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Cuba: um acidente entre a cabeça e o coração
Opinião Mundo 4 min. 16.07.2021
Revolução

Cuba: um acidente entre a cabeça e o coração

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Cuba: um acidente entre a cabeça e o coração

Foto: AFP
Opinião Mundo 4 min. 16.07.2021
Revolução

Cuba: um acidente entre a cabeça e o coração

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Uma enorme ironia esta: o regime socialista implementado na ilha é, na verdade, o maior impulsionador do empreendedorismo da população, da iniciativa privada, de trocas comerciais desreguladas e de todo o tipo de negócios informais dos cubanos.

Nas ruas de prédios lancetados de Havana, os cubanos contam, com humor, uma história sobre Fidel Alejandro Castro Ruz, o líder histórico da Revolução de 1958. Fidel terá encontrado um homem na rua que lhe disse que tinha fome. ‘Em Cuba, não há fome’, terá respondido Fidel. O homem repetiu que tinha fome e Fidel resolveu levá-lo para casa e serviu-lhe um copo com água, que ele bebeu. De seguida, o líder cubano serviu-lhe outro e mais outro e mais outro, que o homem repetidamente bebeu. No final, diz-lhe: ‘então, vamos lá comer’. 

O homem respondeu que não conseguia porque estava cheio com água. ‘Está a ver’, disse Fidel, ‘você não tinha fome, tinha sede’. Moral da história, concluiu, ‘é importante termos alguém que nos informe sobre as nossas verdadeiras necessidades’. Por muitos textos jornalísticos e políticos que tenha lido durante a minha estada em Cuba, nenhum se mostrou tão fiel ao sentimento com que fui recebida no país como esta pequena alegoria partilhada entre cerveja Cristal cubana e roupa-velha (um prato típico) no Callejon de Hamel, em Havana.

Ano 60 da Revolução dizem os cartazes espalhados na berma da via rápida. Uma estrada em tudo europeia não fossem os clássicos Chevy, Plymouth ou Buick Super, heranças do período pré-embargo americano, de cores garridas a circular como num museu vivo. Como ser jovem com sessenta anos? Como fingir a vitalidade e subir em par os degraus da história, manter a chama da paixão, quando levamos seis décadas de euforias, nacionalizações, embargo e equilíbrio difícil no estreito vértice que nos mantém entre a utopia e a distopia.

‘Façamos o seguinte exercício’, atira-me um professor de História no Bodeguita del Medio: ‘numa estrada estreita, onde só passa um de cada vez, seguem em sentido contrário o coração e a cabeça. Quem tem prioridade na passagem?’. ‘Do acidente, nascerá Cuba’, responde-me. Quando se conhece um cubano, começamos a pensar que até a areia fina da paradísica península de Ancon, no sul da ilha, é matéria-prima para metafisica: eles estão em reflexão permanentemente e isso não é alheio à elevada escolaridade de que dispõem. A conta chega à mesa e totaliza 20 dólares, mais de metade do seu ordenado mensal como professor. Ali está o acidente entre coração e cabeça materializado, sublinha: ‘O que seria de mim ou da minha família, se me limitasse ao meu ordenado como professor’. Não sabe o que são férias porque nunca as conseguiria conciliar com as quatro atividades paralelas – umas oficias, outras oficiosas – que acumula para manter um nível de vida confortável, sem luxos de nenhuma ordem.

Há pobreza? Nos meus parâmetros, diria que sim, mas da branda, passada de mão em mão como areia, que escorre e desaparece entre os dedos a cada mão que se segura ou se toca.

O período especial, com o embargo americano e a queda do bloco soviético, arrasou a indústria cubana, principalmente a açucareira, e atirou Cuba para o racionamento do qual não saiu completamente. O país ainda não soube criar um modelo económico alternativo e a única indústria que prospera é a do turismo - causa da criação das maiores desigualdades de rendimento na população, mas também a principal fonte de proveitos da ilha. Há pobreza? Nos meus parâmetros, diria que sim, mas da branda, passada de mão em mão como areia, que escorre e desaparece entre os dedos a cada mão que se segura ou se toca. Os cubanos são um único corpo de entreajuda.

Uma enorme ironia esta: o regime socialista implementado na ilha é, na verdade, o maior impulsionador do empreendedorismo da população, da iniciativa privada, de trocas comerciais desreguladas e de todo o tipo de negócios informais dos cubanos. A política de duas moedas em vigor faz com que quem trabalhe com turismo e tenha acesso a estrangeiros viva substancialmente melhor do que quem apenas recebe o seu ordenado estatal. 

Os cubanos são particularmente inventivos a alimentar o mercado negro, por onde passa cerca de 80 a 90 por cento da economia do país. O dia-a-dia dos cubanos faz-me pensar num poema de Amalia Bautista que cito de cor: mantenho-me à tona de água, não venhas agora tu fazer ondas. Mas o mar tem estado agitado e o pouco saiu à rua.

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