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Será este homem capaz de derrotar Jair Bolsonaro?
Mundo 21 min. 30.09.2022
Eleições no Brasil

Será este homem capaz de derrotar Jair Bolsonaro?

De acordo com todas as sondagens, Lula da Silva segue na frente nas intenções de voto da primeira volta das eleições presidenciais do próximo dia 2 de outubro.
Eleições no Brasil

Será este homem capaz de derrotar Jair Bolsonaro?

De acordo com todas as sondagens, Lula da Silva segue na frente nas intenções de voto da primeira volta das eleições presidenciais do próximo dia 2 de outubro.
Foto: Caio Guatelli/AFP
Mundo 21 min. 30.09.2022
Eleições no Brasil

Será este homem capaz de derrotar Jair Bolsonaro?

Plínio FRAGA
Plínio FRAGA
Segundo todas as sondagens, Lula da Silva está em vias de acabar com a farsa de Bolsonaro na tragédia brasileira.

(Plínio Fraga, no Rio de Janeiro)  

Primeiro como tragédia, agora como farsa, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, tende a repetir o ex-presidente americano Donald Trump, ídolo confesso do mandatário brasileiro. Eleito em 2018 na onda conservadora que embalou o mundo a partir da América, Bolsonaro, já batizado de “Trump dos trópicos”, dificilmente será reeleito no Brasil na disputa programada para outubro deste ano.

Catorze institutos de pesquisas eleitorais apontam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), chega ao primeiro turno da eleição presidencial, a ser realizado em 2 de outubro, com 12 pontos de vantagem, em média, sobre Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). Os dois institutos de maior credibilidade no país, Datafolha e Ipec, informam que Lula tem pouco mais da metade dos votos válidos, podendo assim encerrar a disputa de imediato, sem necessidade de segundo turno. Este está programado para 30 de outubro com os dois mais votados dos 11 postulantes à Presidência, caso nenhum deles obtenha a maioria absoluta dos votos na primeira votação.

Bolsonaro caminha assim para repetir Trump tanto na contestação da legitimidade do resultado das urnas quanto na liderança de tumultos para macular _ ou mesmo impedir _ o processo de transição, a exemplo do que trumpistas republicanos tentaram nos Estados Unidos depois da eleição do democrata Joe Biden em 2020.

Steve Bannon, o ideólogo da nova direita radical populista e principal estrategista de Trump, definiu a eleição presidencial brasileira como a segunda mais importante do mundo em 2022. Na visão dele, só perde em importância para a eleição do Congresso norte-americano em 8 de novembro, na qual aliados de Trump podem retomar o controle da Câmara e do Senado. Bannon afirma que a eleição brasileira será, nas palavras dele, “uma das mais intensas e dramáticas eleições do século 21”.

“Bolsonaro é um grande herói para todos nós. Ele está no nível de Viktor Orbán (na Hungria) como alguém que defendeu a soberania nacional e realmente construiu uma base. Ele tem evangélicos, ele tem pessoas da classe trabalhadora. Se você olhar para o Brasil, (o bolsonarismo) é muito parecido com o movimento Maga (Make America Great Again, de republicanos ligados ao Trump), os bolsonaristas são muito parecidos com os desvalidos do America First, o que chamamos de hobbits do condado (metáfora de Bannon para aludir à vida de anseios simples dos trumpistas)”, disse Bannon à BBC.

Na célebre abertura de “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, livro de 1852, Karl Marx escreveu que a história se repete como tragédia ou como farsa. A frase, ainda que se refira à conjuntura política da França do século XIX, serve como explicação preciosa para os desdobramentos da política brasileira recente.

O livro de Marx analisa o golpe de Estado na França de 1851 por Carlos Luís Bonaparte, que havia sido eleito presidente três anos antes. A data escolhida para o início da ditadura foi o aniversário da coroação de seu tio, Napoleão, que havia sido imperador e, antes disso, também tinha dado um golpe. “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, definiu Marx.

Seguindo a cartilha marxista, cabe aqui primeiro delinear a tragédia brasileira para depois relatar a farsa que se arma em torno dela.

