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"Seria uma surpresa se os taliban cumprissem as primeiras promessas"
Mundo 3 min. 25.08.2021
Entrevista

"Seria uma surpresa se os taliban cumprissem as primeiras promessas"

Entrevista

"Seria uma surpresa se os taliban cumprissem as primeiras promessas"

Mundo 3 min. 25.08.2021
Entrevista

"Seria uma surpresa se os taliban cumprissem as primeiras promessas"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
"Uma das impressões mais fortes e perturbadoras foi a questão das mulheres de burqa no espaço público. Ao início era uma enorme estranheza mas uns dias depois já nos habituávamos a ver aquelas manchas de azul a deslizar nas ruas." Entrevista à jornalista Cândida Pinto que esteve três vezes em reportagem no Afeganistão.

Qual foi a primeira vez que foste ao Afeganistão? Quais eram circunstâncias e o contexto político nessa altura?

Foi em Outono de 2001, pouco depois da chegada dos americanos. Era a resposta ao 11 de Setembro. Quando cheguei, os taliban já tinham deixado o poder em Cabul. Vivia-se uma euforia estranha e ainda muitos receios. As mulheres ainda caminhavam de burqa vestida. No espaço público existiam sobretudo homens que olhavam com estranheza para a nossa presença. Nos arredores de Cabul ainda existiam combates e eram zonas muito inseguras. Fui à reabertura de um cinema em Cabul. Lembro-me de o projectista falar do seu filme favorito, o "Titanic" que tinha visto às escondidas, nas traseiras da casa dele. 

Que impressões tiveste nessa altura e o que mais te marcou neste país?


"É como estarmos mortas, apenas a respirar"
São refugiados afegãos que vivem no Luxemburgo. Contam o que viveram e sentiram nestes dias em que os taliban retomaram o poder no Afeganistão. Por razões de segurança e para evitar eventuais represálias sobre as suas famílias mantemos o seu anonimato. Dizem que se a comunidade internacional nada fizer o país vai viver uma “catástrofe”.

Uma das impressões mais fortes e perturbadoras foi a questão das mulheres de burqa no espaço público. Ao início era uma enorme estranheza mas uns dias depois já nos habituávamos a ver aquelas manchas de azul a deslizar nas ruas. Quando me apercebi que eu própria estava a deixar de identificar aquela mancha azul deslizante como um ser humano, uma mulher, fiquei arrepiada. Um país marcado pelos escombros, pelo pó e pelas armas em abundância. Uma enorme distância temporal da nossa realidade ocidental. 

Enquanto mulher, de que forma sentiste o teu trabalho limitado no terreno?

Na altura vivia-se um clima de abertura, uma certa anarquia, mas no inverso do que está a acontecer actualmente. Não era muito difícil movimentarmo-nos. Havia dificuldades em encontrar um intérprete que, por exemplo, não tivesse receio de nos acompanhar, sobretudo quando íamos aos arredores, às zonas onde havia tiroteios. A dificuldade estava em criar canais de entendimento sobre o que queríamos fazer. Voltei depois ao Afeganistão mais três vezes. Tive oportunidade de viajar pelas montanhas do norte em 2006. Em 2011 impressionou-me que dez anos após a chegada dos americanos e a mudança de regime, ainda existisse tanto receio dos talibã. Estive na casa de uma familia afegã no centro de Cabul que me pediu para entrar com a máxima discrição para que os vizinhos não notassem a presença de uma ocidental no bairro. Dentro de casa sentiam-se protegidos e sem receio da minha presença, mas o mesmo não acontecia no espaço público, na rua. 

Qual pensas que será o futuro imediato do Afeganistão e que consequências trará para a região?

Creio que ainda há muitas incógnitas. Tenho mais perguntas do que respostas. O maior receio é que o país se converta num santuário de radicalismo islâmico com as terríveis consequências para os afegãos e, sobretudo, para as afegãs, mas também com os impactos internacionais que poderá ter. Uma nova vaga de refugiados para a Europa parece inevitável. O país pode fechar-se de novo, tornar-se opaco.  Apesar de ainda estar tudo numa fase de caos e anarquia, admito que um maior controle da informação sobre o que se passa dentro do país venha a desenhar-se. E isso permite todo o tipo de arbitrariedades, como se começa a verificar. Ao nível dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e de uma sociedade mais equilibrada seria uma surpresa caso os talibã cumpram as primeiras promessas. 

 Como analisas a retirada americana e o que achas podia ter sido diferente?


EUA mantêm intenção de sair do Afeganistão a 31 de agosto
Na reunião do G7 desta terça-feira, vários líderes tentaram convencer os EUA a prolongarem a permanência no aeroporto militar de Cabul para possibilitar a saída de mais cidadãos do país, mas Joe Biden mostrou-se irredutível.

O que mais me espanta na saída americana e na súbita tomada de poder taliban é a falta de previsão do caos a que estamos a assistir. Vinte anos não são vinte dias. Pensava que ao longo destas duas décadas os americanos tivessem criado uma rede de informação melhor sobre as forças afegãs que estiveram a formar e sobre a força que os talibã adquiriram. O Afeganistão mostra ao longo da sua história que, mais tarde ou mais cedo, acaba por expulsar os invasores. Mas a rapidez com que tudo aconteceu, a súbita mudança, a falta de resistência local, deixa muitas incógnitas. O dinheiro que terá ido para a corrupção e não para salários ou infraestruturas, o negócio florescente dos opiáceos que começou por ser combatido mas que refloriu, a falta de confiança dos afegãos nas instituições civis e militares. Claramente os afegãos estão emparedados entre dois tipos de poder que até ao momento parece esquecer as suas necessidades e anseios.

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