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Sonho com serpentes
Editorial Mundo 5 min. 29.10.2020

Sonho com serpentes

Sonho com serpentes

Foto: AFP
Editorial Mundo 5 min. 29.10.2020

Sonho com serpentes

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A série documental em três partes, "The War on Cuba", mostra bem como o bloqueio económico-financeiro a Cuba afeta todos os setores e todas as vidas na ilha sem o papão da "propaganda" ou de discursos "vitimizantes". Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Há uma canção do cubano Silvio Rodriguez, "Sonho com serpentes", em que, num sonho, depois de matar uma serpente aparece sempre outra maior e mais forte, daquelas que comem e arrebatam tudo, sobretudo o amor. Eventualmente, a serpente engole-o, Silvio canta, e a sua missão enquanto poeta é, uma vez dentro do corpo disforme e violento do animal, destruí-la: "Pero se destruye / Cuando llego a su estómago / Y planteo con un verso una verdad."

O verso da verdade de Silvio contra a serpente do mal é a metáfora perfeita para a relação entre Cuba e os Estados Unidos: a pequena ilha agarrada à sua guitarra a cantar versos de amor, a serpente que tudo come à sua volta até já o mundo inteiro caber no seu estômago gigante, e nele tudo transformar à sua imagem. Também assim é longe das metáforas das canções – o verso da verdade de Silvio soa um pouco como o nome da produtora "The Belly of the Beast" ("barriga da besta") que, a partir de Cuba, quer contar histórias furando o bloqueio. Sobretudo o mediático, isto é, a forma como o mundo vê Cuba através dos olhos da serpente e como Cuba se dá a ver.

A serpente insidiosa é demasiado grande e o seu poder estende-se muito para lá da sua geografia. Por vezes, os cubanos reclamam que se não fosse o Governo, ou o socialismo, teriam acesso a isto ou aquilo. Outra vezes, são os estrangeiros que de passagem pela ilha regressam com a impressão de que o socialismo só gera pobres. Não era por acaso que Fidel Castro dizia que isto não é um embargo, nem um bloqueio: é uma guerra económica desde 1960 contra 10 milhões de habitantes.

As pessoas pensam que são apenas coisas irrisórias – a vizinha que quer arranjar a varanda e não tem cimento ou tijolos, torneiras, equipamentos elétricos, cabos para o computador. E são. Porque são as coisas irrisórias que tornam a nossa vida de primeiro mundo confortável, que nos impedem de estar quatro horas em filas para saber se naquela loja há aquilo de que precisamos – isqueiros, fita cola castanha, algodão. Porque enquanto escrevo esta crónica no computador pude comprar cimento, tijolos, torneiras e cabos, em simultâneo, à distância de um clique. Em Cuba, excluída do sistema financeiro internacional, não posso.

Após 15 anos de trabalho em Cuba, são inúmeras as histórias que poderia contar. Como daquela vez que trazia medicamentos que tinham de ser conservados em baixa temperatura durante a viagem. Corri Havana durante três semanas atrás das barras de gelo dos sacos de congelação. Isso ou barras de gelo que os atletas usam nas lesões. Isso ou mangas de gelo para garrafas de vinho. Qualquer coisa que aguentasse o gelo para transportar medicação: "Não há, não há", "já houve disso, mas já não vejo há muito tempo", "tenho duas, mas a minha mãe trouxe-me da Venezuela". Paguei emprestadas as barras que a senhoria tinha no congelador, prometendo trazê-las de volta quando regressasse meses depois. Há uns anos, uma amiga com quem tinha trabalhado em Cuba, vinha de uma temporada no México, onde eu nunca fui. Quando lhe perguntei como era, disse: "A zona onde eu estava é muito pobre. Mas se tens dinheiro podes comprar o que quiseres. Aqui [Cuba] não. Até podes ter dinheiro mas não podes comprar porque simplesmente não há."

O documentário em três partes, "The War on Cuba", explica isso bem. Explica como o embargo ao petróleo da Venezuela, por exemplo, não afeta só os transportes públicos na capital. Afeta o transporte de mercadorias do campo para a cidade, para o consumo, para que os cubanos tenham acesso a comida. Afeta o agricultor que antes levava quatro horas a lavrar a terra com um trator, mas agora sem gasolina tem de regressar ao arado puxado por bois, e leva o triplo do tempo para lavrar a mesma terra. Da gasolina à construção, da saúde à educação, transportes, agricultura, comida, o documentário explica também a guerra ideológica dos EUA face aos médicos cubanos em tempos de covid, e conta como o bloqueio impediu Cuba de receber ventiladores ou encomendas de máscaras e viseiras.

Organizar conferências com colegas América Latina ensina-nos logo, e muito, sobre os privilégios das nações e dos sujeitos, mas, neste caso, ensina-nos tudo sobre a posição de Cuba no mundo. Há uns anos, convidei um académico cubano para uma conferência. A seguradora não queria pagar por ele, apesar de o ter feito com cidadãos de outras nacionalidades. Dizia que por causa das sanções norte-americanas não poderia estabelecer contatos comerciais com Cuba. Ora “isto não é um contato comercial, o académico vem à Escócia dar uma conferência”, explicámos. Mas a sede da seguradora era nos EUA. E assim percebemos como os tentáculos do polvo ou a enorme barriga da serpente se espraiam dos dois lados do Atlântico. Acontece por vezes a cidadãos cubanos não se poderem alojar em hotéis da companhia Hilton fora dos EUA. Um dia a tentar marcar um voo com o cartão de crédito da Universidade, Cuba não vinha sequer na lista de países. Quando contactei o departamento financeiro, eles perceberam que o cartão era da American Express. Estas coisas são ínfimas e parecem insignificantes, e parecem até que só nos afetam a nós, que estamos habituados a circular no “norte global”, mas mostram a dimensão tentacular do bloqueio económico-financeiro dos EUA sobre Cuba. É assim há 60 anos.

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