Contra o sistema

Jair Messias Bolsonaro, 67 anos, venceu a eleição presidencial de 2018 apresentando-se como o candidato antissistema, “contra tudo o que está aí”, como discursava. Ex-capitão do Exército, reformado após planejar em 1987 um atentado a bomba para protestar contra o achatamento salarial militar, Bolsonaro exerceu mandato parlamentar federal durante 27 anos. Como deputado, conseguiu aprovar apenas dois projetos de lei em todo esse período. Era tido como um parlamentar do “baixo clero”, rótulo político para aqueles deputados que estavam fora das altas esferas de poder.

Ainda assim, ou talvez por isso, Bolsonaro convenceu o eleitorado de que era um nome contra o sistema, apesar de todas as evidências em contrário. Ele foi um apoiador da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964-1985, defendeu oficiais acusados de tortura, proclamou-se um inimigo dos direitos humanos e, principalmente, daqueles que “querem transformar em vermelha a bandeira nacional verde-amarela”.

O sistema político brasileiro estava devastado. Entre 2014 e 2018, uma investigação judicial, chamada Operação Lava Jato, levou a condenação de 600 réus, acusados de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. Entre estes, havia 49 políticos detentores de mandato. Houve mais de 150 prisões antes mesmo da condenação dos réus, estimulando que os presos ganhassem benefícios legais ao se tornarem delatores.

O ápice da Lava Jato ocorreu em 7 de abril de 2018, quando Lula foi preso. O Brasil estava a seis meses da eleição presidencial. O petista liderava as pesquisas, com o dobro das intenções de voto de Bolsonaro. Com Lula na cadeia, Bolsonaro assumiu a dianteira no processo eleitoral. Em setembro de 2018, sofreu um atentado em que um desequilibrado mental lhe atingiu com uma faca.

Bolsonaro ficou em estado grave, mas se recuperou. Passou a reta final da campanha internado, sem que participasse de debates políticos, mas com ampla cobertura da mídia. Venceu a eleição no segundo turno com 55% dos votos contra 45% de Fernando Haddad, que substituiu Lula como candidato do PT.

Um mês depois de eleito, Bolsonaro convidou o juiz que havia condenado Lula, Sergio Moro, a tornar-se ministro da Justiça. Coube a um hacker a obtenção das informações cruciais que levariam o Supremo Tribunal Federal brasileira a anular todos os processos e condenações contra Lula em abril de 2021, três anos depois da prisão. A mais alta corte de Justiça julgou o juiz Sergio Moro parcial na condução dos inquéritos contra o ex-presidente.

Com os direitos políticos recuperados, há um ano e meio Lula lidera todas as sondagens eleitorais feitas por mais de uma dezena de empresas. A memória de um governo marcado por amplas políticas sociais de apoio aos mais pobres revela-se mais forte do que o volume de acusações que recebeu. Lula foi inocentado em 26 inquéritos que o investigavam. Retornou ao cenário político como a melhor resposta dos eleitores a um governo errático, contraditório e, acima de tudo, com episódios frequentes de incompetência e corrupção que devastaram a imagem do Bolsonaro antissistema.

Mais do que a política, a economia explica o desarranjo do governo Bolsonaro. Entre janeiro de 2019, quando assumiu a Presidência, e 2022, os números econômicos foram pífios. A média do crescimento econômico ficou em 0,6% nos três primeiros anos de governo _décimo lugar entre as 20 maiores economias do mundo. A taxa de desemprego alcança 9% da população economicamente ativa.

O rendimento médio mensal dos brasileiros está hoje em 326 euros. Na comparação com o governo Lula, entre 2003 e 2010, o país cresceu 4,1% em média, o maior em duas décadas. A taxa de desemprego estava em 6,7%. O rendimento médio de cada brasileiro atingia 360 euros por mês.

A metade mais pobre dos brasileiros sobreviveu com apenas o equivalente a 82 euros por pessoa em 2021, pior resultado da história, uma queda de 15% em relação ao dinheiro recebido em 2020, em valores já atualizados pela inflação. São 106,35 milhões de brasileiros subsistindo com o equivalente a 2,75 euros por dia.

