curso superior, mas a falta de oportunidades é muito maior.

Hoje tem voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU e em 2017 torna-se a primeira mulher indígena candidata à vice-presidência do Brasil. Qual é o papel da educação na reivindicação dos direitos dos povos indígenas?

A educação transforma a vida de qualquer pessoa, né? E lá eu sempre dizia que qualquer luta é válida quando se luta por educação. E ainda hoje a gente faz uma batalha gigante para garantir essa educação nas aldeias. E é importante que seja uma educação de facto que possa valorizar os conhecimentos tradicionais, que possa valorizar o conhecimento empírico das pessoas e que possa também trazer essas informações de fora, mas que não seja um depósito de informação. Tem de haver uma troca, um ensinamento, mas também uma valorização do conhecimento. Então não tem outro caminho se não pela educação para a gente ser uma pessoa mais consciente, mais politizada, que possa estar incidindo em toda essa conjuntura.

Como é que se faz o balanço ao educar os mais novos mantendo essa cultura e o conhecimento indígena com a educação ocidentalizada?

É muito difícil. Os indígenas que ficam lá, acabam seguindo a vida da aldeia. Os que saem, correm o risco de perder a sua cultura e identidade, porque o ensino superior, principalmente, ele só quer saber de empurrar conhecimentos e não valoriza aquilo que a pessoa traz. Eu lembro muito de um amigo meu que foi fazer o curso de Direito e dizia “a Universidade está me ensinando a não ser indígena” e eu achei isso muito forte. Ele tinha de largar muito da cultura dele, das coisas dele, para se debruçar nos livros de Direito, na legislação.

Tenho falado muito que as universidades daqui precisam agregar na sua grade curricular essa presença de indígenas que venham para a sala de aula falar, dar palestra, fazer. Não considerar doutor somente quem tem um diploma, considerando também doutores aqueles que têm o conhecimento, fazendo essa troca. Então, acho que ainda tem muito que se aprimorar o sistema de ensino, para valorizar essa diversidade de culturas, povos e territórios. É impressionante como a gente vê que na educação, nas universidades, há uma ignorância e um desconhecimento muito grande sobre a realidade dos povos indígenas e insistentemente quando se trata de indígenas, ainda se trata como se fossemos povos do passado. 

Os livros ainda tratam “os indígenas viviam nus. Usavam penas e viviam em tribos”. Bom, então continuam reproduzindo o indígena de 1500 e o colonialismo. É preciso mudar essa narrativa e falar dos indígenas hoje, os indígenas presentes, que lutam para existir, porque a situação de violência é muito grande, os ataques são constantes, essa retirada de direitos, do Estado brasileiro não absorve, não está preparado para lidar com a diferença. Aí invisibiliza os povos indígenas. Ainda há um caminho muito longo a se percorrer para que a gente possa ser aceite como povos originários e compreendido pelos nossos modos de vida. 

A educação é um caminho para essa mudança. Sentiu na pele esse preconceito quando saiu de casa e da sua aldeia?

Eu sempre senti e muitas vezes sinto até hoje. Algumas pessoas parece que têm uma repulsa. É comum a gente sentir isso na sociedade. As pessoas tratarem-nos como inferioridade, tendem a subestimar o conhecimento e a inteligência. É muito comum. 

Eu não posso dizer que é normal, porque não pode ser normalizado isso, mas é muito comum sentir esse comportamento das pessoas que demonstram um certo racismo e preconceito. E ainda se mantém muito a ideia de que o indígena não pode usar telemóvel, usar roupa e outros traços do mundo dito moderno? É. 

Neste período em que estamos a viver um fascismo muito forte no Brasil, a gente tem sentido isso com muito mais frequência. As pessoas dizem “ah o que é que tu tá fazendo aqui? Volta para a tribo”. Termos pejorativos são muito comuns e usados. “Ah você fica aí defendendo o meio ambiente, porque é que você está com um iphone?Com um celular (telemóvel)?” Então eles acham que do momento que você utilize esses meios, você perde a sua identidade. Mas na verdade não tem nada ver, né? Qualquer tecnologia que estiver à nossa disposição, a gente tem todo o direito de utilizar. Isso não vai fazer a gente ser mais ou menos indígena. 

Como é que se explica o que é a identidade indígena a alguém que não tem a mínima noção do que é um indígena?

Acho que existem muitos tipos de sociedade, a sociedade é muito diversa e o que diferencia o indígena do não indígena é o modo de vida, o comportamento, a relação mais harmónica com o meio ambiente, o respeito que a gente tem, é essa ligação com a ancestralidade, esse respeito aos antepassados, que é o que orienta a nossa luta, a nossa conduta. Esse é o ser indígena.  Mas também o ser que está muito ameaçado, que está muito na mira da violência e que precisa de ser reconhecido pelo papel  que presta ao mundo com o seu próprio modo de vida.

