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Revolução Francesa 2.0: Quem são e o que querem os 'coletes amarelos'?
Mundo 5 min. 11.12.2018 Do nosso arquivo online

Revolução Francesa 2.0: Quem são e o que querem os 'coletes amarelos'?

Revolução Francesa 2.0: Quem são e o que querem os 'coletes amarelos'?

Foto: Bertrand Guay/AFP
Mundo 5 min. 11.12.2018 Do nosso arquivo online

Revolução Francesa 2.0: Quem são e o que querem os 'coletes amarelos'?

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Não têm estrutura definida, muitos dizem-se apartidários e garantem que não estão ligados a associações ou sindicatos. O que começou por ser um protesto contra o aumento do preço dos combustíveis transformou-se numa revolta contra o empobrecimento geral das classes médias e baixas.

Com raízes em pequenos grupos de debate e troca de ideias nas redes sociais, os coletes amarelos poderão estar a encaminhar a França para próxima Revolução Francesa, há mais de  200 anos. A luta pela igualdade de direitos e o fim dos benefícios para os mais ricos parece ser o mesmo combate, apenas separado por dois séculos. Maior igualdade entre pobres e ricos, o fim dos privilégios para as classes nobres e maior igualdade entre classes. 

O simbolismo dos coletes amarelos está ligado à própria veste que deve ser utilizada pelos condutores para se fazerem ver em caso de acidente. E é esse mesmo objetivo do protesto, serem vistos e ouvidos. E nem o pacote de medidas anunciado ontem por Macron, incluindo o aumento do salário mínimo em 100 euros mensais, parece aliviar a ira dos gilets jaunes (coletes amarelos, em francês). 


Leandro Nogueira, o português na origem da revolta dos 'coletes amarelos'
Em janeiro deste ano, Leandro Nogueira criou, no Facebook, o grupo que está na origem dos 'coletes amarelos', um movimento cívico apartidário que nasceu nas redes sociais e que não dá tréguas ao governo de Macron.

Há quem ligue mesmo os primórdios do movimento a um português residente em França. Em fevereiro de 2018, Leandro Nogueira criou um grupo na rede social Facebook que pretendia debater os problemas das classes média e baixa na sua cidade, em Dordogne, no sul de França. Atualmente a página tem cerca de 70 mil membros. O descontentamento começou a replicar-se nas redes sociais um pouco por toda a França. Em pequenas cidades, os cidadãos multiplicavam-se em grupos de Facebook para debater o seu fado. 

Quem são os 'gilets jaunes'?

O movimento sem organização formal pretende voltar à carga com novos protestos já no próximo sábado. Onde? Quando? Com que objetivo? É imprevisível. Os coletes amarelos são peculiares: aparentemente apartidários, existem à margem de sindicatos e orientações políticas, e usam as redes sociais como plataformas de mobilização e expressão de descontentamento pelo aumento do custo de vida da classe média francesa. 

No final de novembro um coletivo de académicos e investigadores começou a estudar fenómeno gilets jaunesLançaram um inquérito a 166 membros de diferentes regiões e cidades francesas para estudar as suas características sóciodemográficas e motivações. Os homens (54%) estão em ligeira vantagem sobre as mulheres (45%)e a média de idades do grupo é de 45 anos, um pouco mais elevada que a média nacional (41,4 anos). A maior fatia corresponde a trabalhadores por conta de outrem (33,3%), seguidos dos operários (14,4%), artesãos e pequenos comerciantes (10,5%) e quadros intermédios. Os inativos constituem um quarto dos participantes no movimento (25,5%). 

Não têm líderes e todos lideram. Muitos são operários, secretárias, técnicos de informática e telecomunicações, estafetas e prestadores de cuidados de saúde. Têm apoiantes de vários espectros políticos, da extrema esquerda à direita até naqueles que não se identifica com o quadro partidário. Precisamente, 33,1% dos entrevistados pelo grupo de investigadores franceses respondeu que não se sente de esquerda ou de direita; no entanto, quando a maioria dos participantes que aceita a divisão esquerda e direita é questionada numa escala de 1 a 7 (em que 1 é extrema-esquerda e 7 extrema-direita):  42,6%  posicionam-se à esquerda. Desses 42,6%, 14.9% afirmam-se de extrema-esquerda. No espectro oposto, apenas 4,7% identificam-se como de extrema-direita. 

Principais reivindicações 

Na base do descontentamento começou por estar o aumento dos combustíveis anunciados pelo governo de Macron, um importante passo em direção à energia limpa. Uma fatura da transição ecológica que seria sobretudo pago pelas classes populares. Talvez por isso, rapidamente o movimento focou-se no descontentamento geral relativo ao empobrecimento geral da classe média francesa e das camadas mais populares. Uma petição online criada no final de outubro por uma cidadã, pedia a descida dos preços dos combustíveis. Chegou rapidamente às 200 mil assinaturas e à promessa de uma manifestação a 17 de novembro. A mobilização e organização dos grupos foi feita sobretudo através do Facebook. 


Fotos: Protestos de sábado deixam rasto de destruição em Paris
A 'Cidade das Luzes' foi bastante vandalizada durante os protestos dos 'coletes amarelos' este sábado na capital francesa. Veja as fotos.

No estudo do coletivo de académico, a redução geral dos impostos e taxas é aliás a medida mais desejada pelos coletes amarelos, seguido do aumento do poder de compra, uma melhor distribuição da riqueza e serem ouvidos pelos dirigentes políticos. 

Protesto além-França

A primeira grande manifestação aconteceu a 17 de novembro em Paris e sábado após sábado os manifestantes parecem não dar tréguas. Para além da marcha nos Campos Elísios, os gilets jaunes (coletes amarelos, em francês), bloquearam estradas, rotundas ou até estações de serviço. Continuam nas ruas um pouco por toda a França, bloqueando estradas e marchando aos milhares em várias cidades. Recentemente, grupos de jovens estudantes juntaram-se também aos protestos em algumas cidades, tentando fazer o mesmo em escolas. Paris, Toulouse, Marselha, Lyon ou Saint-Étienne. 

No último sábado, 8 de dezembro, o movimento alargou-se à Bélgica (Bruxelas) e Holanda (Roterdão). Ainda antes tinha inspirado 100 trabalhadores iraquianos que marcharam na cidade de Basra contra a falta de serviços básicos, como água e eletricidade. Em Portugal, estão marcados protestos para 21 de dezembro. Sendo que as algumas páginas do Facebook que apoiam o protestos portugueses são acusadas de produzir fake news e de estarem ligadas à extrema-direita.  Mesmo em França, o tom não parece estar a desvanecer-se. Segundo números do governo, no dia 1 de dezembro 75 mil marcharam sobre Paris. A 8 de dezembro 131 mil pessoas saíram às ruas um pouco por toda a França. Em Paris e Toulouse, registaram-se vários confrontos entre manifestantes e a polícia, que deixaram um rasto de destruição. 700 pessoas foram detidas. Mesmo após o pacote de medidas anunciado ontem por Macron, os coletes amarelos pretendem continuar a fazer-se ouvir já no próximo sábado. Ciclicamente, os franceses parecem entrar em convulsão, será que estamos a assistir a uma nova Revolução Francesa nos protestos?

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