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Ártico está a derreter muito mais depressa do que se esperava
Mundo 4 min. 14.10.2020 Do nosso arquivo online

Ártico está a derreter muito mais depressa do que se esperava

Ártico está a derreter muito mais depressa do que se esperava

Foto: Pixabay
Mundo 4 min. 14.10.2020 Do nosso arquivo online

Ártico está a derreter muito mais depressa do que se esperava

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
A Sibéria do Norte e o Ártico canadiano estão agora a aquecer três vezes mais depressa do que o resto do mundo.

No Ártico já nada do que existia permanece. Um novo estudo da revista Nature sobre as alterações climáticas prevê que o gelo marinho que flutua no verão na superfície do Oceano Ártico poderá desaparecer por completo até 2035. 

Até há relativamente pouco tempo, os cientistas previam que o fenómeno acontecessse só depois de 2050. Mas as previsões são agora mais pessimistas, já que no mês passado, o gelo marinho do Ártico atingiu a sua segunda menor extensão em 41 anos de registo por satélite. 

Segundo os cientistas, estes últimos modelos mostram que, independentemente do cenário de emissões que a humanidade optar, a cobertura de gelo de verão neste oceano irá perder-se por volta de 2035. Em postos avançados no Ártico canadiano, o gelo permanente está a descongelar 70 anos mais cedo do que era  previsto.

Há também registo de estradas que estão a encurvar e casas a afundar graças ao degelo. Na Sibéria, as crateras gigantescas agora à vista embolsam a tundra (bioma no qual a baixa temperatura e estações de crescimento curtas impedem o desenvolvimento de vegetação rasteira) à medida que as temperaturas sobem. Durante julho deste ano a cidade siberiana de Verkhoyansk registou temperaturas anormais de 38ºC.


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Esta é mais uma descoberta importante para a ciência, mas que surge como consequência do derretimento do pergelissolo, o tipo de solo encontrado na região do Ártico, que tem vindo a derreter a grande velociadade nos últimos anos. O urso pode ter 39 mil anos.

A par das temperaturas, outros fenómenos estão também a acelerar o degelo. Nesta primavera, um dos tanques de combustível de uma central elétrica russa afundou-se derramando 21.000 toneladas  de gasóleo em cursos de água próximos. O incidente foi atribuído ao declínio do pergelissolo, tipo de solo existente sobretudo nas regiões polares, que se mantém gelado de forma continuada. 

O descongelamento do pergelissolo liberta dois gases com efeito de estufa - dióxido de carbono e metano - para a atmosfera, o que agrava o aquecimento global. No final de julho, 40% da plataforma de gelo de Milne com 4000 anos de existência, localizada no extremo noroeste da Ilha de Ellesmere, no Canadá, desapareceu no mar. Esta era a última prateleira de gelo totalmente intacta do Canadá.  

Do outro lado da ilha, mais a norte as calotas glaciares de St Patrick's Bay desapareceram completamente. Duas semanas mais tarde, os cientistas concluíram que o manto de gelo da Gronelândia já pode ter atingido o ponto de não retorno, uma vez que a queda anual de neve já não é suficiente para repor a neve e a perda de gelo durante o derretimento estival dos 234 glaciares do território. No ano passado, esta camada de gelo derreteu a uma velocidade recorde, equivalente a um milhão de toneladas por minuto. Há algumas décadas seria inimaginável desenhar este cenário.

Segundo os cientistas, a Sibéria do Norte e o Ártico canadiano estão agora a aquecer três vezes mais depressa do que o resto do mundo. Na última década, as temperaturas no Ártico aumentaram quase 1°C. Se as emissões de gases com efeito de estufa se mantiverem na mesma trajetória, é esperado que as temperaturas na zona Norte (que engloba Noruega, Dinamarca, Canadá, Rússia, Finlândia) aumentem 4°C entre 2020 e 2035.

Este calor crescente tem dado origem a fogos selvagens, agora mais comuns nas zonas mais quentes e secas do Ártico. Nos últimos verões, houve registo de fogos na tundra da Suécia, Alasca, e Rússia, que destruíram a vegetação nativa. O fenómeno é prejudicial aos milhões de renas que se alimentam de musgos, líquenes e gramíneas.

Também as chuvas de grande intensidade na neve estão mais frequentes, bloqueando o acesso aos alimentos que se encontram sob o gelo. Segundo o The Guardian, só entre 2013 e 2014, cerca de 61.000 animais morreram na península russa de Yamal devido à fome em massa devido ao inverno chuvoso. A nível global a população de renas diminuiu em cerca de 56% nos últimos 20 anos, acrescenta a publicação. Tais perdas estão a prejudicar os povos indígenas cuja cultura e meios de subsistência dependem destes animais. Os inuítes, por exemplo, utilizam todas as partes do animal: tendão para fio, couro para vestuário, chifres para ferramentas e carne para comida. 

Oportunidades no degelo

Por outro lado há quem encontre oportunidades no meio da crise. O degelo tornou mais fácil o acesso marítimo aos abundantes depósitos de minerais e às reservas de petróleo e gás da região.

Segundo o The Guardian, a China está a investir intensamente na Rota do Mar do Norte, cada vez mais livre de gelo no topo da Rússia, que promete reduzir o tempo de navegação entre o Extremo Oriente e a Europa entre 10 a 15 dias. A Passagem do Noroeste através do Arquipélago Ártico Canadiano poderá em breve produzir outro atalho.

Na Gronelândia, o desaparecimento do gelo está a deixar à vista urânio, zinco, ouro, ferro entre outros elementos raros da Terra. Em 2019, Donald Trump afirmou mesmo que estava a considerar comprar a Gronelândia à Dinamarca. Nunca antes o Ártico tinha gozado de tal relevância política.

Há também relatos de um aumento do turismo na área, pelo menos até ao início da crise pandémica. Segundo Guardian, entre 2006 e 2016 o impacto do turismo de inverno na região aumentou em mais de 600%. 

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