Escolha as suas informações

Sacana sem lei
Opinião Mundo 2 min. 01.10.2020

Sacana sem lei

Sacana sem lei

Foto: AFP
Opinião Mundo 2 min. 01.10.2020

Sacana sem lei

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Em filme, os sacanas até podem ser inglórios, mas são certamente bem-parecidos e glamorosos. Na vida real é diferente. Um sacana é alguém perigoso.

Quentin Tarantino tem muitos fãs dedicados, mas é também detestado em alguns quadrantes que não lhe perdoam tanto sadismo e misoginia. O sexto (segundo a contagem do próprio; na verdade já fez mais alguns) filme da carreira, "Inglourious Basterds", não foge à regra. Há sangue falso a rodos e os personagens centrais são todos homens – Tarantino descreveu o argumento como "o meu filme sobre uns gajos que têm uma missão". Até o título do filme em português, percebendo isso, traduz "bastards" por um adjetivo carinhoso que só aplicamos ao género masculino: "Sacanas sem lei".

Em filme, os sacanas até podem ser inglórios, mas são certamente bem-parecidos e glamorosos. Na vida real é diferente. Um sacana é alguém perigoso. Um sacana com poder consegue envenenar a vida de muitos. E quando na cadeira com mais poder de todas se senta o mais canalha dos sacanas, sabemos que o mundo está tóxico. Nos debates televisivos para as presidenciais americanas, há quatro anos, Hillary sugeriu que Trump era o único candidato que se recusava a revelar as suas declarações de imposto porque não pagava impostos. Ele interrompeu-a mais uma vez para vangloriar-se: "isso só quer dizer que sou esperto!".

Na altura, as reações foram fortíssimas e profetizou-se o fim da candidatura de Trump – como é que os contribuintes iam votar em alguém que, em vez de tentar tornar o sistema fiscal que isenta as grandes empresas e os milionários enquanto persegue os que vivem do seu trabalho um pouco menos injusto, promete simplesmente aproveitar-se ao máximo dessas mesmas injustiças? Não seria a primeira vez, nem a última, que se pensou que Trump não tinha hipótese depois de ter dito ou feito algo. Mas ele apela sempre à pior versão de muitas pessoas, aquele lado chico-esperto e enganador em que muitos se revêm, e ganhou mesmo, comprovando aquilo que é provavelmente a sua frase mais sincera de sempre – "eu podia matar alguém na Quinta Avenida e mesmo assim não perder nenhuns votos".

Agora, uma investigação do New York Times acaba de revelar o que todos sabíamos: nos últimos 15 anosa Trump não pagou impostos em 10 deles. Em 2016, ano em que foi eleito, só pagou 650 euros; no ano seguinte – já como presidente – também. Um operário ou professora primária paga pelo menos 10 vezes isto, enquanto uma enfermeira normalmente paga 10 mil euros. Os dados também mostram que Donald, longe de ser um negociante genial, perde mais dinheiro do que aquele que ganha, e tem que devolver empréstimos nos próximos quatro anos no valor de 400 milhões; se não os pagar, e em caso de ser reeleito, podemos assistir à situação insólita de um presidente ver os seus bens penhorados pelos credores.


Trump não paga praticamente impostos e deve milhões
O Presidente dos Estados Unidos tem repetidamente recusado revelar a sua situação fiscal. A poucos meses das eleições o jornal New York Times revela que o multimilionário Donald Trump quase não paga impostos.

Foram quatro anos de mentiras, desastres sanitários e ecológicos, negócios escuros com os amigos autocratas deste mundo. Talvez este novo escândalo se torne na "bala prateada" que nos livre, finalmente, deste sacana sem lei. Talvez. Mas ainda não dá para respirar fundo.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.