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Siría. A tragédia agrava-se, a ajuda internacional diminui
Mundo 5 min. 31.03.2021

Siría. A tragédia agrava-se, a ajuda internacional diminui

Siría. A tragédia agrava-se, a ajuda internacional diminui

AFP
Mundo 5 min. 31.03.2021

Siría. A tragédia agrava-se, a ajuda internacional diminui

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Mais de 13 milhões de sírios precisam de assistência humanitária urgente, metade dos quais são crianças. Na V Conferência de Bruxelas, a ONU não conseguiu juntar o suficiente para os 13 milhões de sírios em risco de fome.

Há precisamente 10 anos, os sírios saíram à rua para protestar contra o regime de Bashar al-Assad. Hoje, mais de 400 mil pessoas morreram, mais de 100 mil são dadas como desaparecidas. Um total de mais de 12 milhões de sírios são refugiados. Desses, 6,4 milhões vivem em campos em condições precárias nos países vizinhos. Mais de 13 milhões de sírios precisam de assistência humanitária urgente, metade dos quais são crianças. 

Os números foram apresentados pelo alto representante europeu para os assuntos externos, Josep Borel, na introdução da V Conferência de Bruxelas de apoio ao futuro da Síria e da região, para salientar que “não há motivo para celebração”. Os números mostram “quão prolongada e dramática é a situação da Síria e do povo sírio”. A guerra continuada e o facto de o regime de Bashar al-Assad não aderir ao processo de paz, e bombardear, alegadamente, o próprio povo, incluindo com armas químicas, resultou num dos maiores desastres humanitários dos tempos modernos.

Nos dias 29 e 30 de março, a União Europeia e as Nações Unidas promoveram o evento online de angariação de fundos para apoio à população na Síria e nos países vizinhos de acolhimento de refugiados, sobretudo Líbano, Jordânia e Turquia, mas também Egito e Iraque.

A Conferência de Bruxelas é o maior evento anual de angariação de fundos de alívio humanitário para o povo sírio. As Nações Unidas pediram a mobilização de €8,5 mil milhões (10 mil milhões de dólares), mas só foi reunido um total de €5,3 mil milhões.

O fracasso deu-se apesar da campanha insistente do Programa Alimentar das Nações Unidas – a instituição que ganhou em 2020 o Prémio Nobel da Paz e que tem feito apelos dramáticos nas redes sociais. O responsável do Programa Alimentar, David Beasley, salientou que se o valor de $10 mil milhões não fosse atingido, as rações alimentares poderiam vir a ser cortadas em 30% em muitas partes do país. O que poderá ter como consequência “uma segunda onda de migrações para a Europa e o recrudescimento do extremismo”, salientou.

Um maior nível de sofrimento

Mark Lowcock, um dos responsáveis da ONU para os assuntos humanitários, salientou na conferência internacional que “é chocante dizer que a situação dos sírios é pior que nunca, desde que o conflito começou há dez anos. Há um maior nível de sofrimento. Há um aumento de pessoas que precisam de assistência e a escala de necessidade é maior”, disse, sublinhando que para colmatar a crise, a ordem de grandeza do apoio seria de 10 mil milhões de dólares. Cerca de 90% dos sírios, tanto nas zonas rebeldes como nas detidas pelos curdos, vivem em pobreza extrema.

No apelo que fez à generosidade dos participantes na conferência online, Lowcock referiu que são as crianças sírias as maiores vítimas. “Como vão ser estas crianças quando forem adultos, se nunca foram à escola, se só conhecem a guerra, se tudo o que vêm é sofrimento? É no interesse de todos resolvermos esta situação”.

No final da conferência, a União Europeia destacou-se como o maior contribuinte para o alívio da crise síria, com a oferta de €3.7 mil milhões, dos quais €1.12 diretamente da Comissão Europeia e €2.6 mil milhões de Estados-membros. No seu conjunto, a UE continua a ser o maior contribuinte - segundo um comunicado da própria Comissão - com €24.9 mil milhões de doações de apoio humanitário desde o começo da crise em 2011.

Reino Unido reduz contributo em cerca de um terço

O Reino Unido, no entanto, reduziu em um terço a oferta em relação a 2020. Neste ano, na sua declaração online no passado dia 29 de março, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab, anunciou a disponibilidade de €240 milhões, quando em 2020 tinham sido dados na mesma conferência €350 milhões. A retirada de apoio do Reino Unido às campanhas internacionais, tem vindo a ser criticada por organizações de assistência humanitária, que acusam o governo de Boris Johnson de falhar os seus compromissos.

Na V Conferência de Bruxelas participaram mais de 80 países e organizações internacionais, onde os participantes , embora não tenham apoiado as necessidades financeiras, manifestaram o apoio aos esforços da ONU para uma solução política para o conflito. Josep Borrell salientou que: "uma década após os sírios se terem manifestado pacificamente a pedir liberdade, justiça e perspetivas económicas, esses pedidos ainda não foram satisfeitos e o país está no caos. 

A UE continua a acreditar que cabe aos sírios decidir o futuro do seu país. Um futuro onde todos os sírios se sintam seguros, livres e tenham uma vida condigna. 

Com a Conferência de Bruxelas, a UE juntou mais uma vez a comunidade internacional para reafirmar o nosso apoio político e financeiro aos sírios e aos países vizinhos e a uma solução política para a crise”.

Josep Borel salientou que “85 delegados de 55 países juntaram-se para apoiar a resolução 2254 das Nações Unidas” para resolver politicamente o futuro da Síria, mas o impasse é evidente.

Também Lowcock referiu que é determinante alcançar “progresso político” para resolver o conflito: “É frustrante para nós na ONU que seja tão difícil chegar a um processo de paz”.

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