Referiu exemplos de preconceito negativo, mas já experenciou preconceito positivo? Em que, por exemplo, os indígenas sejam tratados como seres exóticos e fontes de sabedoria?

É verdade, sentem-se os dois extremos. De um lado ignoram-nos total, acham que a gente não sabe de nada, que nem tem que estar aqui fora, tem que estar todo mundo na aldeia. E tem essas outras pessoas que querem te sugar, achando que tu é capaz de fazer qualquer coisa. Acham que tu é médico, psicólogo, curandeiro, professor, tudo. Querem arrancar de ti todas as qualidades que são de um povo. É importante saber que nós somos pessoas, cada um com as suas habilidades, potências, nem todo mundo é completo.

O seu povo já está em contacto com os não indígenas há cerca de 400 anos. Que tipo de realidades é que uma criança indígena - cuja comunidade não esteja isolada - vive no Brasil?

Boa parte dos indígenas convive com os dois mundos e conhecem esse mundo não indígena e conseguem assimilar isso muito bem, conseguem manter-se ali na sua cultura, mas também se preparar para poder ter essa vivência aqui fora. 

Eu, por exemplo tenho três filhos. Dois meninos e uma menina. Todos passaram pelos rituais da aldeia, os meninos fizeram a festa dos rapazes, a menina fez a festa da menina moça e praticam todas as atividades que a gente faz na aldeia. 

Mas também chegam na cidade e vão ao shopping normal, os dois meninos estão fazendo faculdade, um engenharia civil, outro publicidade. Têm amizades aqui fora, assim como lá e mantêm relação com todos os parentes. 

Então, eu acho que não tem como hoje a gente ficar fora desse contexto que está colocado aí. A cidade está muito perto e toda a relação que a gente criou, esse contacto, a relação aldeia/cidade já é algo natural para muitos povos. 

Mas nós cá temos níveis de contacto muitos diferentes. No Brasil somos 305 povos, 274 línguas, povos em situação de isolamento voluntário, com nenhum contacto com a sociedade. Depois têm os povos que são como o nosso ,que já têm contacto há muito tempo, há os povos de recente contacto e os povos de contexto urbano, que vivem na cidade, nasceram na cidade mas são indígenas. Têm o seu  pertencimento, sabem a sua origem e ancestralidade e que reivindicam também os seus direitos, com toda razão. Há os diferentes níveis de contacto e essa relação e essa vivência muda de acordo com a realidade de cada um. 

Escreveu que “ignorância não é saber distinguir entre uma letra e outra, ignorância é não ter a capacidade de amar”. Os índices de educação no planeta vão melhorando, sente que numa era de advento da tecnologia e da ciência, o mundo está menos ignorante?

Eu acho que o mundo está mais ignorante. E acho que algo que resume bem isso é numa reunião de anciãos, um dos nossos anciãos falou assim “o mundo está cheio de muita informação e pouca sabedoria” e eu acho que é exatamente isso que acontece hoje. É muita informação, tudo muito acelerado, todo mundo querendo correr ninguém sabe exatamente para onde, aí a impressão que se tem é que está todo mundo correndo para antecipar o futuro. 

E tanto conhecimento, tanta tecnologia desenvolvida, mas as pessoas continuam muito ignorantes no sentido de não se dar conta que, ali mesmo, está rumando para o caos. Nessa velocidade, antecipando o futuro com esse consumo exacerbado, com essa necessidade de atender o capitalismo, com toda essa destruição que acontece em tantos lugares, essa ganância para explorar os recursos naturais, isso é muito perigoso e acaba por confirmar essa ignorância das pessoas que não conseguem proteger-se a si mesmo. 

Quando foi candidata à vice-presidência do Brasil falava de um país anti capitalista e ecossocialista. O capitalismo é o maior inimigo dos povos indígenas?

De todo mundo. (risos) É o maior inimigo de todo mundo. Só falta as pessoas entenderem isso. É muito difícil dar a volta a este sistema, é como que uma praga que já dominou e é difícil de você cortar esse mal, mas eu acho que o próprio coronavírus vai ajudar um pouco a mudar essa compreensão das pessoas. Porque com [os confinamentos] os estudos mostram as cidades menos poluidas, os rios mais limpos, isso tem de ficar como uma lição. Não pode passar um desastre como este, que matou e está matando tantas pessoas e não tirarem uma lição disto tudo. Né?

Acho que as pessoas têm que se voltar mais para si mesmo e pensar mais nesse mundo mais solidário, mais fraterno, menos ganancioso, menos consumo, porque essa velocidade toda é exatamente para atender ao capitalismo e não às nossas necessidades. 