Pesquisa de uma rede independente mostrou que 33,1 milhões de brasileiros viviam situação de insegurança alimentar grave, quando não há garantia de acesso à alimentação em quantidade suficiente. Em contrapartida, o Brasil tinha 266 mil milionários em dólar no ano passado, de acordo com o Global Wealth Report 2022, relatório sobre a riqueza global. A projeção do estudo é que em 2026, o Brasil tenha 572 mil indivíduos com mais de US$ 1 milhão.

O atual presidente da república do Brasil conta com o apoio das igrejas evangélicas.
O atual presidente da república do Brasil conta com o apoio das igrejas evangélicas.
Foto: Mauro Pimentel/AFP

A desigualdade de riqueza é alta em toda a América Latina, mas o Brasil destoa com índices ainda maiores que os países vizinhos. O 1% mais rico entre os brasileiros possui 49,3% da riqueza total do país. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil recuou no ano passado para o mesmo nível que o país tinha há oito anos, em 2014. O índice é composto por variáveis como renda, expectativa de vida ao nascer e escolaridade. No ranking de desenvolvimento dos países, o Brasil caiu três posições, passando de 84.º colocado para 87.º no mundo.

A sensação de bem-estar ou não da população é uma das principais razões de voto, como afirma Alessandro Janoni, especialista em pesquisas eleitorais. “A razão do voto tem três pilares. O primeiro é a sensação de pertencimento a um grupo ou classe. O segundo pilar são os valores morais que você se utiliza para se relacionar socialmente. O terceiro pilar é a avaliação das gestões e a percepção de bem-estar. Na atual eleição, esse terceiro pilar está mais forte por que são dois presidentes que podem ter suas gestões comparadas”, resume ele.

O negacionismo

Uma das características mais impressionantes de Bolsonaro é o negacionismo. Não só sobre o impacto da Covid no Brasil, quando mais de 600 mil pessoas morreram. O presidente contesta agora todos os números econômicos que lhe são desfavoráveis. Em discurso em 20 de setembro na sede das Nações Unidas, em Nova York, pintou um cenário róseo para as mazelas brasileiras. “Temos emprego em alta e inflação em baixa. A economia voltou a crescer. A pobreza aumentou em todo o mundo sob o impacto da pandemia. No Brasil, ela já começou a cair de forma acentuada”, disse.

É fato que a pandemia mundial entre 2020 e 2021 derrubou a economia em todos os países. Parte da retração recorde que o Brasil enfrentou em 2020 se deveu a ela. A falta de reação política adequada de Bolsonaro à pandemia, no entanto, é uma das explicações para a avaliação negativa de seu governo. Debochou de vítimas da Covid-19, promoveu tratamentos precoces sem base científica, atrasou a compra de vacinas e se viu em meio a um emaranhado de denúncias de corrupção e ineficiência na gestão das ações da saúde.

Na segurança pública, o governo Bolsonaro facilitou o acesso às armas e fez com que a concessão de licenças de porte de arma crescesse 473%. O Brasil é um dos líderes mundiais em mortes por armas de fogo: foram 48 mil mortes violentas em 2021, sendo que 78% das vítimas eram pessoas negras.

Se a grande maioria dos brasileiros sofre, as minorias sofrem ainda mais. As estatísticas mostram aumento de quase 30% dos casos de mortes, estupros e lesões contra pessoas LGBTQIA+ _Bolsonaro tem obsessão pelo tema; diz que o PT estimula que crianças se tornem homossexuais e que o partido pretende distribuir “mamadeiras em formato de piroca (pênis)” nas escolas.

Atacados e acuados por garimpeiros e desmatadores, a situação dos povos indígenas, por exemplo, continua a ser um ponto cego estatístico, mas os registros oficiais evidenciam suas profundas fragilidades. Apesar das melhorias alcançadas nas últimas décadas, 42%das famílias indígenas não concluíram o ensino fundamental. Além das altas taxas estimadas de pobreza, 28% dos indígenas não têm acesso à eletricidade; cerca de 51% dos domicílios indígenas não têm abastecimento de água; e uma parcela significativa de suas moradias é construída com material inadequado.

No campo ambiental, o desastre de Bolsonaro atinge níveis alarmantes. Em apenas seis meses deste ano, a Floresta Amazônia sofreu desmatamentos em 3.988 km², de acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. O valor foi o maior já registrado para esse período desde 2016 e o triplo do valor registrado em 2017. Nos primeiros três anos do governo Bolsonaro (2019 a 2021), o desmatamento anual médio na Amazônia foi de 11,4 mil quilômetros quadrados. Ou seja, a Floresta perdeu tamanho equivalente ao território da Bélgica desde que Bolsonaro assumiu o poder.

A Amazônia é chave para a regulação das chuvas das quais dependem a agricultura, o abastecimento de água potável e até a disponibilidade de hidroeletricidade no Brasil. Mariana Napolitano, gerente de ciências do WWF-Brasil, disse que o desmatamento da Amazônia neste ano coloca o bioma cada vez mais perto do ponto a partir do qual a floresta não conseguirá mais se sustentar nem prover os serviços ambientais dos quais o país depende. “O roubo de terras públicas e o garimpo ilegal, que não geram riqueza ou qualidade de vida, estão destruindo nosso futuro”, afirmou ela.

Não por acaso os partidos políticos que apoiam Bolsonaro receberam o maior volume de doações eleitorais feitas por pessoas físicas autuadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Mais da metade de todo o dinheiro destinado por multados às campanhas até o momento foi para as três legendas bolsonaristas. Partido Liberal, Republicanos e Progressistas receberam, juntos, mais de 2 milhões de euros de desmatadores, demonstrou investigação do jornal “O Estado de S.Paulo”. As doações beneficiam 67 candidatos aliados do chefe do Executivo federal, dentre eles o próprio presidente. A campanha de Bolsonaro recebeu para si 750 mil euros de desmatadores.

No balanço geral, Bolsonaro chega ao final de seu mandato com rejeição de 53% dos eleitores, um recorde negativo entre os mandatários que buscaram a reeleição. Não há caso de presidente reeleito no Brasil com tal taxa de rejeição.

Um homem apaziguador

Luiz Inácio Lula da Silva, aos 76 anos, está próximo de obter seu terceiro mandato presidencial. Passou três anos no que parecia ser seu ostracismo definitivo. Ficou viúvo em 2017, quando Marisa Letícia, a mulher com quem estava casado havia 43 anos, sofreu um acidente vascular cerebral e morreu _Lula já era viúvo da primeira mulher, com quem fora casado entre 1969 e 1973, morta em trabalho de parto. Quando estava na prisão, perdeu ainda um irmão, que sofria de câncer, e o neto de 7 anos, vítima de meningite. Ao deixar a cadeia em novembro de 2019 e recuperar os direitos políticos em março de 2021, o petista revigorou-se pessoal e politicamente.

Casou-se pela terceira vez em maio deste ano com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, 55 anos. Ele a havia conhecido em 2017, em uma partida de futebol beneficente que participara em São Paulo ao lado de nomes como o cantor Chico Buarque. Mantiveram o namoro de forma discreta quando Lula estava na prisão. Janja é militante ativa da campanha petista. Chegou a criar arestas internas no PT quando publicou comentários debochados sobre jornalistas e adversários. Quando Lula concedeu sua primeira entrevista exclusiva à Rede Globo, maior emissora de televisão brasileira, Janja escreveu: “Desconfio que meu marido não vai querer jantar hoje. Já está satisfeito”, escreveu, numa referência de que Lula teria “jantado” seus questionadores.

Lula conseguiu montar uma aliança com nove partidos políticos, dando mostra de apoio amplo de vários setores da política brasileira. Da esquerda mais radical, representada por Guilherme Boulos e o PSOL, passando por liberais como os ex-ministros da Fazenda Henrique Meirelles e Rubens Ricupero, chegando até a caciques políticos e conservadores de direita como Renan Calheiros e José Sarney. Seu gesto à direita mais celebrado foi a escolha de Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente. Apesar de filiado a um partido de esquerda, PSB, Alckmin por duas vezes concorreu à Presidência pelo PSDB e tem laços estreitos com o catolicismo conservador que se agrega, por exemplo, na Opus Dei.