Acaba que a gente não é feliz, as pessoas não têm tempo para cuidar da sua família, para olhar, estar junto, porque é o capitalismo quem está mandando. Então acho que o que vai mudar tudo isso mesmo é a consciência das pessoas, não tem outro jeito. É as pessoas tentarem se conectar, com um novo jeito de viver, que pode até proporcionar a derrocada do capitalismo. Para mim está tudo na forma de viver das pessoas, porque quanto mais você consome, mais o capitalismo demanda. Então a culpa é de quem? É das pessoas mesmo que vão o tempo todo abastecendo essa necessidade. Se a gente se der conta que sem a gente ele [o capitalismo] não se sustenta, aí pode mudar.

É muito preocupante. Até porque temos associado a pandemia às alterações climáticas que podem piorar muito mais se a gente não cuidar também de adotar modos de vida que possam diminuir esses efeitos das mudanças climáticas, então para nós é muito perceptível já as mudanças nos territórios. É as secas, o riacho que não enche mais. Os rituais que não pode fazer sem a água, o deixar de saber quando plantar porque a chuva não vem, nem quando colher, está tudo muito mudado. E a gente sabe que os territórios indígenas hoje são os que mais contribuem ainda para o equilíbrio climático. Mas a luta pelo clima hoje não pode ser desconectada da luta pela justiça e da luta por direitos dos povos, principalmente a demarcação desses territórios que comprovadamente sãos os que garantem regulação das chuvas, equilíbrio do clima, do oxigénio, as nascentes e a comida sem veneno. 

Como é que se fez sentir o aumento de curiosidade pelos povos indígenas com o turismo espiritual e a busca do reencontro com a natureza? 

É muito relativo, há pessoas que vêm em busca com significado mesmo, para entender e apoiar. Mas o uso de algumas medicinas indígenas se transformam num comércio e aí tentam vender e começam a utilizar isso fora dos rituais, de como é feito mesmo nas aldeias, vão negociar, vender e até explorar, acabando por ser um pouco controverso também. Até a espiritualidade indígena está sendo negociada.

  Bolsonaro declarou guerra aos povos indígenas e aí fez todo um desmonte de políticas e conquistas de longos anos. Então vivemos praticamente num cenário de guerra.   

Quais são os maiores desafios atuais dos povos indígenas brasileiros? 

Nós temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles é derrubar o governo Bolsonaro. É o número um para podermos evitar que a gente chegue no fundo do poço. O estrago que o governo Bolsonaro está fazendo vai levar décadas para se recuperar. E aí não tem como hoje desvincular do Governo os desafios que a gente  [os povos indígenas] hoje enfrenta. Não tem como tratar de formas separadas porque a gente já enfrentava muitos desafios, só que agora a gente tem um governo que se declara inimigo. 

Bolsonaro declarou guerra aos povos indígenas e aí fez todo um desmonte de políticas e conquistas de longos anos. Então vivemos praticamente num cenário de guerra. É um cenário diário de guerra. É o aumento dos conflitos nos territórios indígenas, é o aumento de ataques aos povos, não são desmonte dos direitos em risco, é a vida que está em jogo. 

Essa aliança do executivo com o legislativo que tenta a qualquer custo aprovar medidas que venham mudar e retirar direitos conquistados e ao mesmo tempo medidas que venham flexibilizar a legislação ambiental, para facilitar o acesso e a exploração. Aí paralelo a tudo isso temos aqui uma situação muito grande que é do fascismo escancarado, esse fascismo já ultrapassou todos os níveis, limites e barreiras e chegou também nos territórios indígenas. Então hoje enfrentamos essa ameaça tanto de fora, quanto de dentro. Porque o Governo Bolsonaro apostou na estratégia de provocar o confronto entre as lideranças e os próprios indígenas. 

Como é que provocou esse confronto?

Um exemplo só e claro é o desejo de expandir o agronegócio. Quer levar o agronegócio para dentro dos territórios indígenas. Como não há essa permissão nem da maioria dos indígenas nem da própria constituição, ele compra as lideranças, traz as lideranças indígenas para o seu lado para defender a sua política. Então quando faz isso, instantaneamente começa um  confronto na aldeia porque há aqueles que não concordam e tentam trazer aquela pessoa para conseguir oferta de vantagens, proposta de agrados, dinheiros e essa carência em que a gente vive por conta de ausência de políticas públicas, da ausência mesmo do Estado nos territórios, as pessoas ficam muito suscetíveis, muito vulneráveis a aceitar qualquer proposta.

Então vem por esse lado da fraqueza, pelo lado da vulnerabilidade. Compra a liderança e aí é claro que o confronto já está instalado. Essa fala dele de anístiar esses matadores também provocou esse aumento do desmantamento dos povos indígenas, aí aumenta o conflito também entre indígenas e madeireiros. E há ainda a mineração que está em curso. São muitos desafios em que a gente está aí na linha da frente para tentar evitar tamanha tragédia. 