Em campanha, o petista procurou adotar uma linha apaziguadora, com respeito às diferenças políticas e defesa da pujança e continuidade da democracia brasileira, com reverência à Constituição. Podem parecer ideias óbvias, mas que se tornaram importantes desde a ascensão de Bolsonaro, que fez dos ataques às instituições políticas e judiciárias uma estratégia para alimentar a tensão no ambiente político.

Se confirmada a eleição de Lula, o petista se tornará o líder político que mais tempo governou o país em período democrático. Só estará atrás de Getúlio Vargas, que foi ditador entre 1930 e 1945 e, depois, presidente democraticamente eleito entre 1951 e 1954, quando se suicidou.

Repetir Trump

O tema político mais candente no Brasil é se a provável derrota para Lula será aceite por Bolsonaro. Muitos apostam que Bolsonaro vai de alguma forma repetir Trump, com ataques e confrontos para contestar o resultado eleitoral. Depois da tragédia, a história se repetiria no Brasil como farsa.

Durante visita a Londres para o funeral da rainha Elizabeth II, o presidente brasileiro horrorizou os ingleses ao fazer campanha eleitoral em meio ao luto do reino. Da sacada da casa do embaixador brasileiro em Londres, Bolsonaro berrou, para o pequeno grupo de apoiadores aglomerado na rua, que qualquer resultado diferente de sua vitória no primeiro turno seria indício de que “algo anormal aconteceu dentro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral, que comanda o pleito nacional)”.

Como lembrou a cientista política Maria Hermínia Tavares, denúncias, ataques e até golpes baixos têm sido recursos corriqueiros dos caçadores de votos, mas Bolsonaro bate recorde de absurdos. “Inédita é a desqualificação antecipada das instituições eleitorais por quem se candidata —de novo, no caso— ao posto mais ambicionado da República. Tampouco as paixões de confrontos idos se comparam ao clima funesto resultante da sistemática disseminação de suspeitas sobre o modelo de votação; da coreografia violenta das motociatas; dos cartazes brandidos em passeatas pedindo a volta da ditadura; das ameaças, nas redes e nas ruas, a simpatizantes de Lula ou dos tenebrosos episódios de assassínio de adeptos do ex-presidente”, listou Tavares, uma das decanas da cátedra política no Brasil.

A virulência do discurso de Bolsonaro tem se materializado em confrontos físicos provocados por simpatizantes seus contra petistas. Neste mês, um homem que defendia o voto em Lula foi morto a facadas por um bolsonarista, após uma discussão em Confresa, cidade do interior do Mato Grosso. De acordo com a polícia, o autor do crime tentou decapitar a vítima e ainda filmou o corpo.

Em julho, um policial bolsonarista invadiu uma festa de aniversário e matou a tiros um militante petista, em Foz do Iguaçu, no Paraná. O tema da decoração da festa era em homenagem a Lula, que tinha seu rosto estampado no bolo, também enfeitado com a estrela do PT.

O papel das forças armadas

Uma das figuras retóricas que Bolsonaro mais usa é classificar as Forças Armadas como poder moderador dos conflitos nacionais. Este papel não está previsto na Constituição, mas o atual presidente faz uma leitura muito própria de artigo 142 da Carta: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”

Na interpretação de Bolsonaro, o presidente pode provocar a intervenção das Forças Armadas para garantir a lei e a ordem conforme esse artigo constitucional. Muitos já especulam que confrontos e violência nas ruas questionando o resultado eleitoral poderiam ser o caldo de cultura que alimentariam as intenções golpistas de Bolsonaro, por diversas vezes delineadas em discursos a seus apoiadores.

Bolsonaro tem questionado com frequência o processo de votação eletrônica adotado no Brasil desde 1996. Em 26 anos de utilização nunca foi constatada fraude no processo nem ameaças externas como eventual invasão do sistema de apuração por hackers.

Bolsonaro, no entanto, insiste em que o sistema é frágil porque não permite auditagem por meio de comprovantes impressos dos votos. Atualmente, o sistema deve apurar os votos de 156 milhões de eleitores em seis horas. Se houvesse contagem manual dos votos impressos, a apuração poderia demorar dias ou mesmo semanas.

O presidente reclama de que só o Brasil utiliza o voto eletrônico, o que seria sinal de que o sistema não é confiável. Na realidade, de acordo com o Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Social, 23 países usam urnas com tecnologia eletrônica para eleições gerais e outros 18 as utilizam em pleitos regionais. Entre esses países estão o Canadá, a Índia e a França, além dos Estados Unidos, que têm urnas eletrônicas em alguns estados.

Em ato inédito, as Forças Armadas anunciaram que farão uma auditoria da apuração dos votos, recolhendo boletins de urnas em diversos pontos espalhados pelo país e totalizando os votos paralelamente à apuração oficial. O Tribunal Superior Eleitoral, que comanda as eleições e apurações, assegura a lisura do pleito e informou que tal procedimento pode ser seguido por instituições e partidos políticos que o desejarem.

Cena de comédia

O temor de fissura institucional provocada por Bolsonaro é real e discutido abertamente por políticos, empresários e mesmo diplomatas estrangeiros. Em resposta a um dos muitos ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, divulgou nota, aprovada pelo Departamento de Estado norte-americano em Washington, dizendo que o sistema eleitoral brasileiro é modelo para o mundo

Os muitos atritos políticos provocados por Bolsonaro são sérios e graves. No entanto, seu lado folclórico, por mais ridículo que seja, acaba humanizando gestos e declarações que seriam naturalmente inconcebíveis. Em 7 de setembro, o Brasil comemorou 200 nos da independência de Portugal. O ato cívico foi transformado em comício por Bolsonaro e terminou com cena de comédia pastelão. Ao lado da primeira-dama Michele, o presidente da República regeu um coro com elogio a si próprio por suposta excelência na performance sexual. “Imbroxável! Imbroxável”, gritou Bolsonaro acompanhando a multidão.

Bolsonaro aproveitou as cerimónias de celebração dos 200 anos da independência do Brasil para, ao lado da primeira-dama Michele, tecer um rasgado elogio a si próprio por suposta excelência na performance sexual.
Bolsonaro aproveitou as cerimónias de celebração dos 200 anos da independência do Brasil para, ao lado da primeira-dama Michele, tecer um rasgado elogio a si próprio por suposta excelência na performance sexual.
Foto: Mauro Pimentel/AFP

Como notou o humorista Gregório Duvivier, pensavam que Bolsonaro transformaria o 7 de Setembro num evento sobre eleições, mas acabou sendo sobre ereções. A palavra que ficará marcada na comemoração do bicentenário da Independência é o neologismo “imbroxável” _ ou “imbrochável”, como preferir, já que as duas formas são aceites.

“Parece inusitado comemorar nosso aniversário trazendo à tona a impotência, mas tem algo de muito brasileiro na evocação do falhanço. Primeiro porque o verbo broxar é coisa nossa. Não se broxa, que eu saiba, em outras línguas. Nem mesmo em Portugal. Por lá, é necessário pegar emprestado verbos menos específicos: vergou, descaiu. Em inglês, diz-se: Perdi minha ereção, como se fosse um objeto extraviado. Por aqui não precisamos perder nada. Podemos afirmar a falta de firmeza, como se houvesse dolo: broxei. Trata-se de um verbo sui generis, que descreve um não evento, atribuindo ação àquele que não agiu. A flacidez está no nosso DNA”, divertiu-se Duvivier.

Se Bolsonaro vai continuar incansável após a derrota eleitoral que se aproxima, não se sabe. Pesquisa britânica mostrou que derrotas ampliam em 30% a chance de um homem falhar na cama. De todo modo, os brasileiros só esperam que ao menos a tentativa de golpe de Bolsonaro contra a democracia broxe.

(Jornalista escreve em português do Brasil.)

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