Mas o associativismo e participação dos povos indígenas também está a evoluir. 

É, nós temos a APIB que congrega todas as regiões e pelo meio das organizações macro regionais e aí as organizações indígenas estão todas juntas, mas há pessoas avulsas que têm lutas individuais que acabam por sua conta própria a defender o governo. Mas a gente não pode afirmar que é a maioria que está com ele, não, a maioria está junta pela luta indígena, pela sua vida.  

A primeira medida do Bolsonaro foi desmontar a FUNAI, em que levou uma parte para o ministério da Agricultura e outra para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Só que a gente fez muita articulação no congresso e muita pressão e aí conseguimos reverter essa mudança, permaneceu no Ministério da Justiça e devolveu as partes para a Funai. Foi uma das grandes conquistas, conseguir que com a pressão popular ele voltasse atrás. Embora não é uma grande vantagem porque a Funai hoje é um orgão subserviente ao governo e não aos interesses dos povos indígenas. A gente brigou pela Funai se manter mas a gente não tem mais o mesmo tratamento ou relação que tinha, como era a ambição da Funai de promover direitos e defender os povos. Na Funai trabalham alguns indígenas mas quem está de presidente é um delegado, polícia.   

De que forma é que a proteção dos territórios está conectada ao empoderamento da mulher indígena?

A mulher indígena se sente a própria Terra. Porque a gente tem dito o tempo todo, a Terra é sagrada. A luta pela mãe Terra é a mãe de todas as lutas. E a partir dessa garantia territorial é que a gente consegue ter todas as outras garantias de educação, saúde, cultura. Tudo vai partir da garantia do território. A primeira marcha das mulheres indígenas aconteceu o ano passado e trouxe como tema “Território: Nosso corpo, nosso espírito”. Porque é todo o universo. O território que sustenta o nosso corpo, o nosso corpo que ancora o nosso espírito e o espítrio que nos orienta e nos garante a nossa vida. Não tem como fazer passar uma luta por terra sem pensar no nosso corpo. Para nós a luta pelo território e pelo corpo é a mesma, a violência que atinge um, atinge o outro.

Em abril foi registada mais uma morte de um líder Guajajara, o quinto desde novembro. Há registo de maior violência e assassinatos a indígenas brasileiros. Qual é o papel de Jair Bolsonaro neste contexto criminoso?

Em cinco meses houve cinco assassinatos. Se olha nos casos individuais, você pode pensar que as motivações são isoladas, mas quando olha o contexto geral político, esses assassinatos não podem ser olhados de forma isolada. São crimes articulados que revelam todo esse discurso de ódio que vem sido pregado pelo próprio presidente. Então, as pessoas que não gostam, que não toleram e têm raiva se sentem no direito de matar, porque têm certeza da impunidade. A impunidade hoje é o grande vetor, o grande instrumento para o aumento dessa criminalização. 

Como é que se gere esta crise de saúde pública nos povos indígenas do Brasil em 2020?

A gente fez um trabalho bem bom de divulgar as medidas preventivas que estava dando muito certo. Entendeu-se que não é momento de receber visitas, todo muito está muito cuidadoso. Mas aí vem o Bolsonaro, autoridade máxima do país e fala que não precisa de isolamento, que é uma gripezinha que não mata ninguém. Quando uma autoridade assim do país fala, é claro que muita gente quer seguir. “Se ele está falando, está autorizado”, então isso é muito perigoso, o discurso dele põe todo mundo em risco e atrapalha todo um plano que a gente vem fazendo de medidas adoptadas para evitar a propagação do vírus. 

O Bolsonaro atrapalhou muito o processo no Brasil inteiro. Acaba por ser muito complicado para a gente poder de novo consciencializar as pessoas do que é que está realmente acontecendo. A gente conseguiu bloquear as estradas entre os povos, mas da parte do governo não há nenhum plano para cuidar dessa situação. O coronavirus não pode inviabilizar todas as outras lutas, temos de olhar para o coronavírus para poder cuidar e evitar mas a gente precisa estar atento e chamar atenção dos órgãos governamentais todos para a proteção dos povos e territórios. 

Ao viajar pelo mundo, ao estar na linha da frente desta luta, com gente do mundo inteiro. Sente que está a haver uma mudança positiva para o bem?

Sim, bem devagar, bem devagar. mas a gente percebe que hoje há um engajamento maior de pessoas que antes achavam que fama e dinheiro eram o suficiente. Hoje você já vê que há pessoas dessa classe social artistas e famosos que começam a ter essa preocupação de cuidar do meio ambiente, olhar para o outro, então acho que há uma nova conexão nascendo aí e que as pessoas estão despertando para essa urgência que é a mudança de comportamentos.

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